O início dos amos 90 eram promissores para a pequena seleção de Zâmbia, que surgiu aos olhos do mundo nas Olimpíadas de 88, com uma vitória estrondosa sobre a Itália por 4 a 0, com três gols de Kalusha Bwalya. Em abril de 93, estavam na liderança das eliminatórias para a Copa Africana de Nações e estavam iniciando a batalha por uma vaga na Copa do Mundo, indo para a segunda partida da competição. A esperança era grande. Mas aquele time sofreu um golpe irrecuperável. Mortal. 

No dia 27 de abril de 1993, o avião militar que levava os jogadores para Senegal, para uma partida das Eliminatórias da Copa, caiu nas águas do Oceano Atlântico às 22:44, uma hora e quarenta minutos após a decolagem depois de uma parada para reabastecimento em Libreville, capital do Gabão. Nenhuma das 30 pessoas a bordo sobreviveu ao desastre. O capitão e craque Bwalya escapou, pois estava em Eidhoven, na Holanda, no momento do acidente. A aeronave havia saído de Port Louis, capital das Ilhas Mauricio, onde a seleção de Zâmbia havia vencido um jogo por 3 a 0, pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações, com um hat-trick de Kelvin Mutale.

Segundo um relatório divulgado 10 anos depois da tragédia, a aeronave bimotor utilizada teve uma falha mecânica no motor esquerdo durante o voo. No painel, uma luz indicava a falha, e erroneamente, a tripulação desligou o motor direito, fazendo com o que o avião perdesse toda a força, e consequentemente caísse. O acidente abalou o país, que realizou inúmeras homenagens, como a construção de um memorial próximo ao estádio da Independência, onde estão enterrados os corpos das vítimas.

Um ano depois do acidente, a seleção mostrou que era possível reconstruir, ao chegar na final da Copa Africana de Nações, na Tunísia. Zâmbia acabou perdendo por 2 a 1 para a forte Nigéria. Nas eliminatórias para a Copa, ficou a um ponto do passaporte para os Estados Unidos. Em 2012, 19 anos depois de ver uma geração de talentosos jogadores ser desperdiçada, a Zâmbia foi campeã da CAN numa disputa frenética de pênaltis com a Costa do Marfim. Curiosamente, a final foi disputada em Libreville, e com Kalusha Bwalya na presidência da federação. No mesmo lugar em que os Chipolopolo viram as cinzas, também viram a glória e redenção.

Abaixo, a lista das vitimas da tragédia:

Tripulação:
Fenton Mhone (piloto)
Victor Mubanga (piloto)
James Sachika (piloto)
Edward Nambote (tripulante)
Tomson Sakala (tripulante)
Jogadores:
Efford Chabala (goleiro)
John Soko (defensor)
Whiteson Changwe (defensor)
Robert Watiyakeni (defensor)
Eston Mulenga (meia)
Derby Makinka (meia)
Moses Chikwalakwala (meia)
Wisdom Mumba Chansa (meia)
Kelvin “Malaza” Mutale (atacante)
Timothy Mwitwa (atacante)
Numba Mwila (meia)
Richard Mwanza (goleiro)
Samuel Chomba (defensor)
Moses Masuwa (atacante)
Kenan Simambe (defensor)
Godfrey Kangwa (meia)
Winter Mumba (defensor)
Patrick “Bomber” Banda (atacante)

Comissão técnica:
Godfrey “Ucar” Chitalu
Alex Chola
Wilson Mtonga
Wilson Sakala

Outros:
Michael Mwape (diretor da federação)
Nelson Zimba (funcionário público)
Joseph Bwalya Salim (jornalista)

***


O trabalho de um goleiro é evitar gols. Sofrê-los, porém, também faz parte da rotina desse profissional do mundo da bola. Mas ter orgulho de levar um gol é coisa rara entre os guarda-redes. Imagine, então, que um lance em que o atleta foi vencido pelo chute de um atacante seja o ápice da carreira de um goleiro. Pois esse é o grande feito da vida de Zaluar Torres Rodrigues, o goleiro responsável por ser a primeira vítima dos mais de 1000 gols de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Sergipano de Propriá, passou por várias equipes, entre elas o Esporte Clube Bahia, antes de se estabelecer em Santo André, região metropolitana de São Paulo.

O fato que o colocou em evidência aconteceu em 7 de setembro de 1956, dia da Independência e a partida entre o Corinthians de Santo André e Santos foi promovida pela prefeitura local por meio da Secretaria de Educação e Cultura como parte das comemorações da data, e foi realizado com portões abertos. O palco do jogo, apitado por Abílio Ramos, foi o Estádio Américo Guazzelli. O time santista venceu aquele jogo por 7 a 1. 

Zaluar nem titular era naquele momento. Apesar de ter fardado a camisa 1 durante um bom tempo e se destacado na posição, era reserva de Antoninho no modesto Corinthians. No intervalo, já com o placar apontando uma goleada de 4 a 0 para o Santos, o rechonchudo arqueiro assumiu a posição para tentar evitar um resultado ainda mais elástico. Durante a segunda etapa, o técnico Lula, do Alvinegro Praiano, também mudou. Saiu Del Vecchio, que já havia marcado duas vezes, e entrou Pelé, um garoto negro e magricelo de apenas 15 anos. 

Versões de como foi o gol de Pelé são muitas. Algumas dizem que Pelé ficou com a sobra de uma disputa pelo alto vencida por Hélvio, avançou driblando e marcou. Outra versão aponta para uma tabela entre Tite e Raimundinho, que terminou em lançamento para Pelé finalizar. De acordo com o site Paixão Canarinha, Zaluar, em entrevista realizada no ano de 72, descreveu assim o lance: 

“Eu tinha condições de defender aquela bola. Quando o Jair lançou o guri, gritei para o Mario (zagueiro) fazer a cobertura. Ele levou um chapéu e num segundo o Pelé estava diante de mim. Poderia ter entrado duro mas não tive coragem ao ver aquelas canelas finas do garoto. Pelé balançou o corpo para a direita e depois para a esquerda e quando eu dei por mim, ele já tinha tocado a bola no meio de minhas pernas!

Ficha Técnica
Corinthians de Santo André 1x7 Santos
Data: 7 de setembro de 1956
Local: Estádio Américo Guazelli (Santo André-SP)
Juiz: Abílio Ramos
Corinthians F. C. de Santo André: Antoninho (Zaluar), Bugre (Mario) e Chicão (Dati); Mendes, Zito e Tonico; Vilmar, Cica e Teleco (Odilio); Rubens e Doré. Técnico: Jaú.
Santos: Manga, Hélvio e Ivan (Cássio); Ramiro (Fioti), Urubatão e Zito (Feijó); Alfredinho, Alvaro (Raimundinho) e Del Vecchio (Pelé); Jair e Tite. Técnico: Lula.
Gols: Alfredinho aos 28, Álvaro aos 30, Del Vecchio aos 34 e Alfredinho aos 41 do 1º T, Del Vecchio aos 15, Pelé aos 34, Wilmar (Corinthians) aos 41 e Jair aos 44 do 2º T.

Mas a tristeza de tomar um gol por debaixo das pernas se tornou alegria alguns anos depois, quando Zaluar percebeu a importância daquele fato do qual foi personagem direto. O fiscal de vendas da Prefeitura de Santo André se preocupava em mostrar a todos quem era, afinal, dessa maneira, estaria para sempre nos livros de história do futebol. Seu cartão profissional apontava: “Goleiro 1º gol Pelé (07/09/1956)”. Enviava cartas para a Revista Placar pedindo para mostrar sua foto, sua história e claro, divulgar seu endereço para quem quisesse se corresponder com ele. Zaluar morava na Av. Dom Pedro II, 1591, conjunto 4. Nas partidas de veteranos do Aramaçan, de Santo André, usava o uniforme abaixo:


Zaluar se sentia tão feliz do "feito", que em 1969 presenteou Pelé com um troféu com a seguinte inscrição:

“A Edson Arantes do Nascimento ‘Pelé’ - Este troféu é a homenagem que presto ao maior jogador de futebol do Mundo como lembrança de uma jornada histórica, na qual tive a honra de ser o primeiro goleiro a ser vencido pela sua extraordinária habilidade. 8 de novembro de 1969. Zaluar Torres Rodrigues”.

Orgulhoso de seu posto na história do futebol, Zaluar faleceu em 1995, aos 69 anos, de insuficiência cardíaca. Curioso notar que apesar do esforço de Zaluar em ser lembrado, há quase nada registrado sobre sua vida, seja dentro ou fora das quatro linhas. Entretanto, assim como tantos outros nomes, Zaluar sempre será lembrado, e em uma das mais belas e importantes páginas da história do futebol: a vida e obra de Pelé. 



Desconhecido do grande público, Samuel Hemans Arday, ou apenas Sam Arday, foi um dos mais influentes treinadores da história do futebol africano, conquistando grandes feitos com a seleção de Gana em todas as categorias. Nascido em 2 de novembro de 1945, o treinador levou o país (e o continente) a uma inédita medalha olímpica no futebol (bronze, em Barcelona, 1992) e ao título do Mundial sub-17 de 1995. 

Sam Arday era adepto do multissistema, que consistia na troca de sistema de jogo durante o decorrer da partida. Ou seja, alternava entre o 4-4-2, o 4-3-3 e até o 3-5-2 dentro dos 90 minutos. Os resultados que Arday obteve realçaram o fato de que ele foi um dos primeiros treinadores locais a utilizar métodos científicos de treinamento. Ele começou sua carreira como treinador em 1991, na seleção sub-20 de Gana, ficando com a terceira colocação do Campeonato Africano Juvenil. No ano seguinte, assumiu a seleção olímpica e se classificou para as Olimpíadas de Barcelona. Na Espanha, Gana ficou no grupo D, com Austrália, Dinamarca e México. Após vencer os australianos na estreia, Gana garantiu a liderança do grupo com dois empates nas partidas restantes. Nas quartas de final, vitória por 4 a 2 sobre o Paraguai com três gols de Kwame Ayew, um dos irmãos do mítico Abedi Pelé. Porém, nas semifinais, pouco pôde fazer diante dos anfitriões, e a Espanha passou à final ao vencer por 2 a 0. Na decisão de 3º lugar, Gana voltou a enfrentar a Austrália. Dessa vez, o jogo foi mais duro do que na primeira fase (Gana havia vencido por 3 a 1), mas Asare, logo aos 19 minutos, marcou o único gol da partida que deu ao continente africano a inédita medalha olímpica (que se tornaria dourada quatro anos depois com os nigerianos). 

Após a campanha, Sam deu sequência ao trabalho olímpico e assumiu o comando da seleção sub-17 de Gana após o vice-campeonato mundial, em 93. Em 1995, a CAF (Confederação Africana de Futebol) organizou o primeiro Campeonato Africano da categoria, e Gana faturou o título e a classificação para o Mundial sub-17, que seria disputado naquele mesmo ano no Equador. Gana ficou no grupo A com os donos da casa, os Estados Unidos e o Japão e fechou a primeira fase com 100% de aproveitamento. Nas quartas-de-final eliminou Portugal por 2 a 0. Depois venceu a surpreendente seleção de Omã por 3 a 1 nas semifinais, e na finalíssima derrotou o Brasil por 3 a 2, conquistando o segundo mundial da história de Gana. Aquela Seleção Brasileira tinha nomes como os do goleiro Julio César, o zagueiro Juan (ambos ex-Flamengo e seleção principal), o volante Renato (ex-Santos e Sevilla) e Edu (ex-Betis).

Em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta, Sam Arday voltou a reencontrar o Brasil, nas quartas-de-final do torneio olímpico. Depois de sair atrás do placar, Gana virou o jogo para cima dos brasileiros já no início do segundo tempo. Mas o ainda jovem Ronaldo marcou duas vezes e Bebeto completou a vitória brasileira por 4 a 2, acabando com o sonho de mais uma medalha olímpica.

Após as Olimpíadas de Atlanta, Sam assumiu a seleção principal de Gana, mas não durou no cargo mais do que um ano. Entretanto, seu trabalho de base consolidou Gana como uma potência local. Vários atletas que fizeram parte da seleção classificada para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, passaram pelas mãos de Arday. Em 1999, se tornou diretor técnico de uma academia de futebol em Accra, fundada pelo Feyenoord, da Holanda. Em 2004, teve outra curta passagem pelo comando técnico da seleção principal e no mesmo ano passou sem sucesso pelo Ashanti Gold, encerrando sua carreira como treinador (ele também treinou as equipes Asante Kotoko e Hearts of Oak). Após a Copa de 2006 seguiu fazendo parte da federação como consultor técnico e mais recentemente era diretor técnico de uma academia de futebol. No dia 12 de fevereiro de 2017, aos 71 anos, Sam Arday finalizou sua jornada neste mundo, deixando um importante legado para o futebol do continente africano.

***



Quando a bola rolar nesta terça-feira, dia 5 de março, será dado início a fase de grupos da 60ª edição da Copa Libertadores da América. Embora a própria organização e a mídia envolvida no torneio não tenha se importado com a marca, aproveitamos a ocasião para relembrar o pontapé inicial do torneio, em 1960.

Ainda nomeada como Copa dos Campeões da América, moldada à imagem e semelhança da Copa dos Campeões da Europa, criada na década anterior, a Libertadores de 1960 reuniu sete campeões nacionais – era para ter sido oito, mas os peruanos do Universitario desistiram. A fórmula não poderia ser mais simples. Eliminatórias simples, em ida e volta, com quartas-de-final, semifinal e final. Os uruguaios do Peñarol acabaram sendo os campeões da edição inaugural ao eliminar Jorge Wilstermann-BOL, San Lorenzo-ARG e Olimpia-PAR. Foi também o Peñarol que participou da abertura da competição, em um jogo disputado no mítico Centenario, em Montevidéu. Os carboneros receberam o Jorge Wilstermann, campeão boliviano. Curiosamente, o Peñarol tinha sido o último representante definido, já que a decisão do campeonato uruguaio de 1959 havia acontecido apenas no dia 20 de março de 1960.

Além do fato do futebol boliviano ser de um nível muito abaixo das demais nações, o Peñarol dos anos 60 era uma das equipes mais fortes do planeta. Com isso, o Peñarol venceu com facilidade, aplicando um sonoro 7 a 1 diante de 28.700 pagantes. Carlos Borges foi o responsável pelo gol inaugural da competição, aos 13 minutos, e também pelo primeiro doblete,  ampliando o marcador aos 17. Três minutos depois, Luis Cubilla fez o terceiro. Depois, Alberto Spencer, o equatoriano que até hoje é o maior artilheiro da história da Libertadores, com 54 gols, marcou quatro vezes, registrando assim o primeiro hat-trick e o primeiro poker da competição. Máximo Alcócer fez o gol de honra dos bolivianos. O interesse da imprensa no torneio, ao menos por parte dos brasileiros, se mostrou ínfimo. Meras notas de rodapé noticiaram o verdadeiro massacre que o Peñarol impôs ao Jorge Wilstermann. Já por parte dos uruguaios, a partida recebeu total atenção dos meios de comunicação, naturalmente.

Da edição inaugural ao ano de 2019, a competição cresceu, ganhou prestígio, mas tem se afastado cada vez mais de sua própria identidade, além de sofrer desde seus primórdios pela desorganização institucional do futebol sul-americano. Milionária, oferecendo mais de 20 milhões de dólares em premiação, o torneio cai em descrédito diante de tanta bagunça fora das quatro linhas. Que ao menos dentro de campo, os jogadores façam jus aos grandes nomes do futebol do continente.


***


Em 2015, o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa-PR, buscava retomar a relevância regional. Sem calendário para o ano todo, disputar competições nacionais era o principal objetivo de um clube que, com mais de 100 anos de história, jamais havia conquistado um título importante. Para a temporada, chegou um volante com experiência em equipes de porte médio e que já chegou vestindo a faixa de capitão: Wellington Francisco da Silva Souza, ou melhor, o Chicão.  Cinco anos depois, em um jogo de semifinal de turno do Campeonato Paranaense, contra o Toledo, Chicão entrava em campo pela centésima vez com a camisa do Fantasma, uma marca considerável em uma equipe do interior. E nesse centenário de jogos, conquistou um inédito Campeonato Paranaense (2015), um Paranaense da 2ª divisão (2018) e dois Campeonatos Brasileiros (Série D e C, em 2017 e 2018, respectivamente). Aos 33 anos, Chicão segue sendo o principal líder de um Fantasma que almeja assustar os grandes clubes brasileiros. Conversamos com o capitão do Operário sobre sua trajetória no clube, sua experiência e sobre o que ainda está por vir.

***

No último mês, você atingiu a marca de 100 jogos com a camisa do Operário, no jogo contra o Toledo. Que sentimentos vêm à sua mente quando você pensa em toda essa trajetória que você construiu no Operário?

Fico feliz, porque eu não imaginava chegar num clube, um clube que é centenário, um clube que não tinha títulos estaduais. Lembro que cheguei em dezembro de 2014, e o clube necessitava de um calendário. Não imaginava chegar nessa marca de cem jogos As circunstâncias foram levando para esse lado positivo. De ter essa continuidade dentro do clube, de ser uma referência por ser o capitão. Isso me ajudou muito a chegar a essa marca. Me sinto lisonjeado e feliz por conseguir isso.

E sobre essa questão de ser o capitão? Você foi escolhido para esse posto desde que chegou, ainda na pré-temporada em 2015. O que faz um jogador ser um bom capitão dentro de campo?

O treinador que naquela época me trouxe para cá, que era o Itamar Schulle, falou comigo que eu seria o capitão por ter essa liderança ali dentro de campo, de orientar bem os companheiros, por estar brigando por cada espaço, por cada bola dentro do jogo. Isso me ajudou a crescer também. Nunca tinha sido capitão nas outras equipes que passei. Apenas um ou dois jogos, mas não por tanto tempo. Eu não gosto de perder e consegui transmitir isso aos meus companheiros, a todos que vivenciaram esses cem jogos comigo. Em treinamento, até brinco com os caras, que nem no rachão eu gosto de perder. Isso motiva os meus companheiros a seguir.

Em 2015, vocês chegaram à final do Paranaense contra o Coritiba, e acabaram ficando com a vitória (2 a 0 em Ponta Grossa, no Germano Krüger e 3 a 0 no Couto Pereira, em Curitiba). Mas antes do jogo, como que era a pressão pelo fato do Operário nunca ter sido campeão, em 100 anos de história?

Eu vejo que não tinha tanta pressão, não. O objetivo principal do clube era uma vaga na série D do Brasileiro. O clube, a diretoria, tinha essa perspectiva de ter um calendário, e isso a gente já tinha conseguido. Até por ter conquistado isso, fomos um pouco mais leve para essa final. Conhecíamos bem a equipe do Coritiba. E a gente vinha em um momento muito bom, e sabíamos que o Coritiba não gostaria de enfrentar uma equipe como a nossa. Tínhamos uma marcação muito forte, nenhum clube gosta de enfrentar um adversário da forma que a gente atuava. Mas aquela conquista de vaga pra série D, que se não me engano foi contra o Paraná, nas quartas-de-final, tirou esse peso de final. Claro que a gente queria ser campeão, tinha essa ansiedade, mas não nos fez sentir tanta pressão nos dois jogos das finais. Por isso que o resultado foi bem elástico para uma final, e por ser contra uma equipe de tradição no estado e no futebol brasileiro.

E na sequência desse título paranaense, novas conquistas foram acontecendo. Série D e Série C do Campeonato Brasileiro. Qual é a diferença principal entre essas duas divisões e qual foi o título mais difícil de ser conquistado?

A diferença é que na série D você não pode bobear em nenhum momento. A gente vinha com uma pressão muito grande de ter que conquistar uma vaga para a Série C, porque a gente não tinha conseguido subir na Divisão de Acesso do Paranaense (nota: o Operário havia sido rebaixado em 2016 no estadual, um ano após conquistar o título estadual). E a dificuldade da D é muito maior que a da C. Se você não classificar nessa primeira fase de grupos você já está sem calendário para o resto do ano. Você não tem mais o que fazer. Muitos jogadores iriam ficar desempregados, ou ter que partir para outra equipe, outra competição, outro estado. Mas conseguimos lidar com isso, buscamos muita força pra conquistar esse título que foi bem mais complicado que a terceira divisão. Na Série C você tem turno, returno, tem tempo de recuperar, de ajustar algumas coisas. As duas difíceis, a série C por ter um nível técnico melhor, mas a D era algo que não tinha margem de erro.


Você é considerado um “Rei do Acesso”. São três acessos na Série D (Juventude/2013, Brasil de Pelotas/2014 e Operário/2017) e outros três na Série C (Criciúma/2010, Chapecoense/2012 e Operário/2018). O que essas conquistas te trouxeram de experiência, de visão sobre o futebol das divisões inferiores e do calendário?

Os clubes, principalmente os de interior, que precisam muito de receita, têm o seu torcedor ali, mas é diferente dos grandes times que tem o ano todo pra jogar, tem receitas de patrocínio. O clube consegue andar com as próprias pernas. E em equipes inferiores você tem que conquistar algo para que o clube consiga permanecer em atividade. É o que aconteceu aqui no Operário e em outros times que passei também. Se o clube não conseguisse o acesso, dificilmente teria força para o próximo ano, disputar um estadual ou até um brasileiro novamente. Você tem que vencer de qualquer jeito. E tinha que concentrar muito para que isso acontecesse. A maior experiência é essa.

Na sua carreira você passou por diversos clubes de cidades pequenas ou médias, mas de importância econômica para suas regiões, e que tiveram projetos esportivos bem sucedidos: Brasil de Pelotas, Criciúma, Chapecoense, Luverdense, Operário... você viu de dentro as coisas dentro do futebol do interior dando certo. Qual é o caminho para que os resultados positivos apareçam nessas equipes?

Responsabilidade. Clubes do interior, e até clubes de Série B e Série A, acham que o jogador de futebol tem que trabalhar ali e não receber. Ou receber daqui dois, três meses. E não tratam o jogador da forma que ele tem que ser tratado. Por isso que muitos clubes hoje em dia estão falidos, ou com muitas dívidas trabalhistas por causa disso. E esses clubes em que conquistei o acesso tinham um pensamento diferente. Tinham diretores com uma visão diferente do futebol antigo. ‘Se não rendeu hoje eu não preciso pagar’. E deixava o jogador sem receber. E essas equipes tinham essa responsabilidade de tratar o jogador como tem de ser tratado. O jogador tem família, precisa receber. Saber que no final do mês o jogador tem que cuidar da família. E o atleta entra em campo para trabalhar tranquilo. Não fica aquela preocupação. ‘Será que vou receber na data certa? Será que vou ter dinheiro pra comprar aquela coisa mês que vem, pra pagar aquela conta?’. Então, os clubes estão mudando esse conceito, principalmente, por ter aqui no Operário, por exemplo, um grupo gestor. São empresários que sabem administrar bem suas empresas e que estão colocando essa experiência dentro do clube. Tá fazendo o clube crescer, trazendo mais torcedor para o clube e dando tranquilidade ao jogador.

Em breve, o Operário terá pela frente o desafio da Série B. Jogos mais difíceis, calendário com mais jogos, adversários com mais dinheiro. O que podemos esperar da participação do Fantasma?

Uma equipe que vai buscar o objetivo que é chegar à Série A. Sabemos que é difícil, que é complicado. É a primeira vez que o clube conquista o acesso. Já havia participado da série B, mas sempre como convidado quando participou há muito tempo atrás. Chegamos com uma certa moral pra disputar a segunda divisão, mas também com a responsabilidade de que permanecer na Série B pode trazer bons frutos futuramente ao clube. Se vamos subir de patamar no futebol, sabemos que as dificuldades vão ser cada vez maiores, mas queremos viver isso. Jogos grandes, jogos com grandes equipes, bastante torcida. O Operário está bem ciente do que vamos enfrentar, mas as equipes também terão bastante dificuldades quando vierem enfrentar o Operário.

Você começou a jogar futebol há pouco mais de 10 anos lá na sua cidade, em Cáceres-MT. Hoje, com 33 anos é bicampeão brasileiro, capitão e ídolo de uma equipe com uma torcida fanática. Qual o balanço que você faz da sua carreira, de Cáceres à Ponta Grossa?

Vou te falar que eu nem imaginava ser jogador de futebol, ainda mais vivendo esse momento aqui no Operário. Jogava o futebol por diversão e recebi um convite para fazer um teste. Depois desse teste a carreira deslanchou. Pensava muito em conseguir dar sequência. E aquele trabalho diário, aquela responsabilidade de sempre dar o melhor, que lá na frente as coisas poderiam melhorar ainda mais, é o que aconteceu comigo. Sempre trabalhando forte, me dedicando ao máximo para colher os frutos. Hoje cheguei a um clube em que vou fazer cinco anos. Cinco anos de conquistas, quatro títulos dentro do clube. Conquistei o primeiro título paranaense do clube, é uma marca importante. Dois brasileiros. Para mim já é uma carreira vitoriosa, mas vou buscar ainda mais.
***

Fotos gentilmente cedidas pela Agência Do Rico ao Pobre e pelo fotógrafo Danilo Schleder


Em 1974, Franco D’Attoma, sócio de uma das maiores empresas de roupas da Itália, assumiu o endividado Perugia. Uma de suas primeiras ações foi a contratação do técnico Ilario Castagner, ex-atacante, que vestiu as cores vermelho e branco na década anterior. Castagner foi o responsável pela vinda do jovem e velocista Renato Curi, proveniente do Como, onde jogou apenas em 73-74. Renato era um homem comum. Tinha esposa e uma filha, e além de jogador de futebol, era formado em contabilidade, e atuava de garçom no período inativo. O meia foi revelado no Giulianova em 69, e rapidamente ganhou status de titular, sendo campeão da Serie D, na temporada 70-71. No Perugia, também conseguiu rápido destaque, e foi, ao lado de Franco Vannini na meia cancha, um dos melhores jogadores do elenco que conquistou o maior título do clube até então, a Serie B da temporada 74-75. O título e o acesso inédito na Serie A, foi comemorado já no novo estádio: o Perugia havia abandonado o Estádio Municipal de Santa Giuliana e passou a mandar seus jogos no Comunale di Pian di Massiano.


Em 16 de Maio de 1976, o ponto alto de sua carreira. Última rodada do Campeonato Italiano. Torino e Juventus tinham, respectivamente, 44 e 43 pontos. O Torino empatou em casa com o Cesena. Para a Juventus, bastava a vitória fora de casa. Mas aos 10 minutos da segunda etapa, cruzamento da direita, e Renato Curi bate de direita, de primeira, e vence o goleiro Dino Zoff, tirando o Scudetto da Vecchia Signora. O Perugia terminou aquele ano numa surpreendente 8ª colocação.

Na temporada seguinte (76-77), Curi foi mais uma vez um dos líderes em campo, e ajudou a equipe a chegar a um honroso 6º lugar, uma posição abaixo da zona de classificação para as competições europeias. Em 77-78, a equipe se encontrava ainda mais forte, e já na 5ª rodada, era um dos líderes da competição, juntamente com Milan e Juventus. Na 6ª rodada, a Juventus voltava a aparecer na vida de Renato Curi. Desta vez, o desfecho não seria feliz para o meio campista. Era dia 30 de Outubro de 1977. Apesar da chuva, cerca de 30 mil torcedores estiveram presentes nas arquibancadas no Pian di Massiano. O placar do primeiro tempo permaneceu zerado. Após a volta do intervalo, às 15:34,com cerca de 5 minutos jogados, Renato Curi desaba em campo. Alguns jogadores da Juventus rapidamente gesticulam pedindo ajuda. O camisa 8 deixou os gramados pela última vez, carregado pelos maqueiros. Até o técnico Castagner adentra o gramado, exemplificando a gravidade da situação. O duelo prosseguiu, e terminou sem gols. Ao apito final, o anúncio: Renato Curi estava morto com apenas 24 anos. O jogador havia sofrido um infarto e chegou sem vida ao Hospital Policlinico di Perugia. 



Após a autópsia, foi constatado de que Curi possuía uma doença crônica no coração. Logo, levantou-se a hipótese de que o jogador tinha consciência de sua situação. Certa vez, em uma entrevista, dizia ter sido enviado pela direção do Como, ao Centro Técnico de Coverciano, por ter batimentos cardíacos irregulares, mas aparentemente, nada foi descoberto. Afirmava também, por sua constante movimentação no campo de jogo e por sua velocidade, ter um coração louco. O processo judicial movido contra o médico do Perugia e do Centro Técnico de Coverciano se arrastou durante alguns anos sem nenhuma punição mais severa aos réus. Durante o processo, o promotor de justiça do caso declarou: “Quando um jogador entra em uma equipe profisisonal, torna-se apenas um número para técnicos, médicos e diretores”. O nome de Renato Curi foi eternizado no estádio biancorosso que foi rebatizado em sua homenagem. E sua memória está intacta aos olhos da torcida, que o lembra constantemente nas arquibancadas.

***

Texto originalmente publicado em 5 de julho de 2014, no blog Escrevendo Futebol.



Quando Silvio Berlusconi se desfez do Milan em 2017, ao vender o clube para o chinês Li Yonghong, os rossoneri já não eram mais os mesmos. Desde 2011 em crise com seus negócios, o antigo premiê italiano passou a fazer do Milan não mais uma extensão dos sucessos empresariais, mas um espelho dos fracassos. Sem o mesmo poderio financeiro para fazer grandes contratações e sem conseguir criar um projeto esportivo sólido, o clube italiano com mais títulos europeus se via cada vez mais distante de seus rivais, especialmente da Juventus. No meio de 2018, o clube foi novamente posto à venda, dessa vez adquirido pela Elliott Management, um grupo de investimentos estadunidense que reformulou por completo a direção do clube. Ainda entre os dez clubes mais ricos do mundo e com novas perspectivas, a esperança de rever o Milan na elite do futebol europeu reacendeu. E pela formação do elenco atual, um futuro promissor está por vir.

Na quarta posição na atual temporada, o Milan luta por uma vaga para retornar à Champions League, competição que os rossoneri não disputam desde 2013/14 quando foram derrotados nas oitavas de final pelo Atlético de Madrid, com derrota no San Siro e goleada na Espanha. O desempenho atual traz à luz méritos de Gennaro Gattuso, histórico jogador e atual técnico da equipe. De estilo turrão, poucos acreditavam que ele pudesse ser o homem por trás do renascimento do Milan, ainda mais que taticamente, o ex-volante pouco mudou o que o seu antecessor Vincent Montella já vinha fazendo, alternando a formação entre um 352 e um 433 com meiocampistas de características mais defensivas. Aos poucos, Gattuso foi se sentindo mais à vontade para fazer a equipe buscar ter um posicionamento mais ofensivo, com e sem a bola, permitindo o avanço dos laterais e preferindo a utilização de meias mais ofensivos. Ainda na primeira metade da atual temporada, o Milan chegou a ficar oito jogos sem perder, e até o fechamento desta matéria, o clube não havia sido derrotado na Série A em 2019, e está em uma sequência de seis jogos sem ser derrotado, em todas as competições.

Apesar da flagrante evolução, Gattuso segue sendo visto com desconfiança. O que faz pensar que o Milan se tornará forte em breve é a construção de um elenco jovem e com potencial de crescimento em todas as posições, do gol ao ataque, sem deixar de aproveitar os atletas formados em Milanello ou se desfazer de contratações bem sucedidas das gestões anteriores. A média do elenco, mesmo tendo jogadores rodados como Pepe Reina (36 anos), Ignazio Abate (32 anos), Riccardo Montolivo (34 anos) e Lucas Biglia (33 anos), é de apenas 25,4 anos, a quarta menor média do Campeonato Italiano, acima apenas de Sassuolo, Udinese e Fiorentina. Vale ressaltar que a Serie A italiana é a oitava liga com maior média de idade da Europa, com 27, 2 anos.

No gol, o Milan conta com Gianluigi Donnarumma, de apenas 19 anos e um dos mais promissores goleiros desta geração, que segue em seu clube de formação apesar do assédio. Na defesa, o jogador mais experiente é o zagueiro argentino Musacchio, de 28 anos, que faz dupla com o ex-romanista Alessio Romagnoli (24 anos). Completam o setor, que é o quarto menos vazado da competição, os laterais Davide Calabria (22 anos) e o selecionável suíço Ricardo Rodriguez (26 anos). Na linha de três do meio de campo, o turco Çalhanoglu (25 anos), que também pode jogar pela ponta-esquerda, se destaca ao lado do marfinense Kessié (22 anos) e do espanhol Samu Castillejo (19 anos). Caso exista a necessidade de um meio campo mais marcador, o francês Bakayoko (19 anos) ou o mundialista uruguaio Laxalt (26 anos) são adicionados ao esquema. Isso sem esquecer da nova opção, o brasileiro Lucas Paquetá, de 21 anos, que tem sido titular desde que chegou, na janela de transferências de inverno. Outro atleta recém chegado, e que pode levar o Milan a outro nível é o do atacante polonês Krysztof Piatek, de 23 anos, que estava no Genoa no primeiro turno. Com uma média de 1 gol a cada 107 minutos, o jogador tem 17 gols na Serie A, e é o principal concorrente do português Cristiano Ronaldo, da Juventus, pela artilharia. Somados, os dois jogadores custaram aos cofres do Milan 70 milhões de euros. Na mesma posição de Piatek, o Milan tem o promissor Patrick Cutrone (21 anos). Completando o ataque, Gattuso conta com a classe e a técnica do ponta-direita espanhol Suso, principal assistente da equipe com 8 passes para gol até aqui.

Entretanto, há o contraponto. Um elenco tão jovem pode não suportar a pressão em momentos difíceis, além do que o elenco do Milan é curto, dando a Gattuso pouca margem para rodagem entre os titulares e reservas. A classificação já para a próxima Liga dos Campeões se apresenta de forma imprescindível para as aspirações da equipe, que deve vir forte na próxima janela de transferências em busca de jogadores já prontos para transformar o Milan em um candidato a ir longe no torneio continental, ou pelo menos, ir retomando aos poucos a aura de bicho-papão que um dia já foi do time rubro-negro.

***



Em 1930, na primeira Copa do Mundo, o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2, na final disputada no mítico estádio Centenário, em Montevidéu. O quarto gol charrua foi marcado por "Manco" Castro, apelidado assim por não ter uma das mãos. Apesar de curioso, convenhamos. Futebol se joga com os pés. Quem lá precisa das duas mãos em um jogo de futebol? Ah, é! Os goleiros! Realmente, não ter uma mão seria impraticável defender uma meta. Ou não?

Tecnicamente, é improvável. Mas o espírito esportivo é capaz de deixar esses detalhes para trás. Diz uma história - mui real, diga-se - contada pela Revista Sudor, que na cidade uruguaia de Melo, na divisa com o Rio Grande do Sul, houve no final da década de 40 uma equipe com doze jogadores. Dois goleiros titulares. E ambos os goalkeepers sem uma das mãos. Manetas, no popular. Era o time que representava o Bar Rivero, em um torneio entre quatro times. Todos de bares da região. Quando o 'River' se apresenta, o juiz logo interpela sobre o fato do goleiro José Coroleano Gómez não ter a mão direita, vítima de uma queda de cavalo.

- O reserva é tão ruim assim?

Eis que surge Justo González, sem a mão esquerda, perdida em um acidente de trabalho. Parecia até brincadeira, mas não era. 

- E se jogarem com os dois no gol? 

Foi a solução encontrada por um dos adversários do bar Ladi Silva. Então, os dois arqueiros amarraram os pés de um com os pés do outro, e cada um ficou responsável pelo seu lado. A experiência deu certo. O Rivero ganhou a peleja por 3 a 1. Detalhes da partida ou da atuação dos goleiros são desconhecidos. Na final, vitória por WO sobre o bar Odera. No Campeonato Uruguaio, a cidade de Melo é representada pelo Cerro Largo Futbol Club, fundado em 2002 e com duas participações consecutivas na elite, em 2007 e 2008. Mas a maior façanha esportiva da cidade, não há como negar, é do mítico Bar Rivero.

***