Quando Silvio Berlusconi se desfez do Milan em 2017, ao vender o clube para o chinês Li Yonghong, os rossoneri já não eram mais os mesmos. Desde 2011 em crise com seus negócios, o antigo premiê italiano passou a fazer do Milan não mais uma extensão dos sucessos empresariais, mas um espelho dos fracassos. Sem o mesmo poderio financeiro para fazer grandes contratações e sem conseguir criar um projeto esportivo sólido, o clube italiano com mais títulos europeus se via cada vez mais distante de seus rivais, especialmente da Juventus. No meio de 2018, o clube foi novamente posto à venda, dessa vez adquirido pela Elliott Management, um grupo de investimentos estadunidense que reformulou por completo a direção do clube. Ainda entre os dez clubes mais ricos do mundo e com novas perspectivas, a esperança de rever o Milan na elite do futebol europeu reacendeu. E pela formação do elenco atual, um futuro promissor está por vir.

Na quarta posição na atual temporada, o Milan luta por uma vaga para retornar à Champions League, competição que os rossoneri não disputam desde 2013/14 quando foram derrotados nas oitavas de final pelo Atlético de Madrid, com derrota no San Siro e goleada na Espanha. O desempenho atual traz à luz méritos de Gennaro Gattuso, histórico jogador e atual técnico da equipe. De estilo turrão, poucos acreditavam que ele pudesse ser o homem por trás do renascimento do Milan, ainda mais que taticamente, o ex-volante pouco mudou o que o seu antecessor Vincent Montella já vinha fazendo, alternando a formação entre um 352 e um 433 com meiocampistas de características mais defensivas. Aos poucos, Gattuso foi se sentindo mais à vontade para fazer a equipe buscar ter um posicionamento mais ofensivo, com e sem a bola, permitindo o avanço dos laterais e preferindo a utilização de meias mais ofensivos. Ainda na primeira metade da atual temporada, o Milan chegou a ficar oito jogos sem perder, e até o fechamento desta matéria, o clube não havia sido derrotado na Série A em 2019, e está em uma sequência de seis jogos sem ser derrotado, em todas as competições.

Apesar da flagrante evolução, Gattuso segue sendo visto com desconfiança. O que faz pensar que o Milan se tornará forte em breve é a construção de um elenco jovem e com potencial de crescimento em todas as posições, do gol ao ataque, sem deixar de aproveitar os atletas formados em Milanello ou se desfazer de contratações bem sucedidas das gestões anteriores. A média do elenco, mesmo tendo jogadores rodados como Pepe Reina (36 anos), Ignazio Abate (32 anos), Riccardo Montolivo (34 anos) e Lucas Biglia (33 anos), é de apenas 25,4 anos, a quarta menor média do Campeonato Italiano, acima apenas de Sassuolo, Udinese e Fiorentina. Vale ressaltar que a Serie A italiana é a oitava liga com maior média de idade da Europa, com 27, 2 anos.

No gol, o Milan conta com Gianluigi Donnarumma, de apenas 19 anos e um dos mais promissores goleiros desta geração, que segue em seu clube de formação apesar do assédio. Na defesa, o jogador mais experiente é o zagueiro argentino Musacchio, de 28 anos, que faz dupla com o ex-romanista Alessio Romagnoli (24 anos). Completam o setor, que é o quarto menos vazado da competição, os laterais Davide Calabria (22 anos) e o selecionável suíço Ricardo Rodriguez (26 anos). Na linha de três do meio de campo, o turco Çalhanoglu (25 anos), que também pode jogar pela ponta-esquerda, se destaca ao lado do marfinense Kessié (22 anos) e do espanhol Samu Castillejo (19 anos). Caso exista a necessidade de um meio campo mais marcador, o francês Bakayoko (19 anos) ou o mundialista uruguaio Laxalt (26 anos) são adicionados ao esquema. Isso sem esquecer da nova opção, o brasileiro Lucas Paquetá, de 21 anos, que tem sido titular desde que chegou, na janela de transferências de inverno. Outro atleta recém chegado, e que pode levar o Milan a outro nível é o do atacante polonês Krysztof Piatek, de 23 anos, que estava no Genoa no primeiro turno. Com uma média de 1 gol a cada 107 minutos, o jogador tem 17 gols na Serie A, e é o principal concorrente do português Cristiano Ronaldo, da Juventus, pela artilharia. Somados, os dois jogadores custaram aos cofres do Milan 70 milhões de euros. Na mesma posição de Piatek, o Milan tem o promissor Patrick Cutrone (21 anos). Completando o ataque, Gattuso conta com a classe e a técnica do ponta-direita espanhol Suso, principal assistente da equipe com 8 passes para gol até aqui.

Entretanto, há o contraponto. Um elenco tão jovem pode não suportar a pressão em momentos difíceis, além do que o elenco do Milan é curto, dando a Gattuso pouca margem para rodagem entre os titulares e reservas. A classificação já para a próxima Liga dos Campeões se apresenta de forma imprescindível para as aspirações da equipe, que deve vir forte na próxima janela de transferências em busca de jogadores já prontos para transformar o Milan em um candidato a ir longe no torneio continental, ou pelo menos, ir retomando aos poucos a aura de bicho-papão que um dia já foi do time rubro-negro.

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Em 1930, na primeira Copa do Mundo, o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2, na final disputada no mítico estádio Centenário, em Montevidéu. O quarto gol charrua foi marcado por "Manco" Castro, apelidado assim por não ter uma das mãos. Apesar de curioso, convenhamos. Futebol se joga com os pés. Quem lá precisa das duas mãos em um jogo de futebol? Ah, é! Os goleiros! Realmente, não ter uma mão seria impraticável defender uma meta. Ou não?

Tecnicamente, é improvável. Mas o espírito esportivo é capaz de deixar esses detalhes para trás. Diz uma história - mui real, diga-se - contada pela Revista Sudor, que na cidade uruguaia de Melo, na divisa com o Rio Grande do Sul, houve no final da década de 40 uma equipe com doze jogadores. Dois goleiros titulares. E ambos os goalkeepers sem uma das mãos. Manetas, no popular. Era o time que representava o Bar Rivero, em um torneio entre quatro times. Todos de bares da região. Quando o 'River' se apresenta, o juiz logo interpela sobre o fato do goleiro José Coroleano Gómez não ter a mão direita, vítima de uma queda de cavalo.

- O reserva é tão ruim assim?

Eis que surge Justo González, sem a mão esquerda, perdida em um acidente de trabalho. Parecia até brincadeira, mas não era. 

- E se jogarem com os dois no gol? 

Foi a solução encontrada por um dos adversários do bar Ladi Silva. Então, os dois arqueiros amarraram os pés de um com os pés do outro, e cada um ficou responsável pelo seu lado. A experiência deu certo. O Rivero ganhou a peleja por 3 a 1. Detalhes da partida ou da atuação dos goleiros são desconhecidos. Na final, vitória por WO sobre o bar Odera. No Campeonato Uruguaio, a cidade de Melo é representada pelo Cerro Largo Futbol Club, fundado em 2002 e com duas participações consecutivas na elite, em 2007 e 2008. Mas a maior façanha esportiva da cidade, não há como negar, é do mítico Bar Rivero.

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Uma equipe formada por artistas da bola, itinerantes, que mais do que o resultado, interessava mesmo era dar alegria ao povo. E claro, arrecadar uma boa grana com sua arte. Eu poderia estar falando dos Harlem Globetrotters, um clube de basquete americano que realiza exibições acrobáticas do esporte desde os anos 20. Mas estou falando do Milionários Futebol Clube, de São Paulo, uma equipe que reuniu grandes nomes do futebol brasileiro, principalmente entre os anos 60 e 80. E assim como os Globetrotters americanos que nasceram em Chicago mas se estabeleceram em Nova York, os milionários brasileiros foram criados no Rio de Janeiro, no bairro de Fátima, em 1964 e se mudaram para outra metrópole. Idealizado por João Mendes Toledo, porteiro da TV Bandeirantes, o clube partiu para São Paulo em 71. Na forte cena amadora local, com equipes recheadas de profissionais para levantar os títulos da Várzea, Toledo também foi atrás dos cobras. Mas o dirigente logo percebeu o potencial financeiro que aquela equipe poderia lhe trazer. E transformou o Milionários em uma equipe de Masters itinerante. Fazendo excursões pelo país todo, faturava um bom dinheiro, dando aos jogadores polpudos cachês. Em Itabuna-BA, no fim dos anos 70, o Milionários jogou para um público de mais de 30 mil pessoas, arrecadando 285 mil cruzeiros (R$ 70 mil), um recorde financeiro para a equipe.

O Milionários ficou conhecido também por ser a última equipe de Garrincha, aproximando o ídolo decadente do sucesso que um dia lhe foi tão comum. O jogador (na foto à direita ao lado de Ademar Pantera), principal estrela da companhia, recebia em torno de 5 a 8 mil cruzeiros por jogo, algo em torno de R$ 1.200,00 a 2 mil reais, em valores corrigidos. Em 79, no feriado de 1º de Janeiro, 40 mil pessoas estiveram no estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, para assistir um jogo festivo contra um selecionado de Masters local, pela inauguração do estado do Mato Grosso do Sul. “Garrincha inaugura um estado”, estampou a manchete da Revista Placar, na época. Em 17 de setembro de 1982, Garrincha fez sua última partida como estrela “milionária”. Na pequena cidade de São Pedro, a 200km da capital paulista, o Milionários enfrentou e venceu o selecionado local por 3 a 2. Garrincha pouco fez. Já distante da imagem do que já foi um dia, o Mané atuou por apenas 30 minutos. Foi também a última vez que o bicampeão mundial entrou em um campo de futebol. Quatro meses depois, em 20 de janeiro de 1983, Garrincha faleceu. Além do Anjo das Pernas Tortas, a equipe contou com nomes como os de Djalma Santos e Bellini, campeões mundiais e dos craques Ailton Lira, Amaral, Careca Serginho Chulapa, Zenon, Neto, Chicão, entre outros.

Para Djalma Santos, o Milionários era uma forma de ajudar antigos craques a conseguirem um salário após a aposentadoria, e prosseguir fazendo o que mais gostavam. “O bichinho até que ajuda, mas a maioria vem mesmo é porque a gente passa um dia gostoso, alegre, bem tratado, sem compromissos. A gente é assim, aonde a bola vai, a gente vai atrás”. O clube também jogava, não apenas por dinheiro. Em 89, como registrou Placar, o Milionários visitou o Carandiru sem custos. “Jogar para aquela gente toda foi uma causa nobre que nos emocionou”, disse Marco Antônio, ex-jogador do Corinthians e irmão do também corintiano Zé Maria, o Super Zé. e que passou a cuidar da equipe a partir de 99, com o falecimento do fundador João Mendes Toledo. Aparentemente, a equipe não faz mais jogos desde o início desta década. Mas ficou marcado para sempre como o mais conhecido time de Masters do Brasil.

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Créditos das imagens:
Escudo digitalizado por Virginio Saldanha. Reprodução Blog História do Futebol.
Fotos: Acervo da Revista Placar.



O futebol italiano é conhecido por ter grandes estrategistas. Vittorio Pozzo, Enzo Bearzot, Arrigo Sachi, Fabio Capello, Marcelo Lippi, Giovanni Trapattoni, Carlo Ancelotti... Mas há um nome que, apesar da pouca fama, conquistou algo que nenhum dos citados anteriormente conseguiu e neste 12 de fevereiro de 2019 completaria 100 anos se estivesse vivo. Ferruccio Valcareggi não empilhou troféus pelos clubes que passou, como jogador ou treinador, mas marcou seu nome na história como o único técnico italiano a levantar o título da Eurocopa.

Nascido em Trieste, cidade à beira do Mar Adriático, Ferruccio cresceu ali e aos 13 anos iniciou sua trajetória esportiva no Ponziana, uma das equipes locais (e que faliu em 2015). Após participar de uma vitória expressiva por 7 a 0 sobre a Triestina, Valcareggi chama a atenção dos rivais, que logo passam a contar com o futebol do garoto. A Triestina (refundada em 2012) contava na época com Nereo Rocco (posteriormente precursor do Catennaccio) na equipe principal.  Em 38, já sem o meio-campista Rocco, o clube biancorosso lança Valcareggi entre os titulares. Foram três anos como um dos principais jogadores do time até que em 1940, depois de retornar do serviço militar, o jovem é negociado com a Fiorentina.


Na Viola, Valcareggi apresenta grande futebol em uma equipe aguerrida, e que na temporada 40-41 ficou com a 3ª colocação da Série A. Nos dois anos seguintes, a Fiorentina não repete o êxito, mas termina de forma honrosa, respectivamente, na nona e na sexta posição na tábua de classificação. Em 43, por conta da Segunda Guerra, o futebol profissional é suspenso em solo italiano. Deste momento até o fim do conflito, Vacareggi chegou a jogar amistosos com o Milan e foi o herói do Campionato Toscano di Guerra de 45, marcando o gol solitário da vitória da Fiorentina sobre o Empoli, na segunda partida da final. Entretanto, ao fim da conflito bélico em que a Itália saiu como derrotada, Valcareggi é vendido ao Bolonha para sanar uma grande dívida da Fiorentina. Na equipe rossoblú, Valcareggi atuou por dois anos e em 46 conquistou o título da Coppa Alta Itália, um torneio de consolação para equipes do norte italiano eliminadas do campeonato nacional, que estava se restabelecendo após a guerra. 

A partir daqui, porém, a carreira como jogador de Valcareggi se torna ligeiramente irregular, passando rapidamente por diversas equipes. Em 47-48 joga novamente pela Fiorentina, e na temporada seguinte é vice-campeão da Serie B pelo Vicenza. De 49 a 51 vive seus últimos anos de Serie A jogando pelo modesto Lucchese e em 51-52 conquista novo vice-campeonato da segunda divisão, desta vez pelo Brescia. Ainda em 52, aos 33 anos, vai para o Piombino, uma equipe tradicional, mas historicamente muito pequena, que viveu seu auge justamente neste início dos anos 50. Valcareggi passou a ser não apenas o principal nome do elenco, mas era o capitão e treinador. Depois de uma campanha no máximo regular na primeira temporada (15º), na segunda a equipe nerazzurri não resistiu e caiu novamente para a série C e nunca mais esteve em divisão maior. Foi também o último ano de carreira de Valcareggi que, de acordo com o site Storie di Calcio, marcou 91 gols em 395 jogos como atleta.

Valcareggi inicia, então, agora exclusivamente, sua carreira de treinador. Em 54 assume o Prato, outra equipe toscana e que estava na serie C. Depois de dois anos sem grandes feitos, consegue na temporada 56-57 seu único título por clubes, conquistando a terceira divisão. Mas dois anos depois acabou novamente rebaixado. Apesar do mau desempenho, Valcareggi recebe sua primeira chance na elite como treinador e assume a Atalanta, recém-promovida. No time bergamasco Valcareggi fica à frente do comando técnico por três temporadas, deixando a equipe sempre em posição segura na tabela. Em 61-62, encerra seu ciclo com um sexto lugar na Serie A e com uma semifinal de Copa Mitropa. Os bons resultados o credenciaram a voltar para Firenze, que havia acabado de ser top-3. Com a Viola, Valcareggi seguiu fazendo um bom trabalho e conseguiu manter a equipe entre as melhores do futebol italiano. Em 64 voltou para a Atalanta mas problemas com a direção o fizeram deixar o clube. Depois disso, foi contratado pela FIGC para trabalhar na comissão técnica italiana e viu o fracasso de Edmondo Fabbri no Mundial de 66. Foi aí que surgiu a grande chance de sua vida. 

Nos primeiros meses, dividiu o papel de treinador com o mítico Helenio Herrera. Foram quatro jogos juntos sem perder, até Herrera deixar Valcareggi livre para desempenhar seu trabalho de forma solitária. O objetivo era estar na fase final da Eurocopa, que seria sediada na Itália. Na fase qualificatória ao lado de Romênia, Suíça e Chipre, a Azzurra passou pelo grupo 6 sem maiores problemas vencendo cinco jogos e empatando apenas um, com apenas três gols sofridos. Nos play-offs, porém, a Bulgária se mostrou um adversário duro. Na ida, vitória búlgara por 3 a 2. Um empate bastava, mas na Itália, os anfitriões venceram por 2 a 0 e conquistaram um lugar entre as 4 melhores seleções da Europa. Nas semifinais, um duelo duro e difícil contra a União Soviética, campeã em 60. O empate sem gols mesmo após a prorrogação forçou um inusitado desempate: na moedinha. E a moeda nunca cai de pé, e dessa vez a sorte preferiu os donos da casa. Na final, outro adversário do Leste Europeu. A Iugoslávia veio de uma tardia vitória contra os ingleses campeões mundiais e dificultou os sonhos italianos. Empate em 1 a 1 após prorrogação e um novo jogo foi marcado. Dois dias depois da primeira partida, Gigi Riva e Anastasi marcaram os gols da incontestável vitória italiana no Estádio Olímpico, em Roma.


O titulo europeu credenciou a Itália como uma das favoritas para o Mundial do México e deixou para trás nas Eliminatórias a Alemanha Oriental e País de Gales. Na Copa, teve dificuldades na primeira fase, mas se classificou ao mata-mata sem derrota. Vitória magra frente à Suécia e dois empates sem gols, ao melhor estilo italiano com Israel e Uruguai. Nas quartas-de-final, enfim, uma grande atuação italiana, massacrando os anfitriões mexicanos por 4 a 1. Nas semifinais, um jogo proibido para cardíacos, cheio de reviravoltas e emoção. Vitória por 4 a 3 sobre a freguesa Alemanha e passaporte carimbado para a final. Mas o que Valcareggi viu foi apenas mais um jogo – e em qual a Itália não se apresentou bem. “Foi um jogo com uma alta tensão emocional, mas talvez superestimada ao longo do tempo pela alternância de placar. Imagine, no Estádio Atzeca, na Cidade do México, eles colocaram uma placa para lembrar essa partida. Para mim, no entanto, do ponto de vista técnico, não foi um jogo excepcional. Minha Seleção já fez partidas de nível bem melhor”, disse sem falsa modéstia.

Na final, a Itália novamente não conseguiu jogar o futebol esperado por Valcareggi. No entanto, quem estava do outro lado era apenas o melhor Brasil de todos os tempos e a derrota por 4 a 1 se mostrou plenamente justificada. Apesar do vice-campeonato e do memorável jogo com a Alemanha, Valcareggi recebeu muitas críticas por adotar a staffetta, um revezamento entre Gianni Rivera e Sandro Mazzolla, dois dos jogadores mais talentosos do grupo italiano. Para o treinador, não havia a possibilidade dos dois atuarem juntos. Na final, permitiu a Rivera desfrutar de apenas seis minutos em campo. Mesmo criticado, seguiu no cargo. “Ainda hoje não gosto de falar de indivíduos. O mais importante é falar do grupo e do equilíbrio em campo. A Seleção que jogou no Mexico era formada por tantos amigos, gente como Domenghini, Bertini e De Sisti, capazes de se sacrificar em nome da equipe, proteger Rivera, que não gostava de marcar”, disse em entrevista dada em 2002.


No novo ciclo, os resultados prosseguiram de forma positiva. Na Euro, a equipe se classificou bem na fase de grupos das eliminatórias, mas caiu nos play-offs contra a Bélgica. Nas Eliminatórias para a Copa de 74, classificou com grande facilidade em um grupo com Turquia, Suíça e Luxemburgo, sem sequer sofrer gols. Mas na Alemanha, Valcareggi não conseguiu manter a união do grupo como aconteceu quatro anos antes. Logo na primeira partida, a dificuldade para vencer a frágil seleção do Haiti demonstrou as fraquezas da equipe. Além disso, o polêmico Chinaglia deflagrou uma crise ao xingar o treinador quando substituído. Sem forças para reagir, a Azzurra empatou com a Argentina na partida seguinte graças a um gol contra de Perfumo e foi derrotado pela Polônia por 2 a 1 sem dar grande resistência. A demissão de Valcareggi foi natural. Em oito anos à frente da Azzurra foram apenas seis derrotas. Após sua saída, o cargo de treinador foi assumido por Enzo Bearzot, que estava no sub-23. O futuro campeão mundial tinha uma boa amizade com Valcareggi. “Estivemos juntos de 1969 a 1974 e foram cinco belos anos. Ele não parecia reagir às críticas, mas na verdade as absorvia lentamente à sua maneira. Aprendi com ele a defender os jogadores, ao custo de fazer batalhas com a imprensa. E também tentei imitar sua filosofia de aceitar os resultados sem fazer drama”, disse certa vez Bearzot.

Após deixar a Azzurra, Valcareggi voltou ao dia a dia dos clubes. Foram três anos à frente do Hellas Verona, de 75 a 78, com posições de meio de tabela na Serie A e uma final de Coppa Italia. Na temporada 78-79, treina a Roma a partir da 7ª rodada e precede o ídolo sueco Liedholm, fazendo seu último trabalho relevante por clubes. Até 84 voltou a dirigir a equipe sub-23 italiana e em 85 fez sua última aparição à beira do campo, novamente com a Fiorentina. A partir daí passou a trabalhar como coordenador técnico na seleção italiana e na Viola. Faleceu em 2 de novembro de 2005, aos 86 anos. Embora pouco citado na grande imprensa, Valcareggi construiu uma imagem de importância no Calcio, não apenas pelo título europeu em 68 ou pela digna participação na Copa de 70, mas também por ajudar a pavimentar um caminho para futuras glórias do futebol italiano.

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Corria o ano de 1991 e o Chile havia acabado de sair de um governo ditatorial que durou 17 anos. Os resquícios de violência do período talvez tenham se refletido na semifinal da Libertadores, no duelo entre Colo-Colo e Boca Juniors, onde foi deflagrada uma batalha campal em que a equipe mapuche saiu vitoriosa. Na decisão, enfrentaria o paraguaio Olímpia, travando assim a primeira final de Libertadores da história sem equipes do trio de ferro sudaca, Brasil, Argentina e Uruguai. Com a bola rolando, o título ficou com o Colo-Colo. Mas antes do apito inicial, uma cena curiosa povoou o imaginário chileno durante alguns anos.

Quando os jogadores do Colo-Colo se posicionavam para tirar a tradicional foto posada, um garoto vestido de amarelo, com uma faixa na cabeça e uma bandeira chilena às costas, pulou escorregando na frente dos atletas. Anônimo, após a vitória cacique, o garotinho passou a ser procurado, sem sucesso, por diversos jornais chilenos que queriam contar a história do menino. Logo, a imagem passou a ser tratada como um amuleto, um fantasma que apareceu no Estádio Monumental para a eternidade.

Mas, quem diabos seria o garotinho? Todos queriam sabem quem ele era, mas ninguém o conhecia. Funcionários, torcedores organizados, jornalistas... a identidade do fantasma era um mistério. Anos depois um boato surgiu de que o intruso seria o atacante José Luis Villanueva, que inclusive teve discreta passagem pelo Vasco da Gama. Villanueva, na época com cerca de dez anos, acompanhou quase todas as partidas como "mascote" da equipe. Mas com a batalha campal da semifinal, a Conmebol exigiu que ninguém alheio ao jogo estivesse em campo. Além disso, Villanueva sequer foi ao estádio e assistiu a decisão pela TV, pois seu pai havia viajado.


Posteriormente, muitos outros tentaram aparecer na mídia se provlamando como o "hincha fantasma". Aos poucos, as lendas urbanas iam caindo. E quase 20 anos depois, enfim se descobriu com certeza a identidade do garoto. Conhecido por "Monito", por ser filho de um homem apelidado de "Mono", extraiu do pai a vontade de aparecer em fotos junto a jogadores e equipes de futebol. Batizado de Luis Mauricio López Recabarren, o menino, de 15 anos na época, fez na final da Libertadores sua penúltima apresentação em "las canchas". Meses depois voltou a aparecer em um jogo da Copa América, entre Chile e Argentina. Se aposentou após levar uma "lição" da polícia. 

Polícia, essa, que faria parte de sua vida como adulto. Desde pequeno, a rua era sua casa. Seu primeiro delito aconteceu com apenas seis anos, quando foi pego pelo pai pegando moedas de um ônibus. Mais velho, passou por vários reformatórios. Morando próximo do Estádio Nacional, Monito apareceu em fotos posadas com diversas equipes. Mas o ponto alto de sua vida foi mesmo a final da Libertadores. A aura de fantasma ganhou ainda mais força, por ter tocado o ombro de Luis Pérez, que marcou dois dos três gols do Colo-Colo na decisão. Porém, a vida de crimes continuou. Vítima de leucemia, sucumbiu à doença aos 23 anos em 30 de julho de 1999, encarcerado no Centro de Detenção Preventiva Santiago Sur. 

A seguir, o relato de Luis López, pai do garoto, ao jornal El Mercurio, em 2008, sobre a meteórica vida de Monito e sua "partida de despedida":

“Os jogadores possuem sua partida de despedida e meu filho a jogou no Estádio Nacional, como grande que foi. Havia passado um mês desde a final da Libertadores, na partida do Colo-Colo que o fez famoso, e buscaram por ele por todos os lados para entrevistá-lo. Entraram em contato para que saísse na TV, mas ele se escondeu por medo que o reconhecessem, pois já tinha seus problemas com a lei. Em nossa região todos sabiam que era meu filho, porque  era conhecido por se meter no campo desde  pequeno. Eu fiz primeiro e ele fazia o mesmo que seu pai. O mais curioso disso tudo é que ele não ia ao Monumental, sempre ia ao Nacional, porque era mais perto e fácil de ir. Mas a única vez que foi ao Monumental entrou para a história. Um mês depois do Colo Colo ser campeão, tínhamos a possibilidade de vencer pela seleção. Meu filho vivia na rua e não o controlávamos muito, é verdade. Nunca sabíamos o que ia fazer e só nos dávamos conta quando chegava com uma foto ou o víamos na televisão. Mas sabíamos que queria estar entre os jogadores chilenos. Vários deles estavam também na foto com o Colo-Colo. Foi o dia que o Chile enfrentou a Argentina, a primeira partida. Depois os policiais o pegaram e falaram a ele que o soltariam com uma condição, que nunca mais voltasse a pisar em um gramado de estádio. Meu filho aceitou e apesar de estar tão próximo, nunca mais quis voltar a um campo. Depois se fez homem, teve mais problemas com a lei e morreu no cárcere. O que nos sobrou foram as lembranças. E acredito que o mais importante é que o Monito, meu filho, segue vivo nessas fotos, ainda que seja como um fantasma para todos os outros”.

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Texto originalmente publicado em 14 de novembro de 2016, no blog Escrevendo Futebol.

Houve um tempo que a subsistência de um clube de futebol em meio ao recente profissionalismo se dava através de poucas fontes de recursos. Bilheterias ou a ajuda de mecenas eram parte importante da “engenharia financeira” da primeira metade do século XX. Os clubes um pouco mais prestigiados também tinham uma opção mais rentável que os jogos locais: as famosas excursões. Realizadas nas proximidades da cidade-sede, interestaduais ou internacionais, as excursões eram uma forma praticamente certa de arrecadação. Em meio a essa ânsia pelo capital, no ano de 1943, os dirigentes do pernambucano Santa Cruz decidiram fazer uma viagem com destino ao Norte brasileiro. Já naquela época, a Cobra Coral era um dos times mais conhecidos da região Nordeste. Localmente, havia conquistado cinco títulos estaduais entre 1931 e 1940, igualando com o América e estando atrás apenas do Sport. Mas naquele momento, o clube passava por uma crise financeira e precisava fazer uma graninha.

A crise tricolor não era nada comparável ao que acontecia há milhares de quilômetros dali, do outro lado do Oceano. A Segunda Guerra Mundial vivia o ápice de destruição em solo europeu, e politicamente, o Brasil se posicionava também em pé de guerra contra o Eixo. Entre 41 e 44, o Brasil sofreu 35 ataques marítimos por parte das forças militares da Alemanha e da Itália, em locais que cortavam todo o Oceano Atlântico, da Filadélfia ao Cabo da Boa Esperança.  Na costa brasileira, o receio de ataques aéreos fazia as cidades litorâneas viverem em blecaute. Assim como os navios, que viajavam às escuras, com medo de um ataque submarino. E foi no meio deste contexto que o Santa Cruz se lançou ao mar e posteriormente adentrou os rios amazônicos para viver a mais perigosa aventura da história do centenário clube.  A ideia inicial era de ir até mesmo à Paramaribo, na Guiana, mas o CND (Conselho Nacional dos Desportos) impediu a saída do clube do país, seguindo uma recomendação do Itamaraty, por conta da Guerra.

O início da longa viagem se deu logo no segundo dia de janeiro. Escoltados por dois navios da Marinha brasileira, o navio a vapor Pará navegou com as luzes apagadas e o grupo de jogadores se estabeleceu no convés da embarcação. Armados de foices e facões, e com o salva-vidas ao lado, se preparavam com o que tinham em mãos. Apesar de toda tensão envolvida, a viagem por mar ocorreu sem maiores transtornos. Dois dias após sair de Recife, a primeira parada aconteceu em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Na primeira partida, o Santa Cruz goleou a seleção potiguar por um impiedoso placar de 6 a 0. Depois, passou por Fortaleza e em 10 de janeiro desembarcou em Belém, onde foi recebido com festa e retribuiu com grande atuação, vencendo o Tranviário por 7 a 2. Ainda na capital paraense, fez outros quatro jogos, vencendo o Tuna Luso, empatando com a seleção paraense e com o Paysandu, e perdendo para o Remo.



Dali partiram para Manaus em um tradicional vapor gaiola, em uma viagem que durou longas e monótonas duas semanas. O cansaço prejudicou a primeira atuação da equipe, e a o Santinha perdeu por 3 a 2 diante do Olímpico. Contra o Nacional, atual bicampeão estadual, o tricolor mostrou sua real força e venceu por 6 a 1, e contra o Rio Negro, quase repetiu a dose, com um 5 a 1. Neste período na capital amazonense, uma disenteria atacou uma parte dos membros da delegação, entre eles Aristófanes Trindade, jornalista e chefe da excursão. Então a equipe iniciou o retorno com destino a Belém, mas deixa três passageiros em Manaus. Os jogadores Sidinho, França e Omar aceitaram ofertas de times locais e por lá ficaram.

Superado o medo de um ataque submarino e a longa viagem de ida, a delegação tricolor passou por novos problemas. Na passagem por Santarém, os jogadores King e Papeira foram aparentemente diagnosticados com malária. A delegação chega a Belém no dia 28 de março e partiria o mais rápido possível para Recife. Porém, no dia 1º de março, o tráfego marítimo é suspenso por ordem do governo federal. Para pagar as despesas de alimentação e também do hospital usado para tratar dos dois atletas doentes, o Santa Cruz foi arranjando jogos pela cidade. Em 2 de março vence o Remo, que hospeda o barco do Santa Cruz em sua garagem náutica. Vitória por 4 a 2. Dois dias depois da partida, King não resiste à enfermidade e morre. O jogador recebe muitas honrarias, mas o show tinha de continuar, e no dia 7 de março o Santa Cruz entra em campo para enfrentar o Paysandu. No mesmo dia, nova notícia trágica: Papeira também sucumbiu.

Sem mais condições de persistirem na viagem, os dirigentes buscam soluções para a volta, em vão. Apenas no dia 28 de março, enfim, o Santa Cruz consegue embarcar, em uma viagem com escala em São Luis. A escala serviria para encaminhar 35 ladrões detidos pela Polícia do Pará. No Maranhão, novo problema. A embarcação ficou retida e só poderia sair com comboio. Até a viagem ser remarcada, o Santinha faz novos jogos, com faturamento distribuído entre os jogadores. Após liberada a viagem da embarcação, a Cobra Coral passa por outros perrengues. Um temporal amedronta os tripulantes, e como se não fosse o suficiente, submarinos são detectados pelo radar. O barco então retorna para São Luis. Sem a possibilidade de ir para o mar, chega a hora de viajar de trem. Da capital maranhense à Teresina, capital do Piauí, o trem descarrilha por duas vezes, obrigando a equipe a realizar novas partidas. De lá, partiram de ônibus para Fortaleza, onde a equipe chegou à marca de 28 jogos durante a excursão. Finalmente, no dia 2 de maio, exatos quatro meses após a partida, o Santa Cruz chegou à Recife com: 15 troféus a mais, cinco jogadores a menos e muita história para contar.
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Para escrever este texto foram consultadas edições diversas do jornal Diário de Pernambuco e a Reportagem “A Excursão da Morte” da Revista Placar nº 505, de dezembro de 1979, escrita por Lenivaldo Aragão, um dos mais experientes jornalistas de Pernambuco.




Na primeira metade do século XX, a Europa viveu momentos de grande tensão política, que culminaram em diversas guerras e levantes. Batalhas internas e também por expansão de territórios. Como não poderia deixar de ser, o futebol também foi afetado por esses conflitos. Além da paralisação de atividades, como aconteceu parcialmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), muitos atletas e pessoas do futebol perderam suas vidas, como um mero civil ou estando na linha de frente. Um deles foi o iugoslavo Bozidar Petrovic, o Bosko, zagueiro, que se destacou não apenas por defender as equipe em que jogou mas também por defender seus ideais políticos. 

Petrovic nasceu em 7 de abril de 1911, em Bela Palanka, no então Reino da Sérvia, que viria a tornar-se Iugoslávia, em 1918. Desde menino seu interesse por futebol era evidente. Assim como pela política. Dividia seu tempo entre a prática do esporte e os estudos. Mais tarde, ingressou no curso de Direito da Universidade de Belgrado, e se filiou no Partido Comunista, considerado ilegal naquele momento pelo governo real. Entre 1932 e 1936, jogou pelos seguintes clubes: o FK Vojvodina (32-34), o SK Jugoslavija (34), que seria fechado pelos comunistas após o fim da Segunda guerra para formar o atual Estrela Vermelha, e o BSK Belgrado (35-36), hoje OFK Belgrado. Em 1934, foi convocado para sua primeira e única apresentação pela seleção iugoslava. No dia 16 de dezembro, enfrentou a França, no estádio Parc des Princes. O defensor jogou até os 38 do primeiro tempo, quando foi substituído por Zvonimir Jazbec. Os franceses venceram pelo placar de 3 a 2. 

Em 1936, decide abandonar o futebol e se dedicar exclusivamente à profissão de piloto aéreo, se mudando para Paris em busca de aperfeiçoamento. Em julho daquele ano, foi deflagrada a Guerra Civil Espanhola, um dos mais sangrentos conflitos bélicos do século passado. Os Republicanos, contrários ao Nacionalistas liderados pelo General Francisco Franco, receberam apoio da então União Soviética e das Brigadas Internacionais, grupo apoiado pela Internacional Comunista e que contava com voluntários das mais diferentes nacionalidades, entre eles diversos sérvios e albaneses, por exemplo. Convicto de poder ser útil, Bosko se voluntaria e recebe um passaporte falso para entrar na Espanha, com o nome nada original de Fernandez García. Desembarcou primeiro em Albacete, e dali foi para Valencia, onde passou a fazer parte da esquadrilha republicana. Em 1937 caiu ferido, mas não deixou de lutar após sua recuperação. Se tornou um dos mais destacados pilotos aéreos à frente de aeronaves soviéticas, como a Tupolev SB e a Polikarpov I-15, das mais modernas da época. Entretanto, um ano após o início da Guerra Civil, foi a vez de Petrovic, aos 26 anos, ser derrubado com êxito por seus inimigos. Em 12 de julho de 1937, seu avião foi atingido por um C.R 32 de maneira fatal durante uma intensa batalha em Villanueva de la Cañada. Seu irmão, Dobre, que havia acabado de chegar à Espanha, fica sabendo da morte de Bosko e decide se juntar à luta dos republicanos. 

Apesar da morte precoce e de seu enterro pouco digno em uma das valas comuns, a luta de Petrovic não foi esquecida. Em Belgrado, capital sérvia, há um monumento em homenagem às Brigadas Internacionais. No Estádio Partizan, de clube do mesmo nome, há uma placa, colocada em 1959, em lembrança do piloto e jogador, assim como há também ruas com seu nome nas cidades de Belgrado, Novi Sad e Ivanjica. Os republicanos espanhóis, apesar do apoio dos comunistas, foram derrotados pelas tropas de Franco, que em 1º de abril de 1939 instaurou o regime franquista, que perdurou até 1977, dois anos após o falecimento do ditador espanhol.

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Imagem: Dimitri Iundt/Getty Images

O período pré-Copa do Mundo é sempre capaz de nos proporcionar alguns duelos inimagináveis. E em 1998, a Seleção Brasileira realizou diante da seleção de Andorra, o último jogo antes da estreia no Mundial, que seria contra a Escócia. A partida ocorreu um dia após o anúncio do corte de Romário, herói do tetra e ao lado de Ronaldo, a principal esperança em busca do penta. A praça esportiva que sediou o encontro foi o antigo estádio do Red Star da França, mesmo local onde Pelé gravou cenas do filme "Fuga para a vitória". A expectativa da imprensa brasileira e mundial era de uma goleada, e de preferência com show de Ronaldo, então com status de melhor jogador do mundo. Andorra, além de ser um país de tamanho ínfimo encravado na divisa entre França e Espanha, teve sua federação de futebol formada apenas em 94, e disputou seu primeiro jogo oficial em 96, sem jamais ter vencido até aquele momento. Na época, apenas quatro jogadores eram considerados profissionais. Até o uniforme da seleção era improvisado. Acostumados a usar uniformes da marca alemã Reusch, naquele dia, Andorra recebeu um kit de uniformes Nike. 

O treinador de Andorra era o brasileiro Miluir Macedo, de extenso currículo dentro e fora do país, passando por cinco continentes diferentes. No futebol brasileiro, ficou conhecido por levar o Potiguar de Mossoró a seu primeiro título potiguar em 2004 e o Baraúnas às quartas-de-final da Copa do Brasil, eliminando o Vasco nas oitavas, em 2005. Antes de enfrentar o Brasil, Miluir contou que já vinha preparando a mentalidade dos atletas para essa partida. "Eu já vinha conversando com eles sobre esse jogo já há algum tempo. Eles temiam muito, o próprio governo, de que (uma derrota) pegaria mal. A minha ideia foi justamente apagar o medo de enfrentar uma seleção fortíssima, pois nas eliminatórias (para a Eurocopa de 2000), nós iríamos enfrentar França, Ucrânia, Rússia, e ainda Armênia e Islândia", explicou o comandante.

Para Óscar Sonejee, jogador com mais jogos pela seleção de Andorra (106), aquele jogo diante do Brasil foi inesquecível. "Foi incrível. A partir daquele jogo tudo começou, passamos a acreditar em nós mesmos. Demonstramos que para Andorra não era uma loucura competir internacionalmente". Nascido em Andorra, o jogador de ascendência indiana destacou sua marca centenária. "No começo a gente não dá muita importância, mas cada vez dou mais valor, e isso me faz olhar pra trás, 19 anos de muitas lutas e batalhas. Um orgulho ser o primeiro nessa estatística", conta Óscar.

Com a bola rolando, o primeiro gol demorou a sair. Ronaldo, então chamado de Ronaldinho ficou cara a cara por duas vezes com o goleiro Koldo, que hoje é o treinador de Andorra. Na primeira, Koldo fez boa defesa, e no segundo lance, Ronaldo recebeu belo lançamento de Dunga, mas a bola escapou dos pés do Fenômeno. Aos 25 minutos, depois de uma pixotada da defesa de Andorra, a bola sobrou para Giovanni marcar finalmente. Logo na sequência, o Brasil ampliou após uma jogada rápida. Bebeto lançou Ronaldo pela direita, o camisa 9 tocou de primeira para o meio e Rivaldo esperou o momento certo para mandar para as redes.

Ronaldo até chegou a deixar sua marca, mas teve o gol anulado. Logo depois, Ronaldinho voltou a ter uma chance inacreditável, e Koldo voltou a aparecer com destaque.  No segundo tempo, aos 8 minutos, o gol que fechou a vitória saiu dos pés de Cesar Sampaio que deu um belo lançamento para Cafu, que aplicou um drible da vaca no goleiro antes de finalizar.

Naturalmente, apesar da vitória, a imprensa tratou a atuação do Brasil como muito abaixo do esperado. No Brasil as críticas eram pesadas, especialmente pela falta de efetividade da dupla de ataque Ronaldo e Bebeto, somado ao corte, até hoje polêmico, de Romário. Já para os andorranos, foi uma partida quase perfeita. Mesmo não tendo dado um único chute a gol, "Tivemos sorte, é lógico, e nosso goleiro foi muito bem. Mas Andorra era uma equipe muito cumpridora, determinada", analisa Miluir. A equipe do principado conseguiu anular a Seleção por um bom tempo, e principalmente, não sofreu gols de Ronaldo, o jogador do momento no planeta. "Foi um sonho, o víamos na TV e estávamos vendo ele ali, na nossa frente. Pra mim foi e sempre será o melhor 9 do mundo. Ainda que naquele dia eu tenha sido o responsável por marcar Rivaldo", disse Óscar.

Na época, Miluir declarou que aquela partida era um divisor de águas para o futebol de Andorra, opinião que ainda mantém. "Depois de enfrentar o Brasil, eu coloquei na cabeça deles de que o que viesse era normal. Pois enfrentar uma Seleção Brasileira com os jogadores que tinha era muito valoroso para o que nós iríamos enfrentar pela frente. Esse jogo com o Brasil foi fundamental para o início de Andorra. Repito, a equipe é modestíssima, mas bem cumpridora, e perdeu o medo. Não ganha, não ganha, mas não leva goleada de dez, como se imaginava no início, que era o grande problema", disse o treinador.

De lá pra cá, o país já conquistou três vitórias em sua história. "Temos evoluído, embora mais lentamente, comparado a outros países. Os resultados de nossas equipes de base têm sido muito bons, jogamos de igual pra igual com os mais fortes. Nosso futuro depende de nossos jogadores atuarem nas categorias mais altas possível, em nível profissional. Mas por enquanto é difícil, temos apenas duas equipe profissionais", explica Óscar.

Mas aquele jogo é um dos pontos altos da curta trajetória de Andorra. "Quando saímos de nosso país achavam que íamos perder de 15, 20 a 0. Políticos disseram que Andorra seria o ridículo do mundo. Perdemos de 3 a 0. Foi um ótimo resultado", disse Miluir à Folha de SP, na época. O zagueiro Toni Lima foi outro que conseguiu resumir bem a importância daqueles 90 minutos. "Poderia morrer hoje que morreria feliz", afirmou.

Orgulhoso do posto que ocupou, Miluir se lembra com alegria do tempo que viveu no principado. "A satisfação em ter feito o trabalho que fizemos em Andorra é enorme. Fomos pioneiros. Foi uma experiência fenomenal. Só de estar no meio da cúpula europeia. Nós estávamos lá sempre, não só nas competições, mas em reuniões com treinadores organizadas pela FIFA, pela UEFA. Fiquei 17 anos fora do Brasil, e aqui, infelizmente, as pessoas não veem da mesma forma. Treinar uma seleção como Andorra há até quem despreze. Por menor que seja o país, eu estive no meio das grandes seleções europeias", destaca Miluir.

Confira abaixo um vídeo com os melhores momentos e a ficha técnica da partida:


Ficha técnica:
Brasil 3x0 Andorra
Data: 03/06/1998
Estádio: Stade Bauer “Red Star”, Saint-Ouen-Sur-Seine (França)
Público: aprox. 10 mil pessoas 
Arbitragem: Pascal Garibian (FRA)
Gols: Giovanni aos 25' e Rivaldo aos 26 do 1º T; Cafu aos 8' do 2º T.

Brasil: Taffarel (Carlos Germano, 16/2º), Cafu, Aldair (André Cruz, 20/2º), Júnior Baiano e Roberto Carlos (Zé Roberto, 20/2º); César Sampaio, Dunga (Doriva, intervalo), Giovanni (Leonardo, intervalo) e Rivaldo (Denílson, 25/2º); Bebeto e Ronaldo. T: Zagallo.
Andorra: Jesus Koldo, Francisco Ramírez (Jordi Escura, 12/2º), Ángel Martín, Toni Lima e Txema García; Agustí Pol (Rafael Calero, 38/2º), Ildefons Lima, Oscar Sonejee e Jesús Lucendo; Justo Ruiz e Jordi Bazán (Juliá Sánchez, 30/1º). T: Miluir Macedo.

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Texto publicado originalmente em 24 de outubro de 2016, o blog Escrevendo Futebol.