Poucos momentos no futebol são tão tensos e emocionantes quanto uma cobrança de pênalti. Quando o jogo se decide numa disputa de penalidades, então, haja coração, como diria aquele famoso narrador. Mas você sabia que o pênalti não fazia parte das primeiras regras do esporte, e que só foi inventado 27 anos depois daquela histórica reunião na Freemason's Tavern, em que o Football Association foi fundado? E que ainda por cima, o terror dos goleiros foi criado por um... goleiro?

Milford, o berço da penalidade máxima

Milford é um pequeno vilarejo em solo norte-irlandês. Atualmente, o local possui cerca de 300 habitantes. No final do século XIX, a família irlandesa McCrum era uma das mais respeitadas da região, já que seu patriarca, Robert Garmany McCrum era dono da fábrica de tecidos McCrum, Watson e Merver Company, que havia alavancado a economia local. Como muitos pais em melhores condições da época, mandou seu filho William para a renomada Trinity College, de Dublin. Ao retornar para Milford, para trabalhar nos negócios da família, William trouxe consigo a paixão pelo futebol, e passou a jogar como goleiro do Milford FC. Foi ideia dele a criação da Mid-Ulster Cup, disputada até hoje, e conquistada nas duas primeiras edições pelo Milford.

Conhecido por ser um verdadeiro gentleman, William se incomodava com o aumento de infrações no futebol, principalmente em lances que o atacante, pronto para fazer o gol, era impedido por uma atitude antidesportiva. Na época, era marcada apenas uma falta, independente da posição em que a infração fosse cometida. Esse não era um problema apenas desta região. Em 1889, em uma partida da FA Cup em que o Notts County vencia o Stoke City pelo placar de 1 a 0, Hendry, jogador do Notts, salvou um gol certo com a mão nos minutos finais (ao estilo Luisito Suárez, na Copa de 2010). A falta quase em cima da linha do gol, obrigou o time inteiro do Notts a se perfilar formando uma barreira intransponível. Assim que a falta foi batida, a bola foi recuperada pela defesa, e chutada pra longe. O jogo foi encerrado e o Notts County seguiu adiante na competição.

William pensou em uma regra que punisse com maior severidade alguém capaz de tamanha falta de esportividade. Em 1890, foi enviado à International Board, entidade fundada em 1886, responsável por alterações nas regras do futebol, a sugestão do pênalti. Em tradução livre, a ideia era a seguinte: sempre que se derrubar, agarrar ou deliberadamente jogar a bola com a mão, será marcado um tiro livre. Se a falta ocorrer a uma distância de 12 metros da baliza, será ordenado um pênalti. Durante meses, McCrum buscou apoio de diversas entidades, junto de seu amigo irlandês Jack Reid, jogador que inclusive representou a seleção da Irlanda. Até que em 2 de junho de 1891, em uma reunião da International Board em Glasgow, o pênalti foi oficialmente instituído. A partir daí, além da delimitação das linhas laterais e de fundo, foi demarcada a área de pênalti, com um semicírculo na metade da linha vertical ao campo de jogo. Após a marcação da penalidade, o chute poderia ser feito de qualquer ponto dessa linha, sem nenhuma barreira, e o goleiro podia se movimentar em até 6 metros a frente. Apenas 12 anos depois, em 1902, que a grande área como conhecemos hoje foi concebida, com a devida marca da cal, a 11 metros de distância da meta. Com o tempo, a regra do pênalti foi sendo aperfeiçoada.

Em entrevista por e-mail, Stephen McManus, da Milford House Museum, instituição que preserva a história da localidade, nos deu maiores detalhes sobre a preservação do local da criação da penalidade. "O campo em que foi inventado o pênalti em 1890 foi o campo de futebol do vilarejo até 1920. Depois, os jogos passaram a ser disputados num local conhecido como The Holm, um campo próximo à Milford House, a casa de William". Em 97, após anos de abandono, uma imobiliária decidiu utilizar a área para a construção de imóveis. "Meu pai, Joe McManus, foi um dos líderes que conduziram o salvamento da área. Então, um acordo foi feito, e as casas puderam ser construídas ao redor do campo, e essa área central foi dada a população de Milford. Em 2002, foi aberto no local o The William McCrum Park, onde há um busto do inventor do pênalti", completou Stephen. A manutenção da memória de William teve ajuda fundamental do ex-jogador Gerry Armstrong, ex-Tottenham e Watford, e que disputou duas Copas do Mundo, a de 82 e 86, pela Irlanda do Norte.

Apesar das homenagens, Stephen acha que William McCrum merece uma atenção maior por seu feito. "Eu penso que deveria ter, e merece, maior reconhecimento. É algo que atrai visitantes e mídia de todo o planeta. Entretanto, o governo local falha ao não compreender a importância da criação do pênalti. O conselho de Armagh (cidade vizinha ao vilarejo) administra o parque mas não o promove de maneira nenhuma. Muitos da equipe do conselho sequer sabem da existência do parque. Apenas agora, em 2015, finalmente o mapa turístico de Armagh indica a área para visitantes, depois de muita insistência de instituições de Milford".

A vida de William McCrum

William nasceu em 1865, e era um esforçado goleiro. Além de seu pioneirismo já apresentado, defendeu o Milford FC na primeira temporada da liga irlandesa de futebol, sendo um de seus fundadores. A equipe foi derrotada em todas as 14 partidas disputadas, e o camisa 1 tomou 62 gols. Além de comandar a fábrica familiar, foi juiz de paz e dirigente de diversas equipes e entidades esportivas da região.

"É um fenômeno global", diz Sthephen sobre o legado deixado. "William mudou a história do esporte, porque a regra do pênalti afetou até mesmo outros esportes. E é incrível pensar em quantos jogadores tiveram suas carreiras elevadas ou destruídas pelo pênalti!". Basta lembrar de personagens como Panenka e Roberto Baggio.

William gastou muito dinheiro em viagens, mulheres e toda aquela coisa que quase todo boleiro gosta. E também era um mão aberta, aplicando seu dinheiro em diversas ações esportivas e comunitárias, e apesar de ter colocado seu nome na história do esporte, William não foi tão bem nos negócios, e a fábrica faliu em 1931. No ano seguinte, em 21 de dezembro, faleceu após ter tido uma convulsão. De acordo com Stephen, a FIFA irá destinar 7 mil libras (algo em torno de pouco mais que 30 mil reais) para a restauração do local em que William e seus familiares estão sepultados. O mínimo, para o homem que revolucionou como poucos o esporte mais popular de todos.

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Texto originalmente publicado em 9 de abril de 2015, no blog Escrevendo Futebol.

As mascotes são parte primordial das grandes competições esportivas, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, ajudando a atrair ainda mais o público infantil, formando uma identidade que marca a memória afetiva das pessoas e sendo mais uma forma de capitalizar o evento. Nos Mundiais, a primeira vez de uma mascote aconteceu em 1966, na Inglaterra, com o simpático leãozinho Willie. De lá para cá, com raras exceções, os bichinhos foram um sucesso. Mas há um deles que acabou deixado de lado pela própria organização do Mundial e foi esquecido pela FIFA com o passar dos anos.

Em 1970, a Copa aconteceria no México, país que havia sediado os Jogos Olímpicos dois anos antes, no mesmo ano em que o movimento estudantil da Cidade do México entrou em ebulição. Sob o comando do Partido Revolucionário Institucional, um partido originalmente de esquerda e membro da Internacional Socialista e que atravessou as raias do espectro político tornando-se um partido de direita, neoliberal e com forte repressão em um período que as ditaduras militares dominavam a América Latina, o México vivia uma “ditadura democrática”. No poder desde 1929 (sob outras denominações), o PRI aparelhou o estado e raramente suas decisões tinham oposição. Com a eleição de Gustavo Díaz Ordaz, em 1964, o PRI realizou de forma extrema sua guinada à direita. Embora tendo um governo civil, o exército e a polícia do país eram utilizados regularmente para reprimir a população e os opositores, ainda que diante da comunidade internacional o governo mexicano sempre tenha negado qualquer tipo de abuso contra os direitos humanos. A FIFA elegeu o México como país-sede em outubro de 64, quando Ordaz ainda era secretário de governo. E foi nesse clima de hostilidade que uma queda de braço ocorreu entre dois mascotes.

Um dos autores da identidade visual dos Jogos Olímpicos de 68 foi o designer estadunidense Lance Wyman, um dos mais destacados de sua área. Com o sucesso do trabalho realizado, também foi escolhido para fazer parte da equipe que criou a identidade do Mundial de 70, incluindo a criação do mascote Pico. Moderno e ao mesmo tempo simples, Pico era uma águia – ave símbolo do México – que nascia de dentro de uma bola e vestia um uniforme da seleção mexicana, mas que poderia estar vestido com algum traje típico dos países participantes. 


Com o trabalho aprovado, muita coisa foi produzida em torno da imagem de Pico. Em paralelo, Fernando González, o Fernandón, presidente do Atlante e dono de uma agência de publicidade deu a Juan González Martinez a tarefa de criar uma alternativa. Assim nasceu Juanito, um garoto gordinho de onze anos, com a camisa do México e o tradicional e estereotipado sombrero. O desenho foi então apresentado a Guillermo Cañedo, presidente da Federação Mexicana de Futebol e também do Comitê Organizador da Copa. Ainda que causasse polêmica em torno da imagem caricata, Juanito passou a ser inserido nas transmissões do Mundial e é até hoje considerado o mascote oficial do Mundial de 1970. Em entrevista por e-mail ao Maracanazo, Lance Wyman, hoje com 82 anos, nos enviou algumas imagens mostrando que, apesar disso, Pico teve boa recepção da crítica e foi amplamente utilizado na decoração de lugares públicos, como o metrô da Cidade do México e em produtos licenciados. 



Charge do jornal mexicano La Prensa, mostrando Pico chutando a imagem de Juanito

Perguntado sobre o que achava de Juanito, Lance se limitou a dizer que era um fã de Pico. De acordo com Lance, a identidade visual da Copa do Mundo de 70 não teve uma uniformidade, o que pode ter feito com que apenas Juanito passasse a ser considerado o mascote oficial. "Os gráficos da Copa não eram tão bem organizados quanto o das Olimpíadas. Os gráficos não estavam sob um único plano. De minha parte, eu não queria usar as mesmas fontes do meu logotipo olímpico de México '68. Eu desenvolvi uma fonte e um logotipo para 70 baseado na geometria da recém-introduzida bola da FIFA (Telstar). O logotipo olímpico acabou sendo utilizado", disse Lance.


Durante aquele Mundial, considerado por muitos como um dos de maior nível técnico da história, o Brasil consagrou de vez o futebol brasileiro e solidificou a lenda de Pelé. "Eu estava no Azteca e pude ver o mágico time brasileiro", escreveu Lance, que lembrou com nostalgia a marca que deixou em um dos mais icônicos Mundiais já realizados. "Foi divertido encontrar todas essas imagens".

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De pé: Puskas, Djalma Santos, Pluskal, Yashin, Popluhar, Schnellinger, Soskic, Masopust, Eyzaguirre, Baxter (atrás de Eyzaguirre) e Seeler. Agachados: Kopa, Law, Di Stéfano, Eusébio e Gento.

No dia 26 de outubro de 1863, em uma taberna de Londres, Ebenezer Cobb Morley e membros de 12 clubes se reuniram para criar a Football Association. A criação da entidade e a unificação das regras em um único código de lei possibilitou a difusão do esporte. Por isso, essa data é tratada como o ponto de partida para o futebol. E em 1963, a FA decidiu fazer diversas ações para comemorar o centenário da modalidade.

E no dia 23 de outubro de 1963, o lendário estádio de Wembley recebeu a seleção inglesa e um selecionado da FIFA com as 16 maiores estrelas do futebol mundial da época. Nomes como Di Stéfano, Ferenc Puskas, Djalma Santos, Yashin, Masopust, Eusébio, entre outros, formaram a equipe que desafiaria o English Team. O comandante seria o chileno Fernando Riera, que foi o substituto do húngaro Béla Guttmann no Benfica bicampeão europeu. Garrincha e Nilton Santos também foram convidados, mas Garrincha estava lesionado e Nilton não foi liberado pelo Botafogo. Pelé, o Rei do Futebol, não participou devido a uma lesão causada pelo desgastante confronto com o Milan, pelo Mundial de Clubes daquele ano, disputado em 16 de outubro. Pelé também ficaria fora das outras duas partidas no Brasil, em novembro, em que o Santos conquistaria o bicampeonato mundial. 

O guia da partida (publicação comum em estádios europeus), previa: "100 anos se passaram. O futuro parece brilhante. O que irá nos trazer? Provavelmente haverá uma liga europeia, e possivelmente, uma liga mundial. Posso ver o tempo, talvez não tão distante, quando os principais clubes da Europa terão seus próprios jatinhos para longas viagens e helicópteros para os dérbis locais". O público de cerca de 100 mil pessoas ovacionou a entrada dos atletas em campo. Daquele grupo de ingleses, sete seriam convocados por Alf Ramsey para a Copa de 66, sediada na Inglaterra, e vencida pelos anfitriões.


De pé: Terry Paine, Gordon Milne, Smith, Banks, Bobby Charlton e Bobby Moore. Agachados: Jimmy Greaves, Eastham, Armfield, Norman Hunter e Ray Wilson.

Com a bola rolando, as palmas eram praticamente incessantes, e aumentavam a cada lance de ambos os times. A Inglaterra, obviamente mais entrosada, conseguia levar mais perigo, mas Yashin fazia grande apresentação. O único representante brasileiro em campo, o lateral Djalma Santos, teve trabalho para segurar o jovem Bobby Charlton, do Manchester United. Do lado inglês, era Armfield que fazia de tudo para segurar os avanços para a linha de fundo do espanhol Gento. No time da FIFA, o destaque ficava para o trio Kopa, Di Stéfano e Gento, que relembravam ao público suas grandes atuações com a camisa do Real Madrid, contando ainda com a adição do português Eusébio. No intervalo, saíram Yashin, Djalma Santos, Masopust e Eusébio para a entrada de Soskic, Eyzaguirre, Baxter e Puskas. 

Com 7 minutos, a Inglaterra marcou com Greaves, mas o juiz já havia assinalado uma falta no inglês, para desespero da equipe da casa. Aos 15 minutos, o alemão Uwe Seeler foi improvisado na ponta no lugar do francês Kopa. Aos 21, o English Team abriu o placar. Bobby Charlton levantou a bola na área, a defesa do time da FIFA falhou ao tentar afastar a bola, e Paine aproveitou. 

Outro gol saiu apenas aos 37 minutos. O iugoslavo Soskic, que havia substituído Yashin, sai jogando com Di Stéfano, que estava posicionando antes da linha do meio de campo. O hispano-argentino avança pela direita e toca para Puskás, relembrando a época que ambos eram os grandes craques do Real Madrid. O húngaro domina e carrega a bola lentamente com o corpo virado para o lado esquerdo, acompanhando a passagem de Dennis Law. Assim que o escocês se aproxima da área, Puskás passa com sutileza. De frente para Banks, Law corre para um lado e bate para o outro canto do gol, enganando o lendário goleiro inglês.

Mas os ingleses precisavam mostrar mais para sua torcida. No finzinho, aos 43, Bobby Charlton saiu do campo de defesa com liberdade para o ataque. Ao chegar próximo da área, fez linda jogada individual e bateu forte de direita. Soskic rebateu, e na sobra, Jimmy Greaves empurrou para a rede, dando números finais ao duelo festivo.


Ficha técnica:
Inglaterra 2x1 FIFA XI
Estádio de Wembley, 23/10/1963
Árbitro: Robert Holley Davidson (Escócia)
Público: 100.000
Gols: Paine (66'), Law (82') e Greaves (87')
Inglaterra: Banks, Armfield, Wilson, Milne, Norman, Moore, Paine, Greaves, Smith, Eastham, B. Charlton. T: Alf Ramsey.
FIFA XI: Yashin (Soskic), Djalma Santos (Eyzaguirre), Schnellinger, Pluskal, Popluhar, Masopust (Baxter), Kopa (Seeler), Law, Di Stefano, Eusébio (Puskas) e Gento. T: Fernando Riera.

Confira os gols da partida:


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Publicado originalmente em 13 de outubro de 2015 no blog Escrevendo Futebol. 


A figura do juiz no futebol foi concebida anos mais tarde da criação do esporte. Ter espaço na mídia em constantes debates acerca da arbitragem, então, era algo muito distante. Mas com o início do profissionalismo no futebol e a criação de grandes torneios, como a Copa do Mundo, esta classe de operários do futebol também começou a ter destaque. E o primeiro grande árbitro da história do futebol foi o belga John Langenus.

E quando falo grande, não é apenas no sentido figurado. Com 1,90m de altura, impunha respeito e era facilmente identificado no campo de jogo. Além de suas roupas, claro, que falarei mais adiante. Langenus nasceu em 8 de dezembro de 1891, em Berchem, na Bélgica. Tentou praticar o esporte, mas não era lá tão habilidoso. E como a maioria dos juízes de futebol até hoje, arbitragem não era sua função principal. Poliglota (falava francês, inglês, alemão, italiano e espanhol), se destacava também como jornalista. Não raramente, escrevia relatos das partidas em que ele mesmo apitava. Era também chefe de gabinete do Governo de Amberes.

Apaixonado pelo futebol, apitou em três Copas do Mundo (30, 34 e 38), e também nos Jogos Olímpicos de 1928. Já aposentando, escreveu o livro Whistling in the World, autobiografia em que conta inúmeras passagens e encontros com grandes personalidades, como Mussolini (que lhe entregou uma foto autografada de si mesmo). Faleceu em 1º de outubro de 1952. Seu domínio de outras línguas foi fundamental para seu sucesso em uma época que os confrontos entre equipes de diferentes países começava a se espalhar. Apitou mais de 80 partidas internacionais entre clubes e seleções, Fez sua estreia como árbitro internacional no dia 25 de fevereiro de 1923, em Paris, na vitória por 3 a 2 da França sobre Luxemburgo.


Na Copa do Mundo de 1930, espantou e encantou a todos com seus trajes curiosos. Camisa, paletó, gravata, calções de golfe e meiões. Elegância e extravagância em harmonia. Dirigiu quatro partidas ao todo. Inclusive a estreia do estádio Centenário, entre Uruguai e Peru, e a grande final entre Argentina e Uruguai. Porém, essa definição foi dada horas antes do jogo. O belga só aceitou o convite quando sentiu que sua integridade estaria intacta, ao exigir um seguro de vida em caso de derrota da seleção local. Perceba a importância de Langenus na história do futebol. Ele foi o homem que conduziu a partida de futebol mais importante da história até aquele momento!


No estádio Centenário, o Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2, e após o bicampeonato olímpico, conquistou também o primeiro mundial. Ao encerrar a partida, assustado com a invasão de campo, fugiu direto para o porto e embarcou no navio SS Duilio. Porém, Langenus foi obrigado a ficar mais um dia em Montevidéu, devido a um forte nevoeiro. Mas não saiu da embarcação. Mas nada melhor do que ouvir a história de quem a viveu. Em março de 81, Langenus deu o seguinte relato à revista inglesa World Soccer:

"Tivemos três dias de descanso entre as semifinais e a final, e aproveitei para visitar Buenos Aires no dia anterior ao jogo. Foi justamente neste dia que descobri que havia sido resignado para apitar a partida. Mas apenas graças a minha estrela que pude fazê-lo, porque o navio que me levaria de volta para a Europa zarpava às 15 horas, justo quando começaria a partida. Então tive que realizar longa negociação com o capitão e a companhia para que saíssem umas horas mais tarde. Nas ruas de Buenos Aires havia muita euforia pela final. Foram dispostos vários barcos extras para cruzar o Rio da Prata. Inclusive, quando peguei o barco para voltar a Montevidéu, quase sou esmagado! Todos queriam ir ver a final. Já no Uruguai, os inspetores da aduana submeteram os argentinos a minuciosas revistas na busca de armas. Os jornais de ambos os países se dedicaram a uma campanha chauvinista e provocativa. Durante a manhã anterior ao jogo, os dirigentes europeus discutiram as medidas de segurança para proteger o trio de arbitragem, e somente ao meio dia, recebi autorização dos dirigentes da Federação Belga para aceitar a nomeação, ainda que a perspectiva de violência fosse apenas uma tempestade em copo d'água. Tivemos dificuldades na escolha da bola. Cada um dos adversários havia trazido uma bola fabricada de acordo com os critérios de seus países, e os dois queriam jogar com a própria bola. No campo de jogo, com uma moeda, foi decidido qual bola seria usada em cada tempo. Ao finalizar o primeiro tempo, Argentina ganhava de 2 a 1. Mas os uruguaios pensavam que o segundo gol havia sido marcado em posição ilegal. Era o velho problema do impedimento. Tanto o linesman, Cristophe, quanto eu, pensamos que nossa decisão era justa. Quero destacar que apesar do espírito bélico da multidão, nenhum incidente ocorreu, ainda que os locais estivessem tristes e alguns estivessem até chorando. No segundo tempo, nada pôde conter a equipe uruguaia. Viraram para 3 a 2. Depois a trave privou os argentinos do empate, e finalmente Castro selou o 4 a 2. Houve um rugido de aplausos da multidão, as tropas se alinharam, a bandeira foi lentamente hasteada no mastro e o povo começou a cantar seu hino. Da minha parte, desci rapidamente a gigantesca escadaria, entrei no vestiário, me troquei rapidamente de roupa e saí do estádio a todo vapor. Depois se disse que os argentinos não puderam jogar livremente, diante do risco de tomar um tiro e de que a polícia havia me ajudado a escapar. Nada disso é verdade! No navio me dei conta que a pressa para chegar a tempo para embarcar foi em vão. A densa névoa não permitiu que os barcos pudessem sair. Na manhã seguinte, o Duílio saiu em direção a Europa, continente que jamais viu um espetáculo como esse”.


Roberto Cabañas foi um dos jogadores mais talentosos do futebol paraguaio. Desbravou o futebol de diversos países em três continentes, e encantou a todos que o assistiram com belos gols, títulos e uma personalidade ímpar. Roberto Cabañas González nasceu em 11 de abril de 1961, em Pilar, uma pequenina cidadezinha à beira do rio Paraguai, distante 358 km da capital Asunción, e bem próxima à divisa com a Argentina. A cidade, inclusive, acompanhou Cabañas durante sua jornada como futebolista, tendo a alcunha de El Mago del Pilar. Era um jogador elástico, e se caracterizou também pelos gols acrobáticos, o que lhe rendeu um outro apelido, o de Mago de las Cabañuelas. Era também um jogador atlético. Tal como a lenda em torno das atividades físicas de Cristiano Ronaldo atualmente, diziam - e o próprio Cabañas fazia questão de confirmar - que o jogador realizava mil abdominais diárias.

E a magia do atacante começou no Cerro Porteño em 1978. Embora tenha atuado pelo time paraguaio por apenas três anos na equipe profissional, Cabañas marcou incríveis 36 gols em 40 partidas, mas não conquistou nenhum título. Fenômeno desde cedo, representou o Paraguai no Mundial sub-20 de 79. Logo na estreia, Cabañas marcou dois gols na vitória por 3 a 0 diante da Coreia do Sul e contribuiu para que a albirroja liderasse o grupo C. Outro jogador que brilhou no Mundial foi Romerito, que posteriormente viraria ídolo no futebol brasileiro. Nas quartas-de-final, porém, após um batalhado empate em 2 a 2 com a União Soviética, o Paraguai caiu nos pênaltis por 6 a 5. A URSS só pararia na final, diante da Argentina de Diego Maradona. 

Ainda em 79, passou a fazer parte da seleção principal. Romerito, ainda mais precoce, já era titular. Juntos fizeram parte da equipe que conquistou a Copa América contra o Chile. Cabañas jogou 20 minutos da segunda partida da final. Naturalmente, La Pantera chamou a atenção do exterior, mais precisamente do New York Cosmos. O então garoto atuaria ao lado de grandes estrelas do futebol. 


Todos imaginavam que seria apenas um coadjuvante de jogadores como Beckenbauer, Neeskens e Chinaglia, mas Cabañas se tornou um protagonista. Em cinco temporadas pela equipe estadunidense, foram 63 gols em 97 partidas, conquistando dois títulos da NASL (80 e 82). Seu auge no Cosmos aconteceu em 83, em que foi o artilheiro do campeonato com 25 gols, eleito MVP e ainda marcou aquele que se tornou o mais antológico gol marcado em sua carreira. A bola foi alçada na área, e em seguida escorada de cabeça para o meio. Cabañas está posicionado à frente da bola, e subitamente salta com os pés para trás dando um pequeno toque de calcanhar, fazendo um "chute do escorpião" anos antes de seu compatriota, Higuita.


Em 85, retornou ao futebol sul-americano, dessa vez para o América de Cali. Pelos diabos vermelhos foi ídolo e um dos principais responsáveis pelos momentos mais incríveis e também mais dolorosos da história do clube. Por três anos seguidos (85, 86 e 87) levou o América para a decisão da Libertadores da América. Três duras derrotas para Argentinos Juniors, River Plate e Peñarol (a mais difícil de todas). Entretanto, está na história do América também com títulos, conquistando o bicampeonato nacional em 85 e 86, fechando o ciclo de cinco conquistas consecutivas do clube.


Nesse meio tempo, ajudou o Paraguai a se classificar para o Mundial de 86. O Paraguai não disputava a fase final desde 58. Na copa do Mundo do México, o Paraguai ficou na segunda posição do grupo B, em um grupo com os donos da casa, a Bélgica e o Iraque. Na terceira partida, Cabañas marcou os dois gols paraguaios no empate em 2 a 2 contra a Bélgica. Nas oitavas de finais, nada pode fazer diante da Inglaterra de Lineker, que venceu por 3 a 0. Em 87 disputou sua segunda Copa América.


Depois do tri-vice pelo América de Cali, partiu rumo ao futebol europeu para jogar pelo modesto Brest, rebaixado para a segunda divisão. Em uma época que a Ligue 2 era dividida em grupos, Cabañas foi artilheiro do grupo A da temporada 89/90 com 22 gols e recolocou o Brest na elite, sendo eleito o melhor jogador do campeonato. Na temporada seguinte seguiu tendo boas atuações e terminou o francês na honrosa 10ª posição. Com isso, foi contratado pelo Lyon, onde foi peça importante da equipe que ficou na quinta posição na Ligue 1, conquistando uma vaga para a Copa da UEFA. Porém, Cabañas não ficou para a temporada seguinte e retornou à América do Sul ainda em 91. Se o seu auge técnico havia passado, ao menos começaria uma das maiores idolatria do futebol argentino, sendo um dos expoentes em uma época de vacas magras do Boca Juniors.


Com a camisa xeneize caiu nas graças da torcida por seu temperamento e pelo especial "carinho" com o qual tratava o River Plate, maior rival. Talvez a derrota em 86 pelo América ainda doesse em Cabañas, e a responsabilidade de vestir a camisa do Boca tenha feito essa rivalidade aflorar ainda mais no delantero. Cabañas se destacava pelas frases que direcionava aos millionarios.

"River es grande en institución pero chico como equipo. No tiene jugadores de jerarquía. Boca Unidos le ganó a River con el nombre. Se asustan al escuchar Boca"

"No conozco a nadie de River, pero cualquiera que tenga esa camiseta es mi enemigo"


Participou de nove clássicos contra o River, ganhando cinco, empatando três e perdendo apenas um, com dois gols marcados. No total de seu período em La Bombonera, foram 67 partidas e 18 gols, segundo o Diário Olé. Conquistou o Apertura de 92 quebrando um jejum de títulos que perdurava desde 1981. Ainda foi campeão da primeira edição da Copa Master da Supercopa em final disputada contra o Cruzeiro.


Em 93 disputou sua terceira e última Copa América, marcando  também o último de seus 10 gols com a camisa albirroja, na vitória por 1 a 0 sobre o Chile, em Cuenca, no Equador. E foi neste país que Cabañas continuou sua carreira disputando um campeonato com o Barcelona de Guayaquil, provavelmente o último ano ainda em alto nível. Nos anos seguintes teve breve retorno ao Boca Juniors e ao Cerro Porteño. Passou pelo Libertad e se aposentou pelo colombiano Independiente Medellín.

Após três anos longe dos gramados, Cabañas voltou ao futebol no ano de 2000, para vestir a camisa do Real Cartagena. O atacante estava disputando um torneio de futebol de areia em Cartagena pelo América, no qual apareceu como artilheiro. O treinador do clube auriverde Hernán Herrera então o convidou, e motivado por poder mostrar seu futebol a seus filhos, decidiu retornar. Logo em sua estreia diante do Deportivo Pasto, marcou os dois gols do Real no empate em 2 a 2. Vale a nota: o goleiro René Higuita era companheiro de Cabañas no único time profissional de Cartagena. Seu último gol na carreira aconteceu de pênalti na vitória por 3 a 2 sobre o Tuluá. Foram três gols em nove partidas.

Após a aposentadoria - a definitiva - trabalhou na comissão técnica do América de Cali, chegando a ser efetivado como treinador em 2006, mas durou apenas doze partidas, com duas vitórias, seis empates e quatro derrotas. Mais recentemente, havia trabalhado como comentarista esportivo. No dia 9 de janeiro de 2017, aos 55 anos, um ataque cardíaco deu fim aos dias de magia de um dos paraguaios mais talentosos da história do futebol.


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Texto originalmente publicado em 20 de janeiro de 2017 e atualizado em 9 de janeiro de 2018.


Um dia após o último Natal, uma data considerada sagrada pelos cristãos, a Itália, país sede da Igreja Católica, líder do Cristianismo no Mundo, mostrou seu lado mais perverso. Em Milão, no jogo entre Internazionale e Napoli, o zagueiro senegalês Kalidou Koulibaly foi insultado por sua cor de pele. O defensor teve de ouvir torcedores imitando sons de macaco na mais vil ofensa que pode ser cometida. O sistema de som do estádio San Siro pediu por três vezes que os cânticos e ofensas parassem, sem efeito. O juiz permitiu que a partida seguisse sem maiores problemas, e aos 35 minutos Koulibaly acabou expulso por tomar o segundo cartão amarelo.

Ao fim do encontro, o jogador comentou em suas redes sociais o ocorrido. "Peço desculpas pela derrota e, sobretudo, por ter deixado meus companheiros na mão. Mas tenho orgulho da cor da minha pele. De ser francês, senegalês, napolitano: homem”. O treinador partenopei, Carlo Ancelotti, também saiu em defesa do atleta. “Nós pedimos três vezes para que alguma ação fosse tomada, mas a partida continuou. Continuavam dizendo que o jogo poderia ser interrompido, mas quando? Depois de mais quatro ou cinco anúncios? Na próxima vez, talvez tenhamos que resolver com as próprias mãos e sair de campo. Eles provavelmente vão nos fazer desistir do jogo, mas estamos preparados para isso”. Mas em um momento político mundial em que o racismo e a segregação volta a se tornar bandeira política, há aqueles que fazem questão de apresentar o sórdido caráter. Matteo Salvini, vice-Primeiro Ministro italiano e membro da Lega Nord, principal partido de direita da Itália, minimizou o ocorrido. “Racismo é coisa de idiotas em 2018, mas não vamos colocar tudo no mesmo saco. Nos estádios eles também cantam “Milão em chamas”. Isso seria racismo também? Bonucci foi vaiado por torcedores do Milan, isso também é racismo? A provocação saudável entre as torcidas não deve ser considerada racismo”.

Chamado de Il Capitano por seus correligionários, o posicionamento não é surpresa. Assim como não é surpresa vermos um racismo tão evidente em um estádio de futebol em tempos como os atuais. Não é coincidência, claro, o crescimento de certos personagens políticos estar ligado ao crescimento da intolerância dentro do futebol. Casos de racismo e discriminação em estádios de futebol têm aumentado gradualmente, conforme vamos explorar a seguir.

De acordo com a organização inglesa Kick It Out, o racismo, a homofobia e outras formas de discriminação, como o antissemitismo, cresceram 11% na temporada 2017-18 no futebol inglês em todos os níveis, sexto crescimento anual consecutivo. “Eu gostaria de ser otimista, mas depois das estatísticas, não há como acreditar que as coisas estarão bem daqui dois ou três anos”, disse Troy Townsend, um dos representantes da entidade e pai de Andros Townsend, jogador do Crystal Palace, em entrevista à BBC.

O recorte inglês não está distante de nossa realidade. Em novembro de 2018, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol publicou o Relatório Anual da Discriminação Racial, referente ao ano de 2017. Este foi o quarto estudo sobre o tema e apresentou 77 casos que envolvem racismo, machismo, xenofobia e homofobia em todos os esportes, no Brasil ou no exterior em casos com envolvimento de brasileiros, como em partidas da Libertadores, por exemplo. No caso do racismo, houve um crescimento de 25 casos relatados em 2016 para 43 casos relatados em 2017. Para Marcelo Carvalho, idealizador do Observatório, esse crescimento se deve ao aumento das denúncias e também ao momento político. “Jogadores, torcedores e a mídia em geral não estão mais aceitando calados os casos. Existe uma maior conscientização da importância de denunciar e lutar contra”, afirma. Para ele, a atuação política de grupos discriminatórios, especialmente de extrema-direita,  “influencia e encoraja pessoas preconceituosas a expressarem seu preconceito”.

Para reverter este quadro, Marcelo explica que é preciso a atuação das instituições em ações de educação e punição. “Existe uma maior conscientização e um aumento de número de grupos que mobilizam para lutar contra os preconceitos nos estádios. No Brasil estes grupos crescem sem o apoio ou participação dos clubes. Grupos que lutam principalmente contra o machismo e a homofobia. Em primeiro lugar (é necessário) punição aos envolvidos (clubes e torcedores). No Brasil nada funciona se não houver punição. Em segundo lugar, ou paralelamente, campanhas efetivas contra os preconceitos e a discriminação nos estádios e fora dele. Quem deve estar na frente dessas campanhas é a CBF e os clubes. Mas não pode ser algo esporádico e pontual. Precisa ser educativa e envolver torcedores, sócios e categorias de base”. Sem a participação dos principais personagens do jogo, Marcelo não acredita na redução deste quadro discriminatório. “Mesmo que alguns clubes comecem a se manifestar, não tenho muita esperança. O Ministério do Esporte precisa estar envolvido, assim como a Justiça Desportiva e neste momento do país tudo leva para um caminho contrário”.

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No dia 24 de junho de 1959, o Botafogo foi recebido pelo Atlético de Madrid, no Estádio Metropolitano, na capital espanhola, para a disputa de um amistoso. Aproximadamente 25 mil pessoas puderam ver um espetáculo de 10 gols.

O time da Estrela Solitária venceu pelo placar de 6 a 4. Didi e Rossi marcaram dois gols cada, enquanto Zagallo e Quarentinha balançaram as redes uma vez. Pelo lado colchonero, Vavá e Hollaus marcaram um cada, e os outros dois gols, foram feitos pelo ídolo madridista Ferenc Puskás, cedido pelo maior rival para esta partida. A gentileza foi motivada pela ausência de Peiró e Collar, convocados para a seleção espanhola. 

Segundo o jornal Mundo Deportivo, o brasileiro Vavá e o húngaro Puskás tiveram grande entrosamento, e que o último, teve atuação acima da média, mesmo vestindo o manto dos arquirrivais. Na única foto que encontrei deste confronto, Garrincha, Vavá e Didi, campeões mundiais em 1958 pela Seleção Brasileira, aparecem lado a lado.

Abaixo, a ficha técnica do jogo:

ATLÉTICO DE MADRID 4 x 6 BOTAFOGO
Data: 24/06/1959
Local: Estádio Metropolitano (Madri)
Árbitro: Caballero
Competição: Amistoso
Gols: Didi (2), Rossi (2), Quarentinha e Zagallo para o Botafogo; Vavá, Hollaus e Puskas (2) para o Atlético de Madrid
Atlético de Madrid: Pazos (Medinabeltia), Alvarito e Sutter (Martin); Rivilla, Villaverde e Calleja; Miguel, Vavá, Hollaus, Puskas e River (Agustín). Técnico: ?
Botafogo: Ernâni (Adalberto), Cacá, Thomé (Cetale), Nílton Santos e Chicão; Ronald (Tião Macalé) e Didi; Garrincha, Quarentinha, Rossi e Zagallo (Neyvaldo). Técnico: João Saldanha.

*Com informações do jornal Mundo Deportivo e do blog Mundo Botafogo.

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Texto publicado originalmente em 11 de fevereiro de 2015, no blog Escrevendo Futebol.