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Em meio a esforços diplomáticos de ambos os lados do Paralelo 38, o esporte aparece como ponto de reflexão em meio a tensão quase septuagenária entre as Coreias.

A Guerra da Coreia vitimou entre 1 a 2 milhões e meio de civis, estimadamente,  em um conflito que durou, de fato, entre 1950 e 53, e que oficialmente perdura até os dias de hoje. Apesar da tensão bélica e da linha separatória chamada de Zona Desmilitarizada, a população dos dois países, assim como seus dirigentes, sempre alimentaram o sonho de reunificação - claro, que cada um à sua maneira. A Coreia do Norte, primeiramente com seu líder supremo e fundador Kim Il Sung, e posteriormente com seu sucessor, Kim Jong-Il, mantiveram uma política auto-isolacionista extrema, reforçada pela interferência externa do establishment norte-americano. Com a morte dos dois primeiros líderes, e a transformação de Kim Jong-Un no novo braço de ferro do país adepto da ideologia juche, a tendência inicial foi de um afastamento ainda maior do restante do planeta, e a postura firme em relação ao programa nuclear norte-coreano gerou preocupação nos países ocidentais, principalmente após o fim unilateral por parte de Kim do armistício entre os dois países, em 2013.

Depois de um período recente de guerra midiática entre os lados, alimentada ainda mais pelo hollywoodiano presidente americano Donald Trump, ambas as Coreias decidiram baixar a guarda e iniciar tratativas que, ao menos de forma aparente, visam a paz efetiva entre as duas nações. E o esporte tem tido papel fundamental nessa aproximação, algo que não é de hoje. No início dos anos 90, após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, importante aliado da Coreia do Norte, os dois países chegaram a iniciar conversas diplomáticas de cooperação. Em março de 91, as duas Coreias, classificadas para a disputa do Mundial sub-20 da FIFA, solicitaram à entidade a permissão para atuarem de forma conjunta, sob a bandeira da Coreia unificada. O pedido foi aceito e a seleção fez bonito na competição, enfrentando inclusive o Brasil, que viria a ser vice-campeão da categoria. Algo similar aconteceu no Mundial de Tênis de Mesa. Meses depois, tanto a Coreia do Sul, quanto a do Norte, foram aceitas na Organização das Nações Unidas.


Vinte e seis anos depois, em 2017, a Coreia do Sul recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang. A ocasião permitiu novos encontros entre autoridades coreanas e ficou decidido que haveria uma equipe de hóquei no gelo feminina representando a Coreia unificada, e que ambos os países desfilariam juntos na cerimônia de abertura dos Jogos. Tudo correu dentro dos conformes e, melhor que isso, a diplomacia prosseguiu nos meses seguintes, culminando na assinatura da Declaração de Phanmunjom, um importante avanço pelo fim da guerra entre os dois países.

Quando tratamos de política, ideologias tão distintas, rusgas de décadas, é difícil cravar qualquer prognóstico, ainda que o retrospecto recente possa trazer otimismo e esperança às populações envolvidas neste conflito. O esporte, entretanto, segue como uma forma de aproximar estes dois povos que um dia já foram apenas um. Na primeira quinzena de agosto, em Seul, foram disputados dois jogos entre os representantes sindicalistas de classes trabalhadoras dos dois países, a Federação Geral de Sindicatos da Coreia do Norte (GFTUK), a Federação Geral de Sindicatos Sul-Coreanos (FTUK) e a Confederação de Sindicatos Sul-Coreanos (KCTU). Diante de relativo bom público, as equipes foram ovacionadas ao entrar em campo com a bandeira da Coreia unificada em mãos. A propósito do evento, também foram realizados encontros entre as organizações de trabalhadores e grupos industriais. Já haviam se passado onze nao desde o último evento similar, em 2007.


Esta não foi a única demonstração pública de paz dos últimos dias. Nesta semana, na abertura dos Jogos Asiáticos, disputados em Jacarta, na Indonésia, mais uma vez a delegação de atletas das duas Coreias desfilaram lado a lado, e o primeiro-ministro sul-coreano, Lee Nak-yon e o vice-premiê da Coreia do Norte, Ri Riyong Nam, apareceram acenando de mãos dadas durante o evento.

A aproximação definitiva ainda está longe de acontecer. É um processo que não precisa de pressa, afinal, para quem já esperou mais de 60 anos por paz, qualquer demonstração de que a evolução dessa relação possa acontecer já é de grande importância. E que o esporte continue sendo parte fundamental dessa união entre dois países tão diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais.

Imagens: KCNA/Reuters

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