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A sabedoria do futebol está, entre outras coisas, em se parecer muito com a vida, com a arte e também com o amor. O futebol, como todo jogo, liberta nosso senso comum de sua direção unilinear para nos envolver em seu mistério, grandeza, maravilha e alegria. A cada minuto ele nos mostra seu lado democrático, fascinante, lúdico, artístico e transformador para se tornar no grande teatro de nossas emoções.

É democrático, pois pode compartilhar e expressar-se em um mesmo time jogadores talentosos e os nem tanto. Fascinante, pois nos mostra tão bem esse lado épico e tão humano, onde o menor vence o grande, o ruim faz frente ao bom, ou o feio derrota o bonito. Lúdico, pois nos devolve a infância, o vínculo primário com a bola, o desfrute total. Artístico por seu processo criativo prévio, da possibilidade de desenhar o que você quer que aconteça, o que automaticamente nos obriga a comprometermos com nossa grandeza de nos relacionarmos com os outros. Transformador por gerar esse espaço sagrado onde nos entregamos com o maior respeito ao aprendizado contínuo. Onde o medo é compartilhado, e a coragem também. A empatia é consolo na derrota e a tristeza da perda traz angústia a todos.

O futebol nos fala de alegria pelo gol de um companheiro e por poder compartilhar através de seu sorriso. Da felicidade pela jogada que arranca aplausos da arquibancada e de nós esse sorriso de criança que acabou de realizar uma travessura.  O futebol nos fala da angústia nos minutos finais, que podem ser fatais, e nos fala do medo de perder, de falhar.

Com as mensagens desses tempos os seres humanos ficaram obcecados por uma cultura consumista e resultadista que premia excessivamente o sucesso, o que tem bom marketing e, disfarçado de guru, fala de realização pessoal. Que é valorizada ou não pelo destino dos resultados, desprezando o caminho percorrido, que por si é valioso e traz consigo muita aprendizagem.

E quando inevitavelmente nos encontramos com a possibilidade de desenhar nossas vidas, a primeira pergunta é: O que faço? Vai dar certo? Serei feliz? Meus pais irão gostar? E assim imaginamos pensando sempre no resultado, se seremos aceitos e valorizados. Desta forma, perdemos a chance de poder desfrutar todo esse processo que nos convida a conhecermos a nós mesmos, nos questionarmos, e nos leva a reinventar, transformando nossas dores em esperança, para nos envolvermos com nossos aprendizados, mas acima de tudo com os outros.  

Assim como nestas decisões de vida, no futebol, mantemos a alegria, o espanto e a magia para depois do jogo, quando sempre ou quase sempre nos encontramos sozinhos, vulneráveis e angustiados com a possibilidade real de que "as coisas também podem ser de outra forma".

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O texto acima é de Juan Cominges, para o jornal peruano Diario Uno, e o título da coluna é em homenagem ao site Fútbol Rebelde, que nos autorizou a tradução e reprodução do artigo. Para quem não conhece, Juan Cominges é um ex-meio campista peruano, com passagens por diversos clubes da América do Sul, inclusive com uma passagem pelo Guarani de Campinas, e vestiu a camisa da seleção nacional em 15 oportunidades. Esquerdista convicto, já rendeu homenagem a Fidel Castro, na ocasião de seu falecimento após marcar um gol pelo Cienciano, na segunda divisão peruana (foto).

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