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João Saldanha é uma figura ímpar do futebol brasileiro. Nascido em 3 de junho de 1917, em Alegrete, no Rio Grande do Sul, se mudou ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde construiu a maior parte de sua história de vida. Ideólogo por natureza, fez parte da militância de esquerda, se tornou atleta do Botafogo, sua grande paixão, e se formou em Direito antes de se tornar um dos mais célebres cronistas esportivos da era dourada do futebol nacional. Também teve uma curta, mas inesquecível carreira de treinador. De personalidade forte, até um pouco exagerada, colecionou desafetos e recebeu o apelido de João-Sem-Medo. E em 1969, foi convidado pela então CBD (Confederação Brasileira de Desportos) para dirigir a Seleção Brasileira de Futebol. Um comunista à frente do maior símbolo do país em pleno Regime Militar. A ideia era criar uma espécie de proteção ideológica para a Seleção. Tinha tudo para dar errado. De início, não deu. Seis jogos e seis vitórias nas Eliminatórias para a Copa de 70 (recorde batido apenas por Tite, no atual comando).

Naquele mesmo ano, Emilio Garrastazu Médici assumiu a presidência do país, o terceiro comandante do Regime Militar imposto desde 1964. O presidente mais repressor do período ditatorial brasileiro não via com bons olhos a possibilidade de um comunista convicto e assumido ser campeão do mundo com uma das armas de propaganda do regime. Saldanha também não gostava da ideia de servir ao general. Já em 1970, em certa e famosa entrevista, ao ser perguntado sobre a vontade de Médici em ver Dadá Maravilha com a camisa da Seleção, Saldanha disparou: “Ele escala os ministérios, eu convoco a Seleção”. Duas semanas depois foi demitido. Haviam outros pretextos, claro. Saldanha já havia arranjado briga com “meio mundo” da comissão técnica, havia se metido em uma confusão à mão armada com Iustrich, o “Homão”, então técnico do Flamengo e teve problemas com Pelé, ou melhor com um suposto problema visual do jogador. Um empate da Seleção com o Bangu em 1 a 1 em um jogo-treino fechou a participação de Saldanha na Seleção. Zagallo assumiu às vésperas do Mundial do México e o resto é história. Não se sabe se Saldanha teria o mesmo destino vitorioso do Velho Lobo.

Após a demissão, Saldanha voltou à escrita e aos microfones. E em março daquele ano, escreveu para a Revista Placar uma Carta ao Futebol Brasileiro. Sem medo, como sua alcunha já demonstrava, redigiu cinco laudas explicando sua breve passagem pelo comando técnico da Seleção Brasileira e atirou aos quatro ventos tudo (ou quase tudo) que seu coração carregava naquele momento. Embora não soubesse dos reais motivos por trás de sua demissão.

***

“Um dia o Dr. Antônio do Passo apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:

Isso é uma sondagem ou um convite?
- É um convite.
- Topo!”

Foi assim que Saldanha iniciou sua fala, contando como aconteceu o convite para assumir a Seleção. E dali pra frente se justificou em suas ações e fez o que talvez nenhum treinador que já tenha dirigido a Seleção tenha feito - e talvez nunca farão: atacar a entidade que administra um dos nossos maiores símbolos nacionais.

Recheada de pontos a serem elogiados e criticados, a carta traz uma passagem curiosa, e que se apresentou real apenas décadas depois. De acordo com Saldanha, relatórios médicos indicavam que Pelé, o maior jogador da história, estava à beira de um colapso renal (uremia). Em 2014 revelou-se que Pelé não tinha um dos rins desde a época do Cosmos, em meados da década de 70. De acordo com o estafe do jogador, a retirada do rim teria sido motivada por constantes pancadas na região do órgão que Pelé sofria durante as partidas. Mas a razão poderia já ser conhecida pelos médicos da Seleção e do Santos bem antes.

Confira a seguir na íntegra, a Carta Aberta ao Futebol Brasileiro, de João Saldanha:


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