O centenário de Ferruccio Valcareggi, único treinador campeão europeu pela Azzurra



O futebol italiano é conhecido por ter grandes estrategistas. Vittorio Pozzo, Enzo Bearzot, Arrigo Sachi, Fabio Capello, Marcelo Lippi, Giovanni Trapattoni, Carlo Ancelotti... Mas há um nome que, apesar da pouca fama, conquistou algo que nenhum dos citados anteriormente conseguiu e neste 12 de fevereiro de 2019 completaria 100 anos se estivesse vivo. Ferruccio Valcareggi não empilhou troféus pelos clubes que passou, como jogador ou treinador, mas marcou seu nome na história como o único técnico italiano a levantar o título da Eurocopa.

Nascido em Trieste, cidade à beira do Mar Adriático, Ferruccio cresceu ali e aos 13 anos iniciou sua trajetória esportiva no Ponziana, uma das equipes locais (e que faliu em 2015). Após participar de uma vitória expressiva por 7 a 0 sobre a Triestina, Valcareggi chama a atenção dos rivais, que logo passam a contar com o futebol do garoto. A Triestina (refundada em 2012) contava na época com Nereo Rocco (posteriormente precursor do Catennaccio) na equipe principal.  Em 38, já sem o meio-campista Rocco, o clube biancorosso lança Valcareggi entre os titulares. Foram três anos como um dos principais jogadores do time até que em 1940, depois de retornar do serviço militar, o jovem é negociado com a Fiorentina.


Na Viola, Valcareggi apresenta grande futebol em uma equipe aguerrida, e que na temporada 40-41 ficou com a 3ª colocação da Série A. Nos dois anos seguintes, a Fiorentina não repete o êxito, mas termina de forma honrosa, respectivamente, na nona e na sexta posição na tábua de classificação. Em 43, por conta da Segunda Guerra, o futebol profissional é suspenso em solo italiano. Deste momento até o fim do conflito, Vacareggi chegou a jogar amistosos com o Milan e foi o herói do Campionato Toscano di Guerra de 45, marcando o gol solitário da vitória da Fiorentina sobre o Empoli, na segunda partida da final. Entretanto, ao fim da conflito bélico em que a Itália saiu como derrotada, Valcareggi é vendido ao Bolonha para sanar uma grande dívida da Fiorentina. Na equipe rossoblú, Valcareggi atuou por dois anos e em 46 conquistou o título da Coppa Alta Itália, um torneio de consolação para equipes do norte italiano eliminadas do campeonato nacional, que estava se restabelecendo após a guerra. 

A partir daqui, porém, a carreira como jogador de Valcareggi se torna ligeiramente irregular, passando rapidamente por diversas equipes. Em 47-48 joga novamente pela Fiorentina, e na temporada seguinte é vice-campeão da Serie B pelo Vicenza. De 49 a 51 vive seus últimos anos de Serie A jogando pelo modesto Lucchese e em 51-52 conquista novo vice-campeonato da segunda divisão, desta vez pelo Brescia. Ainda em 52, aos 33 anos, vai para o Piombino, uma equipe tradicional, mas historicamente muito pequena, que viveu seu auge justamente neste início dos anos 50. Valcareggi passou a ser não apenas o principal nome do elenco, mas era o capitão e treinador. Depois de uma campanha no máximo regular na primeira temporada (15º), na segunda a equipe nerazzurri não resistiu e caiu novamente para a série C e nunca mais esteve em divisão maior. Foi também o último ano de carreira de Valcareggi que, de acordo com o site Storie di Calcio, marcou 91 gols em 395 jogos como atleta.

Valcareggi inicia, então, agora exclusivamente, sua carreira de treinador. Em 54 assume o Prato, outra equipe toscana e que estava na serie C. Depois de dois anos sem grandes feitos, consegue na temporada 56-57 seu único título por clubes, conquistando a terceira divisão. Mas dois anos depois acabou novamente rebaixado. Apesar do mau desempenho, Valcareggi recebe sua primeira chance na elite como treinador e assume a Atalanta, recém-promovida. No time bergamasco Valcareggi fica à frente do comando técnico por três temporadas, deixando a equipe sempre em posição segura na tabela. Em 61-62, encerra seu ciclo com um sexto lugar na Serie A e com uma semifinal de Copa Mitropa. Os bons resultados o credenciaram a voltar para Firenze, que havia acabado de ser top-3. Com a Viola, Valcareggi seguiu fazendo um bom trabalho e conseguiu manter a equipe entre as melhores do futebol italiano. Em 64 voltou para a Atalanta mas problemas com a direção o fizeram deixar o clube. Depois disso, foi contratado pela FIGC para trabalhar na comissão técnica italiana e viu o fracasso de Edmondo Fabbri no Mundial de 66. Foi aí que surgiu a grande chance de sua vida. 

Nos primeiros meses, dividiu o papel de treinador com o mítico Helenio Herrera. Foram quatro jogos juntos sem perder, até Herrera deixar Valcareggi livre para desempenhar seu trabalho de forma solitária. O objetivo era estar na fase final da Eurocopa, que seria sediada na Itália. Na fase qualificatória ao lado de Romênia, Suíça e Chipre, a Azzurra passou pelo grupo 6 sem maiores problemas vencendo cinco jogos e empatando apenas um, com apenas três gols sofridos. Nos play-offs, porém, a Bulgária se mostrou um adversário duro. Na ida, vitória búlgara por 3 a 2. Um empate bastava, mas na Itália, os anfitriões venceram por 2 a 0 e conquistaram um lugar entre as 4 melhores seleções da Europa. Nas semifinais, um duelo duro e difícil contra a União Soviética, campeã em 60. O empate sem gols mesmo após a prorrogação forçou um inusitado desempate: na moedinha. E a moeda nunca cai de pé, e dessa vez a sorte preferiu os donos da casa. Na final, outro adversário do Leste Europeu. A Iugoslávia veio de uma tardia vitória contra os ingleses campeões mundiais e dificultou os sonhos italianos. Empate em 1 a 1 após prorrogação e um novo jogo foi marcado. Dois dias depois da primeira partida, Gigi Riva e Anastasi marcaram os gols da incontestável vitória italiana no Estádio Olímpico, em Roma.


O titulo europeu credenciou a Itália como uma das favoritas para o Mundial do México e deixou para trás nas Eliminatórias a Alemanha Oriental e País de Gales. Na Copa, teve dificuldades na primeira fase, mas se classificou ao mata-mata sem derrota. Vitória magra frente à Suécia e dois empates sem gols, ao melhor estilo italiano com Israel e Uruguai. Nas quartas-de-final, enfim, uma grande atuação italiana, massacrando os anfitriões mexicanos por 4 a 1. Nas semifinais, um jogo proibido para cardíacos, cheio de reviravoltas e emoção. Vitória por 4 a 3 sobre a freguesa Alemanha e passaporte carimbado para a final. Mas o que Valcareggi viu foi apenas mais um jogo – e em qual a Itália não se apresentou bem. “Foi um jogo com uma alta tensão emocional, mas talvez superestimada ao longo do tempo pela alternância de placar. Imagine, no Estádio Atzeca, na Cidade do México, eles colocaram uma placa para lembrar essa partida. Para mim, no entanto, do ponto de vista técnico, não foi um jogo excepcional. Minha Seleção já fez partidas de nível bem melhor”, disse sem falsa modéstia.

Na final, a Itália novamente não conseguiu jogar o futebol esperado por Valcareggi. No entanto, quem estava do outro lado era apenas o melhor Brasil de todos os tempos e a derrota por 4 a 1 se mostrou plenamente justificada. Apesar do vice-campeonato e do memorável jogo com a Alemanha, Valcareggi recebeu muitas críticas por adotar a staffetta, um revezamento entre Gianni Rivera e Sandro Mazzolla, dois dos jogadores mais talentosos do grupo italiano. Para o treinador, não havia a possibilidade dos dois atuarem juntos. Na final, permitiu a Rivera desfrutar de apenas seis minutos em campo. Mesmo criticado, seguiu no cargo. “Ainda hoje não gosto de falar de indivíduos. O mais importante é falar do grupo e do equilíbrio em campo. A Seleção que jogou no Mexico era formada por tantos amigos, gente como Domenghini, Bertini e De Sisti, capazes de se sacrificar em nome da equipe, proteger Rivera, que não gostava de marcar”, disse em entrevista dada em 2002.


No novo ciclo, os resultados prosseguiram de forma positiva. Na Euro, a equipe se classificou bem na fase de grupos das eliminatórias, mas caiu nos play-offs contra a Bélgica. Nas Eliminatórias para a Copa de 74, classificou com grande facilidade em um grupo com Turquia, Suíça e Luxemburgo, sem sequer sofrer gols. Mas na Alemanha, Valcareggi não conseguiu manter a união do grupo como aconteceu quatro anos antes. Logo na primeira partida, a dificuldade para vencer a frágil seleção do Haiti demonstrou as fraquezas da equipe. Além disso, o polêmico Chinaglia deflagrou uma crise ao xingar o treinador quando substituído. Sem forças para reagir, a Azzurra empatou com a Argentina na partida seguinte graças a um gol contra de Perfumo e foi derrotado pela Polônia por 2 a 1 sem dar grande resistência. A demissão de Valcareggi foi natural. Em oito anos à frente da Azzurra foram apenas seis derrotas. Após sua saída, o cargo de treinador foi assumido por Enzo Bearzot, que estava no sub-23. O futuro campeão mundial tinha uma boa amizade com Valcareggi. “Estivemos juntos de 1969 a 1974 e foram cinco belos anos. Ele não parecia reagir às críticas, mas na verdade as absorvia lentamente à sua maneira. Aprendi com ele a defender os jogadores, ao custo de fazer batalhas com a imprensa. E também tentei imitar sua filosofia de aceitar os resultados sem fazer drama”, disse certa vez Bearzot.

Após deixar a Azzurra, Valcareggi voltou ao dia a dia dos clubes. Foram três anos à frente do Hellas Verona, de 75 a 78, com posições de meio de tabela na Serie A e uma final de Coppa Italia. Na temporada 78-79, treina a Roma a partir da 7ª rodada e precede o ídolo sueco Liedholm, fazendo seu último trabalho relevante por clubes. Até 84 voltou a dirigir a equipe sub-23 italiana e em 85 fez sua última aparição à beira do campo, novamente com a Fiorentina. A partir daí passou a trabalhar como coordenador técnico na seleção italiana e na Viola. Faleceu em 2 de novembro de 2005, aos 86 anos. Embora pouco citado na grande imprensa, Valcareggi construiu uma imagem de importância no Calcio, não apenas pelo título europeu em 68 ou pela digna participação na Copa de 70, mas também por ajudar a pavimentar um caminho para futuras glórias do futebol italiano.

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