Conversando com um fantasma



Em 2015, o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa-PR, buscava retomar a relevância regional. Sem calendário para o ano todo, disputar competições nacionais era o principal objetivo de um clube que, com mais de 100 anos de história, jamais havia conquistado um título importante. Para a temporada, chegou um volante com experiência em equipes de porte médio e que já chegou vestindo a faixa de capitão: Wellington Francisco da Silva Souza, ou melhor, o Chicão.  Cinco anos depois, em um jogo de semifinal de turno do Campeonato Paranaense, contra o Toledo, Chicão entrava em campo pela centésima vez com a camisa do Fantasma, uma marca considerável em uma equipe do interior. E nesse centenário de jogos, conquistou um inédito Campeonato Paranaense (2015), um Paranaense da 2ª divisão (2018) e dois Campeonatos Brasileiros (Série D e C, em 2017 e 2018, respectivamente). Aos 33 anos, Chicão segue sendo o principal líder de um Fantasma que almeja assustar os grandes clubes brasileiros. Conversamos com o capitão do Operário sobre sua trajetória no clube, sua experiência e sobre o que ainda está por vir.

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No último mês, você atingiu a marca de 100 jogos com a camisa do Operário, no jogo contra o Toledo. Que sentimentos vêm à sua mente quando você pensa em toda essa trajetória que você construiu no Operário?

Fico feliz, porque eu não imaginava chegar num clube, um clube que é centenário, um clube que não tinha títulos estaduais. Lembro que cheguei em dezembro de 2014, e o clube necessitava de um calendário. Não imaginava chegar nessa marca de cem jogos As circunstâncias foram levando para esse lado positivo. De ter essa continuidade dentro do clube, de ser uma referência por ser o capitão. Isso me ajudou muito a chegar a essa marca. Me sinto lisonjeado e feliz por conseguir isso.

E sobre essa questão de ser o capitão? Você foi escolhido para esse posto desde que chegou, ainda na pré-temporada em 2015. O que faz um jogador ser um bom capitão dentro de campo?

O treinador que naquela época me trouxe para cá, que era o Itamar Schulle, falou comigo que eu seria o capitão por ter essa liderança ali dentro de campo, de orientar bem os companheiros, por estar brigando por cada espaço, por cada bola dentro do jogo. Isso me ajudou a crescer também. Nunca tinha sido capitão nas outras equipes que passei. Apenas um ou dois jogos, mas não por tanto tempo. Eu não gosto de perder e consegui transmitir isso aos meus companheiros, a todos que vivenciaram esses cem jogos comigo. Em treinamento, até brinco com os caras, que nem no rachão eu gosto de perder. Isso motiva os meus companheiros a seguir.

Em 2015, vocês chegaram à final do Paranaense contra o Coritiba, e acabaram ficando com a vitória (2 a 0 em Ponta Grossa, no Germano Krüger e 3 a 0 no Couto Pereira, em Curitiba). Mas antes do jogo, como que era a pressão pelo fato do Operário nunca ter sido campeão, em 100 anos de história?

Eu vejo que não tinha tanta pressão, não. O objetivo principal do clube era uma vaga na série D do Brasileiro. O clube, a diretoria, tinha essa perspectiva de ter um calendário, e isso a gente já tinha conseguido. Até por ter conquistado isso, fomos um pouco mais leve para essa final. Conhecíamos bem a equipe do Coritiba. E a gente vinha em um momento muito bom, e sabíamos que o Coritiba não gostaria de enfrentar uma equipe como a nossa. Tínhamos uma marcação muito forte, nenhum clube gosta de enfrentar um adversário da forma que a gente atuava. Mas aquela conquista de vaga pra série D, que se não me engano foi contra o Paraná, nas quartas-de-final, tirou esse peso de final. Claro que a gente queria ser campeão, tinha essa ansiedade, mas não nos fez sentir tanta pressão nos dois jogos das finais. Por isso que o resultado foi bem elástico para uma final, e por ser contra uma equipe de tradição no estado e no futebol brasileiro.

E na sequência desse título paranaense, novas conquistas foram acontecendo. Série D e Série C do Campeonato Brasileiro. Qual é a diferença principal entre essas duas divisões e qual foi o título mais difícil de ser conquistado?

A diferença é que na série D você não pode bobear em nenhum momento. A gente vinha com uma pressão muito grande de ter que conquistar uma vaga para a Série C, porque a gente não tinha conseguido subir na Divisão de Acesso do Paranaense (nota: o Operário havia sido rebaixado em 2016 no estadual, um ano após conquistar o título estadual). E a dificuldade da D é muito maior que a da C. Se você não classificar nessa primeira fase de grupos você já está sem calendário para o resto do ano. Você não tem mais o que fazer. Muitos jogadores iriam ficar desempregados, ou ter que partir para outra equipe, outra competição, outro estado. Mas conseguimos lidar com isso, buscamos muita força pra conquistar esse título que foi bem mais complicado que a terceira divisão. Na Série C você tem turno, returno, tem tempo de recuperar, de ajustar algumas coisas. As duas difíceis, a série C por ter um nível técnico melhor, mas a D era algo que não tinha margem de erro.


Você é considerado um “Rei do Acesso”. São três acessos na Série D (Juventude/2013, Brasil de Pelotas/2014 e Operário/2017) e outros três na Série C (Criciúma/2010, Chapecoense/2012 e Operário/2018). O que essas conquistas te trouxeram de experiência, de visão sobre o futebol das divisões inferiores e do calendário?

Os clubes, principalmente os de interior, que precisam muito de receita, têm o seu torcedor ali, mas é diferente dos grandes times que tem o ano todo pra jogar, tem receitas de patrocínio. O clube consegue andar com as próprias pernas. E em equipes inferiores você tem que conquistar algo para que o clube consiga permanecer em atividade. É o que aconteceu aqui no Operário e em outros times que passei também. Se o clube não conseguisse o acesso, dificilmente teria força para o próximo ano, disputar um estadual ou até um brasileiro novamente. Você tem que vencer de qualquer jeito. E tinha que concentrar muito para que isso acontecesse. A maior experiência é essa.

Na sua carreira você passou por diversos clubes de cidades pequenas ou médias, mas de importância econômica para suas regiões, e que tiveram projetos esportivos bem sucedidos: Brasil de Pelotas, Criciúma, Chapecoense, Luverdense, Operário... você viu de dentro as coisas dentro do futebol do interior dando certo. Qual é o caminho para que os resultados positivos apareçam nessas equipes?

Responsabilidade. Clubes do interior, e até clubes de Série B e Série A, acham que o jogador de futebol tem que trabalhar ali e não receber. Ou receber daqui dois, três meses. E não tratam o jogador da forma que ele tem que ser tratado. Por isso que muitos clubes hoje em dia estão falidos, ou com muitas dívidas trabalhistas por causa disso. E esses clubes em que conquistei o acesso tinham um pensamento diferente. Tinham diretores com uma visão diferente do futebol antigo. ‘Se não rendeu hoje eu não preciso pagar’. E deixava o jogador sem receber. E essas equipes tinham essa responsabilidade de tratar o jogador como tem de ser tratado. O jogador tem família, precisa receber. Saber que no final do mês o jogador tem que cuidar da família. E o atleta entra em campo para trabalhar tranquilo. Não fica aquela preocupação. ‘Será que vou receber na data certa? Será que vou ter dinheiro pra comprar aquela coisa mês que vem, pra pagar aquela conta?’. Então, os clubes estão mudando esse conceito, principalmente, por ter aqui no Operário, por exemplo, um grupo gestor. São empresários que sabem administrar bem suas empresas e que estão colocando essa experiência dentro do clube. Tá fazendo o clube crescer, trazendo mais torcedor para o clube e dando tranquilidade ao jogador.

Em breve, o Operário terá pela frente o desafio da Série B. Jogos mais difíceis, calendário com mais jogos, adversários com mais dinheiro. O que podemos esperar da participação do Fantasma?

Uma equipe que vai buscar o objetivo que é chegar à Série A. Sabemos que é difícil, que é complicado. É a primeira vez que o clube conquista o acesso. Já havia participado da série B, mas sempre como convidado quando participou há muito tempo atrás. Chegamos com uma certa moral pra disputar a segunda divisão, mas também com a responsabilidade de que permanecer na Série B pode trazer bons frutos futuramente ao clube. Se vamos subir de patamar no futebol, sabemos que as dificuldades vão ser cada vez maiores, mas queremos viver isso. Jogos grandes, jogos com grandes equipes, bastante torcida. O Operário está bem ciente do que vamos enfrentar, mas as equipes também terão bastante dificuldades quando vierem enfrentar o Operário.

Você começou a jogar futebol há pouco mais de 10 anos lá na sua cidade, em Cáceres-MT. Hoje, com 33 anos é bicampeão brasileiro, capitão e ídolo de uma equipe com uma torcida fanática. Qual o balanço que você faz da sua carreira, de Cáceres à Ponta Grossa?

Vou te falar que eu nem imaginava ser jogador de futebol, ainda mais vivendo esse momento aqui no Operário. Jogava o futebol por diversão e recebi um convite para fazer um teste. Depois desse teste a carreira deslanchou. Pensava muito em conseguir dar sequência. E aquele trabalho diário, aquela responsabilidade de sempre dar o melhor, que lá na frente as coisas poderiam melhorar ainda mais, é o que aconteceu comigo. Sempre trabalhando forte, me dedicando ao máximo para colher os frutos. Hoje cheguei a um clube em que vou fazer cinco anos. Cinco anos de conquistas, quatro títulos dentro do clube. Conquistei o primeiro título paranaense do clube, é uma marca importante. Dois brasileiros. Para mim já é uma carreira vitoriosa, mas vou buscar ainda mais.
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Fotos gentilmente cedidas pela Agência Do Rico ao Pobre e pelo fotógrafo Danilo Schleder

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