Por João Heim

Dez anos atrás, em Cascavel, interior do Paraná, um dos fatos recentes mais curiosos do futebol brasileiro aconteceu. O famoso “jogo das máscaras”, entre Coritiba e Santos, no Estádio Olímpico Regional Arnaldo Busatto, entrou para a história e viu o florescimento de duas promessas do futebol nacional.

Contexto

O Brasil e o mundo viviam um surto e um grande medo de epidemia da famosa Influenza H1N1, popularmente chamada de gripe suína. Algumas mortes e vários casos foram registrados, principalmente na região sul do Brasil, região mais fria e propensa a casos da gripe. Na cidade de Cascavel, a 140 km de Foz do Iguaçu e 500 km da capital paranaense, Curitiba, o clima era de apreensão com a doença. 

Estabelecimentos públicos com aglomeração, como igrejas e escolas, foram fechados, para evitar a transmissão da doença até que os casos diminuíssem. Na época, a cidade tinha oito casos da gripe confirmados e outros 365 sob investigação, com cinco pessoas suspeitas de falecerem por causa da doença. O exército chegou a montar um ambulatório provisório no centro de convenções da cidade para trabalhar na prevenção e cuidados da Influenza H1N1.

No meio disso tudo, o Coritiba havia sido punido por uma briga entre torcedores do clube e do rival, Athletico, e perdeu um mando de campo. Sendo assim, a equipe alviverde decidiu mandar o jogo contra o Santos, pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro, para Cascavel. Com todo esse contexto, o Ministério Público queria o cancelamento da partida ou que ela fosse jogada com portões fechados, pela segurança das pessoas. A justiça acabou permitindo a realização do jogo, mas determinou que os presentes no estádio usassem máscaras. Caso a medida não fosse cumprida, a prefeitura de Cascavel teria que pagar uma multa de 300 mil reais. A secretaria de saúde da cidade comprou 20,5 mil máscaras e assim viabilizou a realização do evento.

Expectativas do jogo 

No onze inicial do Coritiba para aquela partida, o atacante Bruno Batata relata que a memória já não ajuda para lembrar os detalhes daquele jogo acontecido há dez anos, mas que os jogadores souberam dias antes sobre os problemas com a gripe suína e viram no noticiário que os torcedores usariam as máscaras na partida. “Confesso que a gente não temia muito (a gripe), até porque quando você entra ali em campo pra jogar, você esquece um pouco desses fatores”, afirma o jogador. 

Para Antonio Abelardo, repórter de uma rádio local naquela partida, o clima também era diferente na cidade, com muito burburinho com o público tendo que usar máscaras, mas não um clima de medo por parte das pessoas. “É a primeira vez na história de você ir transmitir o futebol com a máscara, até mesmo atrapalhando um pouco o que você ia falar”, afirma. Ele relata que teve contato de rádios e veículos do país todo pedindo por informações da partida e como estava a situação na cidade, tamanha a expectativa da imprensa e do público para o evento.


O repórter diz que o fato inusitado mais próximo do jogo das máscaras que ele presenciou na carreira foi o falecimento de um colega de trabalho, atingido por um raio em Nazaré das Farinhas, na Bahia, com a descarga elétrica atingindo o fio do microfone da vítima. “Tava chovendo muito, no intermunicipal, e aí veio aquela descarga elétrica. Naquela oportunidade, se trabalhava só com fio. O microfone era ligado com fio de 100, 200 metros e um colega morreu naquela ocasião”, conta.

O Jogo

Para aquele jogo, o Coritiba não vinha na melhor situação no campeonato e tinha como destaques em campo o goleiro Edson Bastos, os meio campistas Carlinhos e Marcelinho Paraíba, Pedro Ken e Leandro Donizete, além do treinador Ney Franco. Já o Santos, tinha nomes de destaque como os laterais Léo e Pará, o meia-atacante Madson, o centroavante Kléber Pereira, o treinador Vanderlei Luxemburgo e dois jovens que seriam destaques num futuro breve: Neymar e o até então chamado Paulo Henrique Lima, o Paulo Henrique Ganso. 

A partida não teve grandes emoções e o meia Ganso fez o único gol da partida, no rebote do chute de Léo, que Edson Bastos rebateu nos pés do jovem jogador, que só completou para as redes. Bruno Batata admite que o jogo não foi de grande qualidade, que o gramado não ajudou ambas as equipes e que a derrota coxa branca, a segunda em sequência no momento, não ajudava a situação do clube. O Coritiba acabou, no final do campeonato, rebaixado para a segunda divisão, após o traumático jogo contra o Fluminense, onde os torcedores invadiram o campo e depredaram o estádio Couto Pereira. O Santos, por sua vez, terminou a rodada em décimo primeiro e o campeonato em décimo segundo lugar, sendo o começo de uma geração vencedora, que teria o auge em 2011 no título da Libertadores, justamente com Neymar e Ganso em evidência.

Quem estava no Coritiba x Santos afirma que já era possível ver que os jovens jogadores tinham algo diferente. “O Ganso já dava pra ver que era um jogador maduro, diferenciado, diferente do Neymar, que nesse jogo entrou no segundo tempo. Ainda era um menino, a gente nem tinha noção no que ele ia se tornar” conclui Bruno Batata, que viu os dois direto do campo. “O técnico, Luxemburgo, tava soltando ele (Neymar) aos poucos, molecão, já tava entrando e fazia aquele salseiro na equipe do Santos” recorda Abelardo sobre Neymar, que desde muito novo já chamava as jogadas para ele. 


A atenção com Neymar, principalmente, era tanta, que Abelardo guarda até hoje fotos daquela partida, entrevistando o jovem craque, e diz que lembrará do curioso episódio para o restante da vida. “Eu posso contar pros meus netos, pros meus bisnetos. A gente acredita que ficou pra história. Um dia, sentado na praça, jogando bingo ou jogando o truco, eu vou dizer assim, ‘pô, aquele jogo das máscaras eu tava lá e transmiti’”.



FICHA TÉCNICA
Local: Estádio Olímpico Regional, Cascavel (PR)
Data: 5 de agosto de 2009, quarta-feira
Horário: 21h50 (de Brasília)
Árbitro: Sandro Meira Ricci (DF)
Assistentes: Marrubson Melo Freitas e Enio Ferreira de Carvalho (ambos do DF)

Cartões amarelos: Dirceu, Cleiton e Pedro Ken (Coritiba); Róbson (Santos)
Cartão vermelho: Róbson (Santos)

GOL: SANTOS: Paulo Henrique Lima, aos 20 minutos do primeiro tempo

CORITIBA: Edson Bastos; Márcio Gabriel (Cleiton), Dirceu, Demerson e Carlinhos Paraíba; Pedro Ken, Jaílton, Leandro Donizete e Marcelinho Paraíba (Renatinho); Leozinho (Thiago Gentil) e Bruno Batata
Técnico: Ney Franco

SANTOS: Felipe; Pará, Fabão, Eli Sabiá e Léo; Rodrigo Mancha, Rodrigo Souto, Madson (Róbson) e Paulo Henrique Lima (Wágner Diniz); Felipe Azevedo (Neymar) e Kléber Pereira
Técnico: Vanderley Luxemburgo

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Fotos: Reprodução/Internet e Acervo pessoal/Antonio Abelardo.



Na madrugada do dia 5 de março de 1918, o silêncio da noite foi quebrado por um estampido vindo do interior do estádio Gran Parque Central, em Montevidéu. Horas depois, Severino Castillo, o zelador do campo, acordou, tomou seu chimarrão para espantar o frio, e botou suas luvas antes de partir rumo ao gramado do Parque Central acompanhado de seu fiel cão. Andava de cabeça baixa quando avistou algo estranho. Seu coração já sentia a tragédia. Ao chegar ao meio de campo, encontrou o corpo de um homem que havia ajudado a mudar a história do Nacional e daquele estádio. Abdón Porte, capitão tricolor durante sete anos, havia se matado com um tiro no coração e caído no mesmo círculo central em que anos mais tarde seria dado o primeiro pontapé da história das Copas do Mundo. Era o fim de uma história de paixão e suor eternizada em uma das tribunas de honra da acanhada casa do Decano.

Voltamos então para 1893. Este foi o ano de nascimento de Porte, no departamento de Durazno. Em 1908, aos 15 anos, desembarcou na capital uruguaia. Em 1910, começou a jogar no pequeno Colón e depois passou pelo já extinto Libertad. Chegou ao Nacional em 1911, graças à democratização pela qual o clube passou, apoiada pelo presidente José Maria Delgado, que permitia o ingresso ao clube de pessoas de todas as classes. Fez sua estreia em 12 de março contra o Club Dublin. Era um centro-médio vigoroso, bom no jogo aéreo, do tipo que a América do Sul criaria aos montes com o passar dos anos. Pela garra, recebeu o apelido de El Indio. Foi capitão por inúmeras vezes e conquistou 19 títulos pelo Nacional: 4 campeonatos uruguaios, 5 Copas de Honra, 4 Copas Competencia, 1 Copa Aldao, 2 Copas Competencia Chevallier Boutell e 3 Copas de Honra Cousenier. Esteve na delegação uruguaia no título do Sul-Americano de 1917, a primeira edição da atual Copa América. Um de seus maiores orgulhos era jamais ter perdido para o CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club), grande rival da época.

Porte tinha uma visão parecida com a de muitos de nós. Sem futebol e sem seu clube do coração, não havia porque viver. "O dia em que eu não puder mais jogar futebol, me dou um tiro", costumava dizer. Em 1917, depois de vencer a Copa Uruguaya de Propiedad, uma de suas maiores glórias, o futebol físico de Porte começou a cair de desempenho, sendo relegado aos poucos para a reserva de Alfredo Zibecchi, algo inaceitável para ele. No dia 4 de março, ajudou o Nacional a vencer o Charley por 3 a 1, e comemorou junto aos companheiros até a noite. Por volta de uma hora da madrugada, se despediu de todos dizendo que iria pegar o trem. Mudou de ideia. Afundado em depressão reforçada pela morte recente de seus dois irmãos, Bolívar e Carlos, vítimas de varíola, El Indio decidiu não mais fazer parte deste mundo. Caminhou até o círculo central, como se fosse dar a saída de jogo da vida. Com um único tiro no próprio peito, Porte, então com apenas 25 anos, entrou para a eternidade do Club Nacional, camisa que vestiu por 207 vezes. Dentro de um chapéu de palha, uma carta destinada ao presidente José Maria Delgado, responsável por sua chegada ao Bolso: "Querido Doctor José María Delgado. Le pido a usted y demás compañeros de Comisión que hagan por mí como yo hice por ustedes: hagan por mi familia y por mi querida madre. Adiós querido amigo de la vida".

Logo abaixo da assinatura, versos que representavam toda a paixão e loucura de Porte

Nacional aunque en polvo convertido
y en polvo siempre amante.
No olvidaré un instante
lo mucho que te he querido.
Adiós para siempre

O bangue-bangue uruguaio
Um pouco menos de dois anos depois da trágica despedida de Porte, uma história ainda mais extraordinária aconteceu no mesmo trecho de campo do Gran Parque Central. Em 2 de abril de 1920, o jornalista, escritor e político Washington Beltrán Barbat, trava um duelo digno de Velho Oeste contra ninguém mais ninguém menos que um ex-presidente uruguaio, o também jornalista José Batlle y Ordoñez. O antigo mandatário máximo do país desafiou Beltrán por conta de um artigo escrito no dia anterior. Orgulhoso, o jornalista aceitou o desafio. Beltrán tinha 35 anos contra incríveis 63 do presidente, que se mostrou um exímio atirador, e assassinou o desafeto com um tiro na axila. Batlle y Ordoñez morreria dez anos depois, durante uma cirurgia em razão de um tromboembolismo pulmonar.

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Texto publicado originalmente em 11 de março de 2015 no blog Escrevendo Futebol, e editado em 5 de julho de 2019.


A data de fundação do São Paulo Futebol Clube é, oficialmente, 25 de janeiro de 1930. Por muitos anos, o início da história do tricolor paulista era datado como sendo o dia 16 de dezembro de 1935. A controvérsia se dava por conta da polêmica extinção do departamento de futebol do São Paulo em 1935, que foi refundado no fim daquele mesmo ano por membros da equipe tricolor contrários à fusão ocorrida com o Clube de Regatas Tietê. Sempre houve muita discussão em torno desse assunto, mas o fato é que uma parte considerável das gestões do São Paulo e também da torcida tricolor, sempre considerou que o time conhecido como São Paulo da Floresta (nascido da união entre Paulistano e Associação Atlética das Palmeiras) é parte indissociável do São Paulo atual. Tanto que em 2015, o estatuto do clube foi alterado, retirando o destaque dado à refundação do tricolor e confirmando o ano de 1930 como o de fundação.

A não oficialidade anterior, porém, nunca impediu que o clube celebrasse a história e as conquistas do São Paulo da Floresta. Em janeiro de 2000, por exemplo, na ocasião dos 70 anos de nascimento do São Paulo, foi organizado o Torneio Constantino Cury. A competição amistosa de pré-temporada fez parte de uma série de festividades e homenagens: primeiramente, pelo nome, referente ao empresário Constantino Cury, histórico dirigente tricolor, que havia falecido em julho de 99. Além disso, janeiro marcava os 70 anos do nascimento do São Paulo e no final do ano 2000, o futebol do Clube Athletico Paulistano completaria cem anos, caso não tivesse encerrado suas atividades em 1929.

Entre o final do século XX e o início do terceiro milênio, ainda eram comuns os torneios amistosos em comemoração a algo ou alguém, ou apenas como preparação no início de uma temporada. E essas competições sempre colocaram à prova jogos inimagináveis nos tempos de hoje. No Torneio Constantino Cury participaram: São Paulo, Avaí, a Seleção Nacional do Haiti, e o Uralan Elista, da Rússia. 

Homenagem ao Paulistano 

O técnico do São Paulo na ocasião era Levir Culpi. O curitibano vinha de um biênio de destaque no Cruzeiro, mas sem grandes títulos. E logo na chegada ao Morumbi, o técnico foi obrigado a levar a equipe a campo sem sequer ter completado uma semana de trabalho. E ainda por cima, sem ter sido atendido pela diretoria são paulina em relação a reforços. ‘O começo está sendo diferente do que eu pensava, mas essas são as dificuldades de início de trabalho, e tivemos que nos adaptar”, disse à época. Para a primeira partida, contra o Avaí, o treinador lançaria como titular os jogadores Raí, ídolo tricolor, e Evair, principal reforço para a temporada. 

O jogo de estreia, no dia 15 de janeiro, também teria uma bonita homenagem ao Paulistano, um dos times que deram origem ao São Paulo. A equipe paulista jogaria o primeiro tempo da partida com um uniforme inspirado nas vestimentas dos primeiros anos de futebol, com o escudo do clube que é até hoje, tirando os quatro grandes do estado de São Paulo, o maior campeão paulista da história, com onze conquistas.

Em campo, e devidamente trajados com o uniforme retrô do Paulistano, o São Paulo abriu dois a zero na primeira etapa, com gols de Marcelinho Paraíba, chutando de fora da área com o pé esquerdo, e Raí, tocando por cobertura sobre o goleiro. Evair ainda perdeu um pênalti. No segundo tempo, o Avaí reagiu e empatou com dois gols do ainda jovem Marquinhos. Mas o zagueiro Wilson salvou o dia tricolor desempatando a partida com um forte cabeceio após tiro de canto. O São Paulo estava na decisão do Torneio Constantino Cury.

Os times jogaram com as seguintes formações:

São Paulo: Rogério Luís Paulo (Carlos Miguel), Paulão (Rogério Pinheiro), Wilson e Ricardinho; Edmílson, Vágner (Alexandre), Raí (Souza) e Marcelinho; França e Evair (Jaques). Técnico: Levir Culpi. 
Avaí: Fabiano; Flavinho, Marcelo, Sérgio Andrade e Biro; Luís Fernando, Edson Garcia (Douglas), Marquinhos e Fantik (Vinícius); Dão e Missinho (Renatinho). Técnico Evandro Guimarães.


Jogos de futebol que incrivelmente já aconteceram: Uralan Elista x Haiti 

Poucos jogos são tão aleatórios e obscuros quanto a semifinal do Torneio Constantino Cury disputada no Morumbi entre os russos do Uralan Elista, sétimo colocado do campeonato russo de 1999 e a seleção nacional do Haiti. Não há - ou ao menos não pude encontrar - registros fotográficos ou em vídeo da vitória russa por 3 a 1, ocorrida no mesmo dia que São Paulo x Avaí. Com alguns brasileiros no elenco, entre eles o ex-tricolor Cassiano, o Uralan veio passar uma curta pré-temporada no país. Antes do torneio no Morumbi, a equipe havia vencido por 2 a 0 o Independente de Limeira, clube que havia negociado os jogadores Mila e Junior com os russos. Contra o Haiti, o brasileiro Brener, emprestado pelo Vasco, abriu o placar, e Dancenko marcou outras duas vezes. O nome do autor do gol haitiano é desconhecido. Depois da competição, o Uralan ainda perderia para o Bragantino por 2 a 1. 

A final

A decisão do torneio de verão teve o script esperado. Na segunda-feira, 17, o São Paulo enfrentaria um adversário de qualidade duvidosa e levantaria o primeiro troféu da temporada. Mas antes de a bola rolar para a final, houve a disputa de terceiro lugar entre Avaí e Haiti como preliminar. Embora os registros sejam tão raros quanto os do jogo anterior, é possível afirmar que a partida foi um bom espetáculo para se assistir. Com apenas cinco minutos, Missinho abriu o placar para o time brasileiro. Menelas empatou logo em seguida, e no segundo tempo, aos 13 minutos, Pierre virou para os haitianos. Renatinho voltou a empatar aos 38 minutos, e nos acréscimos, Dão deu a vitória ao Avaí. 

Em seguida, aconteceu o duelo entre São Paulo e Uralan. Em detalhes bem notados pela reportagem de César Augusto, da Rede Globo, os uniformes do time russo eram um pouco improvisados. O goleiro não tinha número, o jogador que usava a camisa 7 passou a ser o 2 e outros remendos foram utilizados no curioso fardamento auriazul. 

Apesar de frágil, o Uralan segurou bem o São Paulo, que só marcou o primeiro gol aos 30 minutos, em um belo chute de primeira de Edmilson, após cruzamento de Marcelinho Paraíba. Sete minutos depois, França ampliou de fora da área. No segundo tempo, com apenas dois minutos, os russos diminuíram o placar, com o ucraniano Semochko chutando cruzado. A partir daí, o Uralan chegou a pressionar, exigindo boas defesas de Rogério Ceni. Muito superior tecnicamente, porém, o São Paulo não demorou a transformar o jogo equilibrado em goleada. Raí marcou o terceiro aos 9 minutos, em falha do goleiro Lutsenko. 

O quarto gol tricolor merece um breve parágrafo à parte. De falta, aos 33 minutos, Rogério Ceni marcou um bonito gol. Doze anos depois, o goleiro-artilheiro fazia o seu centésimo gol na carreira em clássico contra o Corinthians. Para a FIFA e para entidades estatísticas como a IFFHS, este não poderia ser o centésimo gol de Rogério, pois gols em amistosos não entrariam na conta. Azar dos números. 

Voltando a 2000, ainda deu tempo para Souza deixar o seu e fechar a conta em 5 a 1 para o São Paulo. De forma burocrática e nada convencional, o troféu foi entregue no camarote da presidência. Quando os jogadores voltaram ao gramado para “comemorar”, já não havia mais torcedores no estádio. E é aí que a reportagem global mais uma vez nos apresenta um episódio ímpar. O zagueiro Paulão, o popular Paulão “Desmaio”, com o troféu Constantino Cury nas mãos, diz a um companheiro: “Levar pra casa isso aqui, os caras não vão achar mais nunca”. 

São Paulo e Uralan jogaram com as seguintes formações:

São Paulo: Rogério; Luis Paulo (Alexandre), Paulão (Pinheiro), Wilson, Ricardinho, Edmilson, Vágner (Sidnei), Raí (Carlos Miguel), Marcelinho Paraíba, França, Evair (Souza 68''). Técnico: Levir Culpi.
Uralan: Lutsenko; Terechtchenko, Chichine, Jarinov, Zub (Mila), Voskanian, Mikalalunas, Gaidamascluk (Arechnikon), Cassiano (Galloian), Semotchco, Brener (Régis). Técnico: Averianov.


Desdobramentos

Depois da disputa do Torneio Constantino Cury, as equipes participantes não tiveram um bom ano. O São Paulo de Levir Culpi fez uma temporada em que a equipe chegou longe em quase todos os campeonatos que disputou, mas levantou apenas mais um troféu, o de campeão paulista. Nas demais competições, derrotas traumáticas, como na final da Copa do Brasil frente ao Cruzeiro e as eliminações para Vasco e Palmeiras, no Rio-São Paulo e no Campeonato Brasileiro. O Avaí teve um ano para esquecer, terminando em 15º no Módulo Amarelo da Copa João Havelange e sendo apenas o quinto colocado no catarinense. Em relação ao Haiti, é difícil saber se o elenco era formado por jogadores da seleção principal, mas em 2000, o país passou da fase qualificatória na Copa Ouro, e acabou eliminado na primeira fase, em um triangular com Estados Unidos e Peru. 

Já o Uralan Elista é o que teve o pior destino. A equipe fundada em 1958 havia sido promovida à elite russa em 1997, e no final de 2000 acabou sendo rebaixada. Figurinha carimbada na segunda divisão russa nos anos 90, o Uralan Elista representava uma área curiosa do país. Elista, atualmente com cerca de 100 mil habitantes (de origem étnica mongol), é a capital da Calmúquia, uma das unidades federativas da Rússia e que é a única região da Europa predominantemente budista. O atual dirigente de Calmúquia é o excêntrico Kirsan Nikolayevich Ilyumjinov, um milionário adepto do xadrez e da ufologia, e que presidiu justamente o Uralan/FC Elista. O clube voltaria à elite já na temporada seguinte, mas em 2003 voltou a cair, desta vez para nunca mais voltar. Endividado, em 2005 o Uralan foi refundado como FC Elista, mas os problemas financeiros persistiram até uma nova falência em 2006. Em 2014, houve uma nova tentativa de volta, que não durou sequer um ano, e em 2015, a equipe novamente encerrou suas atividades. 

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Sempre quando se fala na origem do futebol, é quase que obrigatório contextualizar seus esportes predecessores. Essa ancestralidade do esporte tem início na dinastia Huang-Ti, na China, há 3.000 mil anos a.C. chamado de  tsu-chu, e passa por outros similares chineses, gregos ( como o Epyskiros), pelo império Maia, pela França (Soule), pela Itália (com o tradicional Calcio Fiorentino, que deu origem ao termo Calcio, para o futebol na Itália) e pela Inglaterra, com o Football, que nasceu nas ruas, se tornando um distúrbio social, tendo que ser controlado pelas autoridades. Popular desde suas remotas origens, o esporte foi tomando forma aos poucos na segunda metade do século XIX, pelas mãos de intelectuais das inúmeras universidades locais. Porém, as regras do esporte variavam de lugar para lugar. Aos poucos, os regulamentos foram sendo unificados. As duas principais variações do jogo seguiam as Regras de Cambridge e as Regras de Sheffield.

Cambridge praticava o futebol desde meados de 1579. Mas foi em 1848 que o esporte deu um novo passo. Os estudantes Herry de Winton e John Charles Thring reuniram representantes de outras escolas para a definição de um único conjunto de regras (que além de ter influenciado o futebol, contribuiu para a constituição das regras do futebol australiano). Após oito horas de conversa, eles chegaram a um consenso. E a influência nas Regras do Jogo, criados em 1863, são claríssimas, como a inclusão de tiros de meta, laterais, e passes para frente, até então proibidos. As mãos ainda tinham permissão para serem usadas durante o jogo. Não existe nenhuma cópia do texto original, mas há na biblioteca de Shrewsbury, uma edição revisada datada de 1856. Em 1862, Thring lançou um novo conjunto de regras, mais simplificado. As primeiras partidas sob estas regras foram disputadas no Parker's Piece, uma grande área gramada próximo ao centro de Cambridge.

Além do código de Cambridge, os precursores do futebol se inspiraram também no conjunto de regras de Sheffield. A partir de 1855, membros do Sheffield Cricket Club passaram a praticar jogos de bola sem regras fixas. Dois anos depois, no dia 24 de outubro, Nathaniel Creswick e William Prest fundaram o Sheffield Football Club, reconhecidamente o clube mais antigo do mundo. Junto da instituição, foram criadas regras próprias que também deixaram seu legado ao futebol atual. Os travessões que unem as duas traves, os escanteios, as faltas e os primeiros sistemas de desempate (que incluíam prorrogações e gols de ouro) foram algumas das regras posteriormente perpetuadas. No primeiro torneio da história do esporte, a Copa Tommy Youdan, foi utilizada estas regras. A segunda competição mais antiga do mundo, a Copa Oliver Cromwell, foi decidida num gol de ouro em favor do The Wednesday, após empate sem gols diante do Garrick.

A Football Association

Ebenezer Cobb Morley pode ser considerado um dos pais do futebol "moderno". Em 1862, ele já havia fundado o Barnes FC, e no ano seguinte, foi um dos responsáveis por fundar a Football Association e unificar as regras de Cambridge e Sheffield. Morley era um advogado e liderou a reunião na Freemasons' Tavern. Numa segunda-feira à noite, em 26 de outubro de 1863, capitães, secretários e representantes de doze clubes de Londres se reuniram "com a finalidade de formar uma associação com o objetivo de estabelecer um código definido de regras para a regulação do jogo". Os clubes representados foram: Barnes, War Office (atual Civil Service FC, e único clube-fundador ainda existente), Crusaders, Forest (Leytonstone), No Names (Kilburn), Crystal Palace (sem nenhuma relação com a atual equipe), Blackheath (posteriormente dissidente, e que contribuiu com a criação do Rugby), Kensington School, Perceval House (Blackheath), Surbiton, Blackheath Proprietory School and Charterhouse. Durante os meses seguintes, foram feitas outras reuniões que formataram a fundação da Football Association, entidade que regula o futebol na Inglaterra, e o conjunto de regras a ser usado. O primeiro presidente da FA foi Arthur Pembe e Ebenezer Morley assumiu como secretário. Anos depois, em 1878, se deu a unificação definitiva das regras, e posteriormente, foi criada a International Football Association Board, que passou a ser a entidade que rege as regras do futebol até hoje.

O primeiro clube

Antes mesmo da definição das regras, como dissemos, nasceu o primeiro clube para a prática do futebol: o Sheffield Football Club, fundado em 24 de outubro de 1857 por Nathaniel Creswick e William Prest. Há certa controvérsia nisso, afinal, junto da criação das regras de Cambridge, foi fundado o Cambridge University Association Football Club, mas é o Sheffield que é reconhecidamente o clube mais antigo de todos. É ao lado do todo poderoso Real Madrid o único clube a receber a Ordem de Mérito da FIFA.

A sala de troféus do Sheffield é modesta. Mas o que não falta ao pequeno clube é história. O Sheffield também é o time que possui a rivalidade mais antiga da história, com o Hallam Football Club. A primeira partida entre os dois aconteceu em 1860, no Sandygate Road, e o Sheffield conquistou a vitória por 2 a 0.  Em compensação, o Hallam deu o troco vencendo a primeira competição.

O primeiro torneio


A competição mais antiga de todas foi a Youdan Cup. Disputada por 12 clubes, foi patrocinada pelo dono de teatro Thomas Youdan, que também cedeu o troféu. Foram três fases de mata-mata e posteriormente um triangular final. O vencedor foi o Hallam FC, que venceu o Norfolk no jogo final por 2 a 1, no Bramall Lane, estádio do rival Sheffield.

A primeira FA Cup

A Copa da Inglaterra foi criada por Charles W. Alcock, que por ter criado a FA Cup, é considerado o pai do mata-mata. A primeira edição da competição foi na temporada 1871-72 e foi vencida pelo Wanderers FC, que bateu o Royal Engineers por 1 a 0, tento marcado por Morton Betts. O duelo aconteceu no Kennington Oval. Diferente da grandiosidade atual, onde uma infinidade de clubes disputa o charmoso torneio, houve apenas 15 clubes participantes. De lá para cá, a FA Cup jamais foi interrompida, e é uma das taças mais cobiçadas da Inglaterra.

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Texto originalmente postado em 1º de março de 2015 no blog Escrevendo Futebol e editado em 8 de junho de 2019.


Kenneth George Aston nasceu no dia 1º de setembro de 1915, em Colchester. Começou a atuar como árbitro em 1935, ministrando aulas de futebol a garotos, e após a Segunda Guerra Mundial, se tornou um juiz profissional. Esteve à frente de seu tempo, e não apenas fazia seu trabalho em campo, como também pensava sua profissão. Foi graças a ele que se padronizou o uniforme na cor preta com as golas e mangas brancas, utilizado por longos anos pelos donos do apito. 

Em 47, durante uma partida em Londres, Aston não conseguia ver direito as sinalizações de seus árbitros auxiliares, por conta da forte neblina. Foi então, que teve a simples ideia de fazer uma bandeira com cores vivas e facilmente identificáveis, como o vermelho e amarelo. A partir daí, a bandeirinha colorida logo se popularizou.

Suas atuações e ideias chamavam a atenção, e naturalmente, se tornou um dos principais juízes de futebol da Inglaterra. Foi o árbitro do segundo jogo da final da primeira Copa Intercontinental, entre Real Madrid e Peñarol, em 1960. Em 62, na Copa do Mundo do Chile, teve uma grande prova de fogo. Os donos da casa enfrentariam a Itália, e o clima pré-jogo era péssimo, com acusações de jornalistas de ambas as partes. Com a bola rolando, as cenas lamentáveis tomaram conta, e Aston precisou expulsar dois italianos: Giorgio Ferrini e Mario David. Porém, deixou impune o chileno Leonel Sánchez que quebrou o nariz do ítalo-argentino Humberto Maschio, com uma forte cotovelada. Posteriormente, Sánchez foi punido com base nas imagens de vídeo, a primeira punição da história utilizando uma filmagem do jogo. Estranhamente, apesar da decisão, o jogador seguiu jogando normalmente a competição.

Como se sabe, as advertências e punições eram dadas verbalmente pelos árbitros. E volta e meia aconteciam problemas, principalmente se jogador e juiz não falassem a mesma língua. Como na Copa de 66, no jogo entre Inglaterra e Argentina. O argentino Rattín foi expulso pelo alemão Kreitlin, que fazia uma arbitragem, digamos, tendenciosa aos ingleses. Sem uma comunicação adequada entre os dois, Rattín levou cerca de 10 minutos para deixar o campo. Aston já trabalhava para a FIFA a convite de Stanley Rous, e ao parar em um semáforo na Kensington High Street, teve um insight: "A luz ficou vermelha e eu pensei: 'amarelo, pegue leve; vermelho, pare! Você tá fora!'"

Mas a invenção que mudou o futebol foi usada pela primeira vez apenas na Copa de 1970, no México, no jogo entre os anfitriões e a União Soviética. O alemão Kurt Tschenscher aplicou o amarelo ao soviético Lovchev, aos 31 minutos de jogo, após entrada dura em Valdívia. O vermelho também foi instituído a partir de 70, mas em Copas, só foi mostrado quatro anos depois, para o chileno Carlos Caszely, pelo árbitro turco Dogan Babacan, no primeiro jogo daquele Mundial, contra a dona da casa, a Alemanha Ocidental.

A partir daí, o trabalho de Aston nos bastidores passou a ser ainda mais presente, contribuindo com a FIFA e ministrando diversos cursos pelo mundo. "O jogo deve ser uma peça de teatro em dois atos, com 22 jogadores no palco e o árbitro como diretor. Não há roteiro, enredo, ninguém sabe o final, mas a ideia é proporcionar diversão". Em 23 de outubro de 2001, o árbitro soou o apito final. Mas Aston é homenageado, mesmo que inconscientemente, a cada cartão aplicado. Seja ele aplicado corretamente ou não.



O local era o estádio El Morro, em Talcahuano, um dos lugares pioneiros na prática do futebol no Chile e "primeiro porto militar industrial e pesqueiro" do país, como diz o lema da cidade. Era um dia de janeiro de 1914, e a bola veio alta para o meio de campo. Viajou até a uma altura pouco acima das cabeças dos jogadores, e foi chutada de maneira extraordinariamente inédita. Um daqueles homens saltou de costas para o chão, colocando uma das pernas a um ângulo de aproximadamente 90 graus e arrematou a bola acrobaticamente por cima de sua própria cabeça. Era o início da história de um dos lances mais belos e emblemáticos do futebol. O chute de bicicleta.

O autor dessa obra foi Ramón Unzaga Asla, um basco nascido em Bilbao em 1894. Em 1906, aos 12 anos, foi levado por seus pais ao Chile, se estabelecendo em Talcahuano. Lá, se formou em contabilidade e passou a trabalhar em uma mineradora. Em 1912, aos 18 anos, adotou a nacionalidade chilena e começou a jogar futebol em pequenos clubes amadores da cidade. Também praticava outro esportes, como natação, pólo aquático e atletismo, onde era um exímio saltador. Ganhou diversas competições em todos eles, mas foi jogando futebol que entrou para a história ao criar a chilena, que se tornou conhecida no Brasil como "bicicleta". Inicialmente, o lance foi apelidado de chorera, em homenagem à equipe local, apelidada de Escuela Chorera, pelos inúmeros talentos que formava. Posteriormente, no Sul-Americano de 1920 em Viña del Mar, no Chile, o lance recebeu o apelido de chilena da imprensa argentina, e foi ainda mais popularizado por David Arellano, histórico jogador do Colo-Colo. 

Unzaga estreou na seleção nacional em 2 de julho, na primeira partida do Sul-Americano de 1916, saindo com uma derrota por 4 a 0 frente ao Uruguai. Chamou a atenção de vários clubes argentinos e uruguaios, mas sempre negou qualquer investida, tendo atuado apenas no Club Atletico Estrella del Mar (clube que é chamado hoje de Club Deportivo Nueva Estrella del Mar). Marcou um único gol pela La Roja, em um amistoso contra a Federação Platense. Mas errado está quem imagina que Unzaga praticava a jogada com o intuito de marcar gols, como passou a ser a principal função da bicicleta. Unzaga era centro-médio,(atuando na linha de três do 2-3-5, ou sistema clássico) e utilizava desse artifício para rechaçar a bola o mais distante possível - lance similar no Brasil era chamado de Belfort, por conta de Belfort Duarte. 

"Seus interesses eram trabalhar, estudar e jogar. Era um basco com todos os defeitos de um basco, como o gênio ruim, que lhe deram vários problemas dentro e fora dos campos", disse seu neto, Ramón Unzaga Muñoz, em uma entrevista ao jornal chileno La Tercera. Certa vez, após ser advertido pelo árbitro por praticar a chilena, tentou argumentar que a jogada era legal. Acabou expulso de campo, e não saiu sem antes trocar alguns socos com o juiz. Em outro lance de expulsão, Unzaga voltou ao gramado com uma pistola dando tiros pra cima e encerrando a partida. Muñoz, que atua como professor universitário, foi obrigado a seguir carreira universitária por seu pai, Ramón Unzaga Zapata, que jogou como goleiro profissional. 

Por incrível que pareça, Ramón Unzaga Asla faleceu muito novo, com apenas 29 anos no dia 31 de agosto de 1923, vítima de um ataque cardíaco. Em Talcahuano, o estádio El Morro recebeu o nome de Ramón Unzaga Asla, e hoje há um monumento em homenagem ao criador e à criatura, inaugurado em 2014, por ocasião do centenário da jogada que encanta a todos por sua plasticidade.

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Texto postado originalmente em 29 de novembro de 2015 e editado em 12 de maio de 2019.


No dia 8 de dezembro de 1987, uma tragédia da aviação abalou o futebol peruano. O Fokker F-27 da Marinha de Guerra do Peru caiu no mar de Ventanilla, próximo ao aeroporto Jorge Chávez, em Lima, vitimando 43 pessoas, entre elas a equipe do Alianza Lima, que contava com 17 jogadores e Marcos Calderón, técnico do Peru na Copa de 78 e campeão da Copa América de 75. Na tarde anterior, o Alianza havia enfrentado o Deportivo Pucallpa pela 18ª rodada do campeonato peruano, e venceu por 1 a 0 com um belo gol de Carlos Bustamante.

Os mistérios em torno das causas do acidente deixaram um rastro de histórias e lendas. A hipótese mais provável é a de falha humana, e que foi revelada apenas em 2006. De acordo com um relatório de 1988, da Junta de Investigação de Acidentes de Aviação Naval, ao iniciar os procedimentos de pouso, às 08h02, o painel de comando da aeronave indicava que o trem de pouso não havia sido acionado corretamente. O piloto Edilberto Villar realizou por duas vezes uma manobra arriscada, balançando o avião bruscamente para cima e para baixo, tentando forçar o trem de pouso. Já próximo da torre de controle, Villar pediu a verificação visual, e foi informado que os três trens de pouso da aeronave estavam em perfeitas condições para a aterrissagem. Inexperiente, Villar, nem seu co-piloto Fernando Morales, percebem que o avião estava perdendo altitude. A asa direita se choca no mar, e o impacto na água despedaça o avião em quatro partes. 

Mas por incrível que pareça, um homem saiu ileso do acidente: justamente o piloto Edilberto Villar. Entretanto, o paradeiro dele é desconhecido. Villar nunca falou com a imprensa. A mídia peruana especula que ele tenha abandonado o país com outra identidade - e espanta pensar que nenhum jornalista tenha tido êxito ao tentar procurá-lo. Naturalmente, esse sumiço gerou ainda mais razões para a criação de teorias. A principal delas é a de que o avião trazia um carregamento de cocaína e teria sido derrubado pela Marinha. Parentes de alguns jogadores e alguns jornalistas esportivos sustentam essa hipótese, e de que muitas das vítimas teriam sido baleadas durante a ação de derrubada da aeronave.

Outra história, não menos extraordinária, dá conta de que Villar teria ficado em Puccalpa, e o co-piloto Morales comandou o voo. Após a queda, para evitar o escândalo, a Marinha orquestrou um teatro e colocou Villar no mar. Para muitos, a única explicação possível para alguém sair vivo de um acidente desses.

Além dos mitos que envolvem a queda, há ainda aqueles que creem que Villar não foi o único sobrevivente. Segundo o testemunho do piloto, o jogador Alfredo Tomasini sobreviveu à queda, mas com a perna fraturada, não resistiu à força do mar e acabou sumindo. Seu corpo, assim como os de Escobar, Mendoza, León e Bustamante, jamais foram encontrados. Com o passar dos anos, diversos relatos indicavam a aparição de Tomasini, tanto no Peru, quanto em outros países. 

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Abaixo, uma lista com 29 das 43 vítimas fatais do acidente com o Fokker F-27 (o nome das outras pessoas não foi encontrado na pesquisa):

Jogadores:
José Manuel “Caico” Gonzalez Ganoza (tio do jogador Paolo Guerrero, que na época, tinha 3 anos)
César Sussoni
Tomás Lorenzo “Pechito” Farfán
Daniel Reyes
Johnny Watson
Braulio Tejada
José Mendoza
Gino Peña
César Chamochumbi
Carlos Bustamante
Milton Cavero
Luis Antonio Escobar
Ignacio Garretón
José Casanova
Alfredo Tomassini
William León
Aldo Sussoni

Integrantes da comissão técnica e direção:
Marcos Calderón Medrano
Andrés Eche Chunga
Washington Gómez
Rolando Gálvez
Orestes Suárez
Rodolfo Lazo Alfaro
Santiago Miranda Mayorga

Tripulantes:
Fernando Morales (co-piloto)

Torcedores:
Óscar Colmenares Urteaga

Árbitros:
Manuel Alarcón
Samuel Alarcón
Miguel Piña

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O acidente ceifou a vida daqueles jogadores, mas não impediu que o Alianza Lima pudesse tentar acabar com um jejum que durava desde 78, e que só foi quebrado 10 anos depois, em 1997. Naquele momento, os "Potrillos" eram os líderes da competição, e conquistaram posteriormente o Torneo Descentralizado, com o reforço do ídolo Teofilo Cubillas (que jogou de graça) e com o reforço de quatro jogadores do Colo-Colo, que se solidarizou e cedeu os atletas. Mas na grande final acabaram derrotados por 1 a 0, diante do campeão do Torneo Regional, o Universitario.

A tragédia serviu de inspiração para Augusto Polo Campos, um dos mais importantes compositores do Peru, que escreveu a música "De la victoria a la gloria" em homenagem às vítima daquele voo.

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Reportagem publicada originalmente no blog Escrevendo Futebol em 10 de dezembro de 2015 e editada em 12 de maio de 2019. 



Certa vez, em um jogo de competição europeia, o capitão do Napoli, Claudio Vinzazzani, estendeu a mão para o árbitro espanhol. O homem vestido de preto negou o cumprimento. 

- Vocês, italianos, são como os espanhóis: uns filhos da puta!
- Ora, mas você é espanhol!
- Eu não! Eu sou basco! 

O basco em questão era o árbitro Emilio Carlos Guruceta Moro, um dos nomes mais conhecidos da arbitragem espanhola. Por sua qualidade, mas principalmente por uma das maiores polêmicas de arbitragem do futebol espanhol.

Nascido em 4 de novembro de 1941, em San Sebastián, estreou na primeira divisão espanhola em 21 de setembro de 1969, aos 28 anos, no jogo Zaragoza 2x1 Pontevedra, sendo o mais novo árbitro da história do campeonato espanhol até então, marca batida apenas em 2012. Logo percebeu que tinha potencial midiático, e tentava fazer o que muitos fazem até hoje: aparecer mais que os jogadores. Dificilmente os juízes são lembrados por coisas boas. Invariavelmente, é um erro que marca eternamente suas vidas. Com Guruceta não seria diferente.

Na mesma temporada de estreia, foi selecionado para apitar o El Clasico, válido pela volta das quartas-de-final da Copa Generalísimo (o nome dado a atual Copa do Rei). O Real Madrid havia vencido a ida por confortáveis 2 a 0. O Barcelona vencia o segundo jogo por 1 a 0, gol de Rexach. Na época, saldo de gols não era critério de desempate em duelos de ida e volta, o que forçaria a disputa de uma terceira partida. Aos 14 minutos do segundo tempo, Velásquez avança em direção ao gol blaugrana e é prontamente derrubado por Rifé, a cerca de um metro de distância da grande área. Mas o juiz marcou penalidade máxima. Ou melhor, inventou. Após 8 minutos de paralisação e da expulsão do capitão do Barça, Eladio, o jogo prosseguiu e Amancio igualou o placar. A torcida, furiosa, arremessava o que tinha ao alcance das mãos e próximo aos 40 minutos, invadiu o gramado, forçando o árbitro a terminar o jogo e sair do Camp Nou escoltado

Pelo erro, Guruceta foi suspenso por 6 meses e ficou sem apitar jogos do Barcelona por 15 anos. Voltou ao quadro de arbitragens local e logo se tornou internacional. Dirigiu partidas dos Jogos Olímpicos de Montreal 76 e Moscou 80. Em 79, protagonizou outro caso curioso. Na Universíada, no jogo entre Paraguai e Coreia do Sul, expulsou todos os jogadores paraguaios. Anos depois, já estabelecido como um dos principais árbitros do país, tinha como única preocupação dirigir os jogos do restante da temporada 86/87, em que iria se aposentar do apito ao seu final. Já preparava o terreno para sua vida pós-arbitragem, já que havia aberto anos antes uma fábrica de calçados esportivos com seu nome.  

No dia 25 de fevereiro de 1987, dirigia sua BMW em direção a Pamplona junto de seus árbitros auxiliares, onde apitaria o jogo entre Osasuña e Real Madrid, pela Copa do Rei. A chuva forte fez com que o carro aquaplanasse na pista e se chocasse em um caminhão que estava parado no acostamento. Era o fim da carreira e da vida de Guruceta. Deixou esposa e dois filhos pequenos, um garoto de 5 anos e uma menina de apenas 1 ano. O auxiliar Eduardo Vital Torres também não resistiu. Apenas o outro auxiliar, Antonio Coyes Antón sobreviveu.

Em meio aos jogos da Copa do Rei, o centro das atenções, como acontecia muitas vezes em que apitava, voltou a Guruceta, dessa vez por sua morte. A imprensa espanhola repercutiu o acidente do árbitro com reportagens de várias páginas, e em uma época com menos tato humano no jornalismo, as páginas estampavam a cruel imagem do homem ensanguentado

Em sua homenagem, o jornal madrilenho Marca instituiu o Troféu Guruceta, dado ao melhor árbitro do campeonato espanhol. A partir de 94, também passou a premiar o melhor árbitro da segunda divisão. Mas mesmo após sua morte, a polêmica não lhe deixou. Em 97, um dirigente belga do Anderlecht confessou ter pago dinheiro a Guruceta antes de uma semifinal de Copa da Uefa, contra o inglês Nottinhgam Forest. O time belga passou à final, a qual perderia para o também inglês Tottenham. O Anderlecht foi suspenso por um ano de competições continentais. 

Apesar das polêmicas e acusações de torcedores de todas as cores, apitou 186 partidas do campeonato espanhol, sendo um dos mais respeitados árbitros da história do futebol da Península Ibérica.

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Publicado originalmente no blog Escrevendo Futebol em 16 de novembro de 2015 e editado no dia 12 de maio de 2019.