Paul Katchborian foi um árbitro e bandeirinha nas décadas de 50 e 60, que apitou jogos dos campeonatos paulista, carioca, dentre outros torneios. Nascido em 6 de fevereiro de 1928, faleceu no ano de 2015. Mais um entre tantos personagens do universo do futebol que vivem no eterno anonimato de um país de pouca memória. Santista, se orgulhava de dizer que já tinha apitado jogos de um tal de Pelé. Paul passou sua paixão pelo alvinegro praiano aos filhos e netos. Mas acredite: apesar de sempre ter sido santista e de ter apitado vários jogos na Vila Belmiro, jamais havia entrado no Estádio Urbano Caldeira como torcedor. Um de seus filhos, e seu neto Pedro, o levaram então ao jogo Santos x Atlético Paranaense pela Libertadores de 2005. Paul estreava nas arquibancadas aos 77 anos. É bem verdade que o Santos saiu derrotado por 2 a 0, com dois gols de Aloísio Chulapa, mas para Paul o resultado pouco importou.

"A estreia do meu avô na Vila foi a minha estreia na Vila. Então eu lembro muito bem, apesar de ter, na época, só 13 anos. O que me surpreendeu foi a reação do meu avô: ele viveu tanto o esporte que encarava aquilo de uma maneira muito tranquila. A gente perdeu, mas ele só sabia falar que o jogo tinha sido bom", conta o hoje jornalista Pedro Katchborian.

Apesar da experiência no futebol profissional, o maior feito aconteceu em uma peladinha. Na praia de Mongaguá, os amigos de Artur, filho de Paul, pediram para o ex-árbitro apitar o jogo. Ele aceitou, mas com uma ressalva: não ia roubar a favor do time do filho. Em certo momento da partida, Artur foi reclamar com Paul por conta do posicionamento da barreira adversária no momento de uma falta.

- Ah, pai...
- Aqui não sou teu pai, disse Paul, mostrando o cartão vermelho e mandando pra rua o próprio filho, sem titubear.

Como o sobrenome sugere, Paul é filho de armênios, que se refugiaram na França, onde o ex-árbitro nasceu. Aos 4 anos desembarcou no Brasil. Depois da arbitragem trabalhou nos Correios, e nos últimos anos convivia com as dificuldades da idade, especialmente com a pouca audição. O que não atrapalhava que Paul pudesse acompanhar o Santos. Em 2007, após o título paulista, Paul enviou uma foto para o neto. Sem ter uma camisa do alvinegro praiano, improvisou, segurando sua carteirinha de sócio em uma mão, e na outra um mousepad com o escudo santista. Uma brincadeira simples, mas que se transformou em uma valiosa recordação.



"O mousepad continua na casa do meu avô, lá em Mongaguá. O meu avô não tinha camisa do Santos - e meu pai nunca quis dar por que achava que não ia caber nele. Então, na hora de comemorar ele acabou improvisando. Mas a gente lembra com carinho e, com certeza a minha vó, ainda viva, deve guardar também a carteirinha de sócio dele", finaliza Pedro.



Desconhecido do grande público, Samuel Hemans Arday, ou apenas Sam Arday, foi um dos mais influentes treinadores da história do futebol africano, conquistando grandes feitos com a seleção de Gana em todas as categorias. Nascido em 2 de novembro de 1945, o treinador levou o país (e o continente) a uma inédita medalha olímpica no futebol (bronze, em Barcelona, 1992) e o Mundial sub-17 de 1995.

Sam Arday era adepto do multissistema, que consistia na troca de sistema de jogo durante o decorrer da partida. Ou seja, alternava o 4-4-2, o 4-3-3 e até o 3-5-2 dentro dos 90 minutos. Os resultados que Arday obteve realçaram o fato de que ele foi um dos primeiros treinadores locais a utilizar métodos científicos de treinamento. Ele começou sua carreira como treinador em 1991, na seleção sub-20 de Gana, ficando com a terceira colocação do Campeonato Africano Juvenil. No ano seguinte, assumiu a seleção olímpica e se classificou para as Olimpíadas de Barcelona. Na Espanha, Gana ficou no grupo D, com Austrália, Dinamarca e México. Após vencer os australianos na estreia, Gana garantiu a liderança do grupo com dois empates nas partidas restantes. Nas quartas de final, vitória por 4 a 2 sobre o Paraguai com três gols de Kwame Ayew, um dos irmãos do mítico Abedi Pelé. Porém, nas semifinais, pouco pôde fazer diante dos anfitriões, e a Espanha passou à final ao vencer por 2 a 0. Na decisão de 3º lugar, Gana voltou a enfrentar a Austrália. Dessa vez, o jogo foi mais duro do que na primeira fase (Gana havia vencido por 3 a 1), mas Asare, logo aos 19 minutos, marcou o único gol da partida que deu ao continente africano a inédita medalha olímpica (que se tornaria dourada quatro anos depois com os nigerianos).

Após a campanha, Sam deu sequência ao trabalho olímpico e assumiu o comando da seleção sub-17 de Gana após o vice-campeonato mundial, em 93. Em 1995, a CAF, Confederação Africana de Futebol, organizou o primeiro Campeonato Africano da categoria, e Gana faturou o título e a classificação para o Mundial sub-17, que seria disputado naquele mesmo ano no Equador. Gana ficou no grupo A com os donos da casa, os Estados Unidos e o Japão, e fechou a primeira fase com 100% de aproveitamento. Nas quartas-de-final eliminou Portugal por 2 a 0. Depois venceu a surpreendente seleção de Omã por 3 a 1 nas semifinais, e na finalíssima derrotou o Brasil por 3 a 2, conquistando o segundo mundial da história de Gana. Aquela Seleção Brasileira tinha nomes como os do goleiro Julio César, o zagueiro Juan (ambos ex-Flamengo e seleção principal), o volante Renato (ex-Santos e Sevilla) e Edu (ex-Betis).

Em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta, Sam Arday voltou a reencontrar o Brasil, nas quartas-de-final do torneio olímpico. Depois de sair atrás do placar, Gana virou o jogo pra cima dos brasileiros já no início do segundo tempo. Mas o ainda jovem Ronaldo marcou duas vezes e Bebeto completou a vitória brasileira por 4 a 2, acabando com o sonho de mais uma medalha olímpica.

Após as Olimpíadas de Atlanta, Sam assumiu a seleção principal de Gana, mas não durou no cargo mais do que um ano. Entretanto, seu trabalho de base consolidou o país como uma potência local. Vários atletas que fizeram parte da seleção classificada para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, passaram pelas mão de Arday. Em 1999, se tornou diretor técnico de uma academia de futebol em Accra, fundada pelo Feyenoord, da Holanda. Em 2004, teve outra curta passagem pelo comando técnico da seleção principal e no mesmo ano passou sem sucesso pelo Ashanti Gold, encerrando sua carreira como treinador (ele também treinou as equipes Asante Kotoko e Hearts of Oak). Após a Copa de 2006 seguiu fazendo parte da federação como consultor técnico e mais recentemente era diretor técnico de uma academia de futebol. No dia 12 de fevereiro de 2017, aos 71 anos, Sam Arday finalizou sua jornada neste mundo, deixando um importante legado para o futebol do continente africano.



No dia 26 de setembro de 2017, a CONMEBOL, em raro gesto, aproveitou o lançamento de uma Escola de Técnicos e Treinadores de Futebol da entidade para homenagear Luis Fernando Montoya, lhe entregando uma réplica da Taça Libertadores da América, conquistada pelo colombiano como técnico do Once Caldas, o campeão mais surpreendente de toda a história da competição. Montoya teve sua carreira como treinador interrompida por dois tiros que o deixaram tetraplégico, em dezembro de 2004, dias depois de ter disputado o Mundial Interclubes. Apesar de estar há treze anos longe dos gramados, Montoya segue sendo uma das figuras esportivas mais queridas da Colômbia.


Luis Fernando Montoya nasceu em 23 de julho de 1961 em Caldas, cidade do departamento de Antióquia, na região metropolitana de Medellín. Curiosamente, a cidade natal de Montoya nada tem a ver com o Once Caldas, de Manizales (do departamento de Caldas). Apaixonado por futebol desde cedo, Montoya decidiu, ao terminar o ensino médio, iniciar a faculdade de Educação Física, mesmo contra a vontade do pai, que detestava o esporte. A relação de pai e filho estremeceu. Sem o apoio financeiro da família, Montoya passou a trabalhar em um depósito de uma loja de material de construções para custear os estudos em Medellín, descarregando as centenas de sacos de cimento que chegavam. Depois tornou-se empacotador, mas sempre com a ideia fixa de se tornar um treinador de futebol. De início, no fim da década de 80, dirigiu seleções antioquenses e posteriormente entrou nas categorias de base do Atlético Nacional, maior equipe do país. Depois do sucesso nas categorias inferiores, Montoya foi efetivado técnico da equipe principal em 2001.

Os Verdolaga não fizeram uma boa temporada, terminando em 9º no campeonato nacional, fora da zona de classificação para a fase final. No ano seguinte, pelo Apertura, Montoya recuperou o Nacional e o levou ao vice-campeonato, sendo derrotado na final pelo América de Cali. No segundo semestre de 2002, a equipe não conseguiu manter o desempenho e foi apenas oitavo colocado. Após esta competição, Montoya foi contratado pelo Once Caldas, clube de Manizales. A equipe possui duas datas de fundação, e apesar de tradicional, seu único título nacional datava de 1950, ainda sob o nome de Deportes Caldas, antes da refundação em 1961. Mas sob a batuta de Montoya, tudo mudou para os blancos. No Apertura de 2003, o Once Caldas liderou todas as fases, perdeu apenas três partidas durante a campanha e faturou o título em uma dura final contra o Junior Barranquilla. Vitória por 1 a 0, gol do experiente Sérgio Galván, jogador que se tornaria o maior artilheiro da história do clube e também do futebol colombiano. Ali, Montoya já construiu uma base para a equipe que se tornaria a maior zebra da América do Sul, comandada dentro de campo pelo goleiro Henao, por John Viáfara, zagueiro que passou a jogar de volante com Montoya e o artilheiro Valentierra. O mais interessante é que o Once Caldas marcou 41 gols em 26 jogos, mostrando um ímpeto ofensivo que seria relegado a um segundo plano no torneio continental.

Com o título e a classificação para a Libertadores do ano seguinte, o Finalización 2003 foi muito abaixo, com a equipe terminando na 14ª posição, apenas um ponto acima do rebaixado Centauros Villavicencio. Já em 2004, o Once Caldas entrou na competição sob alguma desconfiança. Os blancos ficaram no grupo 2, junto a Maracaibo-VEN, Fénix-URU e Vélez Sarsfield-ARG. Qualquer dúvida sobre a equipe, porém, sumiu logo na primeira fase. Vencendo todas as suas partidas em casa e sendo derrotado apenas uma vez, na Argentina, contra o Vélez, o Once Caldas passou de fase na primeira colocação, já deixando claro que o caldeirão de Palogrande seria um dos trunfos da equipe colombiana.

Nas oitavas-de-final, o Once Caldas enfrentou o Barcelona. Depois de um 0 a 0 em Guayaquil, a decisão em Manizales também se encaminhava para um empate sem gols, quando aos 31 minutos, Gavica marcou um bonito gol colocando os visitantes na frente. Vale lembrar que naquela edição, a regra do gol qualificado não foi utilizada. Aos 38 minutos, Agudelo, de letra, empatou o jogo e levou para os pênaltis a definição do classificado. Enquanto o Once Caldas converteu as quatro cobranças, Ayoví parou na trave e Chatruc parou em Henao, que apesar de baixinho e presepeiro (o estereótipo perfeito do goleiro sul-americano), brilhou como nunca naquela edição do torneio continental.

Nas quartas-de-final, a campanha do time colombiano começou a ganhar contornos épicos. O adversário da vez era o Santos, de Vanderlei Luxemburgo. Na ida, na Vila Belmiro, o roteiro se desenhou parecido com o jogo da volta das oitavas. Basílio abriu o placar para o adversário colombiano aos 38 do segundo tempo. Mas aos 43, Valentierra aproveitou falha defensiva para empatar a partida. Na volta, novamente a força de Palogrande fez diferença. O Santos até que tentou exercer pressão, mas foi o Once Caldas quem chegou ao gol. Aos 25 do segundo tempo, Valentierra marcou um golaço de falta. No fim do jogo, a retranca colombiana foi o suficiente para segurar o resultado.

O Once Caldas chegou nas semifinais sendo tratado como zebra, e diante do São Paulo, nas semifinais, a alcunha ganhou ainda mais força. Na ida, no Morumbi, o time de Montoya realizou uma retranca poderosa - podendo ser comparada ao park the bus, do português José Mourinho. O 0 a 0 permitiu ao Once Caldas, mais uma vez, decidir em casa com a vantagem de uma vitória simples. Alcázar abriu o placar ainda na primeira etapa, Danilo empatou para o Tricolor paulista. E quando o técnico Cuca já preparava a escolha dos batedores de penalidades, Agudelo, um pouco à frente da linha de impedimento, marcou o gol da vitória na casa dos 45 minutos. O Once Caldas estava na final e iria enfrentar ninguém menos do que o atual campeão da América, o Boca Juniors, que havia acabado de eliminar o River Plate. "Havíamos sido campeões nacionais em 2003, mas não esperávamos uma campanha tão estupenda. Apesar de termos vencido campeões como o Vélez (na 1ª fase) e o Santos (nas quartas), só fomos nos dar conta de que podíamos vencer a qualquer um quando eliminamos o São Paulo nas semifinais. Por isso enfrentamos o Boca sem complexos", disse Montoya em entrevista à FIFA, em 2014.

Na final, mais uma vez o Once Caldas decidiria em casa. Na ida, na Bombonera, empate em 0 a 0. Em Manizales, logo aos 7 minutos, John Viáfara abriu o placar com um golaço de fora da área, mas Burdisso empatou na segunda etapa. Nas penalidades, o time colombiano perdeu duas das quatro cobranças, mas não era dia do Boca Juniors, que não acertou nenhuma cobrança. Aos 42 anos, e com apenas três anos de carreira, Luis Fernando Montoya conquistava a América. Era a maior surpresa da história da Libertadores.


O título continental deu o direito ao clube colombiano de disputar a Copa Intercontinental, o último Mundial de Clubes sem a chancela da FIFA. Coincidentemente, o Once Caldas enfrentaria um time que também teve uma campanha surpreendente na Liga dos Campeões: o gigante português Porto. No final do ano, em 12 de dezembro, Montoya armou o time da mesma maneira que vinha jogando na Libertadores. Assim, a posse de bola ficou mais com o Porto, e o Once Caldas tentava surpreender em ataques rápidos. Mais uma vez naquele ano, placar fechado e decisão por pênaltis. Foram 18 cobranças. Maniche perdeu a quarta penalidade do time português e Fabbro teve a chance de colocar o Once Caldas no topo do mundo, mas mandou a bola na trave. Na sequência das alternadas, Edwin García desperdiçou sua cobrança e Pedro Emanuel fechou a série em favor do Porto. A derrota que Montoya teve naqueles mais de 120 minutos, porém, não seria tão dura quanto o que aconteceria dez dias depois.

No dia 22 de dezembro de 2004, durante um assalto a sua residência, Montoya, no impulso de defender sua esposa, Adriana, foi alvejado com três tiros. O então treinador teve a coluna vertebral atingida e não morreu por pouco. Para quem havia feito o impossível meses antes, sobreviver, talvez, fosse apenas uma questão de fé. Diagnosticado com tetraplegia, e ainda que os prognósticos dados pelos médicos fossem desanimadores, Montoya venceu obstáculos, e apesar das dificuldades que sua condição lhe impõem, o ex-treinador vive uma vida normal, sem depender de aparelhos, na mesma casa onde sua vida teve o caminho desviado das glórias esportivas. Em entrevista ao Terra, em fevereiro de 2015. Montoya falou sobre suas ambições antes da tragédia.  "Sempre sonhei primeiro em ganhar a Copa Libertadores. Depois disso, pensava em ir para a Europa ou algum país da América do Sul, como Argentina ou Brasil, que me chamavam muito a atenção. Queria aprender mais, atualizar meus conceitos, valorizar tudo que fiz, para então ter as condições de assumir mais tarde uma seleção colombiana. Era um plano que tinha". Em todos estes momentos, Adriana sempre esteve a seu lado, cuidando de Montoya e do pequeno José Fernando, que na época do atentado tinha apenas três anos. Montoya e Adriana se casaram em 1998. Mais do que votos protocolares, a frase "até que a morte os separe" foi levada à risca por Adriana.

A popularidade de Montoya, eleito o melhor treinador da América em 2004 pelo jornal uruguaio El País, ultrapassa os feitos no campo e não à toa recebeu o apelido de "Campeón de la vida". Desde 2007, é colunista do jornal El Espectador, um dos principais diários colombianos. Na coluna da última semana agradeceu as homenagens e deixou um recado sobre seu estado de saúde. "Gostaria de compartilhar que me encontro bem de saúde, com vida para ver meu filho crescer, estável e produtivo. Sem dúvida, este reconhecimento me fortalece muito para seguir adiante em meu processo de recuperação". Em suas colunas semanais, o ex-treinador sempre inicia com uma frase de efeito de alguma personalidade. Dessa vez, recorreu à Vince Lombardi, primeiro treinador a conquistar o SuperBowl e famoso frasista. "A medida de quem somos é o que fazemos com o que temos". Uma frase que cai como uma luva a Montoya, alguém que tirou o máximo de uma equipe considerada limitada e eternizou seu nome na história do futebol.
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Texto publicado originalmente em 4 de outubro de 2017, no blog Escrevendo Futebol.



Recentemente, jogadores gordinhos ou acima do peso se transformaram em alvos constantes de chatas e modorrentas discussões em mesas redondas e programas de debate esportivo. Mas por sorte, o futebol é para todos, inclusive para atletas de medidas avantajadas. O goleiro Juca Baleia e o atacante Ronaldo, são grandes exemplos disso, sem trocadilhos. Mas o maior exemplo, e aí sim, no sentido literal, foi um personagem lá da época amadora do futebol. William Henry Foulke, conhecido como Fatty, chegou a alcançar cerca de 152 kg, e ainda por cima tinha estimados 1,93 metros de altura. Algumas fontes indicam que ele teria pesado até mais, ultrapassando os 160 kg.

Nascido em 12 de abril de 1874, iniciou sua carreira no futebol em 1894, aos 19 anos, pela equipe do Sheffield United. Se destacou rapidamente pelo seu tamanho mas também pela qualidade como goleiro. Ágil, tinha a vantagem de não perder divididas, em uma época em que a regra permitia o chamado "jogo de corpo" nos goleiros. Destaque da equipe no vice-campeonato nacional de 1896-97, teve uma oportunidade de defender a seleção da Inglaterra, em 29 de março de 1897, em um amistoso contra o País de Gales, vencido pelos ingleses por 4 a 0. Um ano depois, comemorava junto de seus companheiros o título de campeão do Campeonato Inglês.


Na temporada seguinte foi a vez de levantar a taça da FA Cup, então competição mais importante do futebol inglês. Em 1899-00, novo vice-campeonato nacional. Em 1900-01, o Sheffield chegou mais uma vez à final da FA Cup, mas acabou derrotado pelo Tottenham.

Em 1901-02, o clube chegava a uma nova decisão do torneio eliminatório, mas dessa vez, conquistou o bicampeonato, diante do Southampton. Mas foi preciso dois jogos para superar o adversário. Na primeira partida, após o empate de 1 a 1, Willie, como também era chamado, ficou revoltado, pois para ele, o gol de empate dos Saints havia sido irregular. O goleirão saiu do vestiário sem roupas para perseguir o árbitro, tendo que ser contido por várias pessoas. Como naquela época as sanções ainda não eram bem estabelecidas, Foulke jogou a segunda partida e foi decisivo para o título. Aliás, Foulke possui uma importância gigantesca para a história do Sheffield United. Depois dessa conquista, o time voltou a vencer a FA Cup apenas outras duas vezes, em 1915 e 1925, e não levanta uma taça desde a segunda divisão da temporada 52-53.


Reza a lenda que o tradicional canto inglês "Who ate all the pies" teria sido cantado pela primeira vez por torcedores do Sheffield em 1984, direcionado ao goleiro. "Não me importo do que me chamam, apenas quero que não me chamem atrasado para o almoço", dizia. Além de bom keeper, Foulke também se destacava no cricket, esporte bastante popular no Reino Unido. Em 1900, fez algumas partidas pela Derbyshire County Cricket Club.

Em 1905 deixou o Sheffield e disputou 35 partidas pelo Chelsea, então na segunda divisão, e como capitão. Mas no fim da temporada, já em 1906, se mudou para o Bradford City, também da segundona. Jogou apenas mais uma temporada e se despediu dos gramados. No total, atuou em 299 partidas pela elite do futebol inglês, e somou 411 jogos em toda a carreira. É o 22º jogador que mais vezes entrou em campo pelo Sheffield United, com 352 jogos. Foulke deixou este mundo em 1º de maio de 1916, aos 42 anos, vítima de cirrose.
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Texto publicado originalmente em 25 de fevereiro de 2016 no blog Escrevendo Futebol.



Sempre que se fala em tragédias na história do futebol, é quase uma unanimidade tratar o incidente de Hillsborough como o exemplo máximo. Midiaticamente falando, e pelos desdobramentos do caso nos anos posteriores na justiça, na sociedade inglesa e na cultura de futebol em geral, não há o que contestar a grandiosidade trágica daquele dia. Entretanto, numericamente falando, o que aconteceu em Lima, no Peru, em 24 de maio de 1964, é a partida de futebol que mais vitimou pessoas na história. Durante um jogo pelo pré-olímpico entre as seleções de Peru e Argentina, no Estádio Nacional de Lima, mais de 320 pessoas morreram após uma grande confusão.

O estádio estava lotado. 40 mil pessoas acompanhavam o embate. Após um primeiro tempo sem gols e sem anormalidades, a Argentina abriu o placar aos 15 minutos, com Manfredi, que aproveitou saída errada do goleiro peruano para marcar. Faltando dez minutos para o fim, o árbitro uruguaio Angel Pazos anulou um gol contra anotado pelo argentino Morales, gerando uma onda de revolta nas arquibancadas (e também em campo). Dois torcedores invadiram o gramado e foram brutalmente retirados de campo, deixando a torcida ainda mais irada. Enquanto o juiz se refugiava, torcedores começaram a atirar objetos na direção da polícia, que reagiu fortemente com bombas de gás. Na tentativa de fugir da confusão, milhares de pessoas se depararam com as portas de saída fechadas, o que fez com que muitos dos que estavam ali fossem pisoteados até a morte. A tragédia também quase nos privou de uma das maiores estrelas do futebol do continente: Héctor Chumpitaz, capitão da seleção peruana em duas Copas do Mundo, estava em seu início de carreira, e quase desistiu do futebol depois de ser testemunha ocular do fato.


Enquanto centenas de pessoas morriam por asfixia, aqueles que conseguiam escapar iniciavam uma batalha fora do estádio com a polícia armada, que disparou incontáveis tiros contra a multidão. O número oficial de mortes é de 328 pessoas, porém, não inclui possíveis mortos por armas de fogo. Há relatos também de que dois policiais teriam sido mortos ainda dentro do estádio. Apenas duas pessoas sofreram sanções relativas ao incidente: Jorge Azambuja, comandante da polícia que ordenou que as bombas de gás fossem atiradas, foi sentenciado a 30 meses de prisão; e o juiz Benjamin Castaneda, responsável por cuidar do caso. Ele foi multado por entregar o relatório com seis meses de atraso e por não participar de todas as autópsias como deveria ter feito. De acordo com ele, os corpos estavam desaparecidos, e provavelmente foram enterrados como indigentes em Callao.

Curiosamente, um caso como esse possui pouquíssima documentação disponível na internet, o que faz com que pensamos que o que realmente aconteceu naquele dia, jamais seja trazido à tona.
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Texto originalmente publicado no dia 7 de novembro de 2016, no blog Escrevendo Futebol.



Antônio Dionísio Filho nasceu em 14 de abril de 1956, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde o lateral-esquerdo iniciou a carreira no Botafogo local em 1970. Ficou no tricolor até 72, e se transferiu para o Guarani de Campinas jogando até 75. No mesmo ano, teve curtas passagens por Itumbiara e Vila Nova. Após essas andanças, Dionísio teve o momento de maior destaque na carreira. No Atlético Mineiro, foi campeão estadual de 76 de maneira invicta, ao lado de jogadores como Vantuir, Getúlio, Marcelo Oliveira, Toninho Cerezo e Paulo Isidoro. Ele mesmo sempre costumou dizer que foi a melhor equipe em que jogou.

Depois disso, passou pelo Internacional antes de se estabelecer em Curitiba, cidade que escolheu para viver até seus últimos dias. No estado do Paraná, se tornou ídolo rapidamente pela força e velocidade, e também pelas várias conquistas. Passou pelo Trio de Ferro da capital (Atlético, Coritiba, e na época, Pinheiros, a parte azul do atual Paraná Clube) e conquistou os títulos paranaenses de 79 e 89 pelo Coritiba, e os de 84 e 87 pelo Pinheiros. Vestiu também a camisa do Operário-MS e encerrou a carreira no Cascavel, inclusive, sendo um dos jogadores do clube cascavelense na partida que teve como destaque o primeiro gol da história do Paraná Clube.


Foi eleito por diversas vezes durante os anos 80, o melhor lateral-esquerdo do Campeonato Paranaense. O treinador Sergio Ramirez, que o treinou no Pinheiros, resumia bem seu estilo de jogo: “Dionísio chega junto e não deixa nenhum atacante sambar”. Além de bom na defesa, o Sangue Bom soube evoluir durante a carreira e se transformou num grande criador de jogadas. Nos treinamentos, executava mais de duzentos cruzamentos da lateral e cobranças de escanteio. Bem-humorado, apelidava seus lançamentos de bumerangue.

A partir de 1992, passou a atuar como comentarista esportivo e passou pelas rádios Eldorado, Atalaia e Clube, e no momento, fazia parte da equipe da Rádio Banda B. Na televisão, trabalhava no Donos da Bola PR, da Band, e no programa É-Esporte Paraná, da TV Educativa. Comentou também para a RPC e para o Premiere. Também se arriscou em funções nas comissões técnicas de Paraná Clube e Comercial de Ribeirão Preto em meados dos anos 90.


Com inteligência acima da média para os padrões boleiros, sabia bater quando achava preciso. “Dirigente gosta de jogador que fala ‘nois fumo’ e ‘nóis vai’ “. Sempre sorridente, não tinha pressa para lhe contar uma boa história e sempre tratou a todos sem distinção. No dia 16 de fevereiro de 2015, após quase uma semana de internação, faleceu aos 58 anos vítima de uma síndrome colestática decorrente de uma lesão nas vias biliares. Deixou mulher e três filhos, mas também deixou um legado de alegria e irreverência.
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Texto publicado originalmente em 14 de março de 2015, no blog Escrevendo Futebol.



A principal "inspiração" para que eu me tornasse jornalista surgiu da minha pequena coleção da Revista Placar. Guardava moedas e todo o dinheiro que ganhava de meus pais para poder comprar os volumosos guias de Placar, em especial os do Brasileirão. E no início dos anos 2000, um personagem ganhou destaque nessas edições: o Djalma. Apresentado como motorista da redação, Djalma passou a aparecer em guias como intruso em um dos elencos apresentados, e posteriormente, nas revistas mensais, se tornou um amigo do leitor, dando palpites e respondendo a perguntas, algo parecido com o antigo "Garoto do Placar".

De acordo com o editor-chefe da revista na época, Sergio Xavier Filho, a criação da personagem aconteceu como uma forma de piada interna, devido ao ótimo humor do motorista. "O Djalma era motorista da Placar e irmão da nossa secretária. Uma figuraça! E mais do que falar de futebol, ele era uma pessoa engraçada. Por isso a gente acabou adotando. Cada vez que a gente via a foto dele ali na revista, a gente dava gargalhadas", conta o jornalista. "Quem escrevia tudo aquilo, dava os palpites, éramos nós. Ele era muito mais um personagem da redação. Ele virou um símbolo", diz Sergio.

Em conversa por e-mail, Djalma deu respostas curtas e diretas, mas demonstrou bastante satisfação pelo período em que foi "volante" da Placar. "Tudo aconteceu por acaso, nunca tinha passado em minha cabeça. Como minha irmã trabalhava lá, apareceu a oportunidade, que por sinal foi ótima", disse o motorista.

"Quando a gente o convidou, ele que já ria por qualquer coisa, começou a gargalhar. Ele adorou", conta Sérgio. Morador de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Djalma segue na carreira de motorista, ofício que pratica há 20 anos. Corintiano, afirmou que "sente muita saudade do tempo de Placar".

Ao lado, a ficha técnica fictícia de Djalma, fardado com a camisa do Paraná Clube, no Guia do Brasileirão de 2002.


Quem acompanha o futebol europeu, em especial o espanhol, conhece a guerra de jornais madridistas e culés, que alimentam ainda mais a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona. Porém, é notável que a cobertura que esses jornais fazem desses clubes é essencial para a manutenção da história. O Mundo Deportivo, por exemplo, é o principal jornal catalão, e naturalmente, cobriu o surgimento das maiores estrelas da história do Barcelona. E claro, entre eles está Messi, um dos maiores de sua geração.

A primeira aparição de Messi no jornal Mundo Deportivo aconteceu em setembro de 2001, de maneira discreta, como parte integrante do elenco Cadete B do clube blaugrana. Um mês depois, em 14 de outubro, o mirrado Lionel Messi já aparecia como um promissor atleta em uma pequena matéria que indicava os oito futuros talentos das canteras do Barcelona. O argentino foi descrito assim:

O "Pibito" de Vélez é um meia canhoto, habilidoso e goleador. Fisicamente é preciso trabalhar muito.

Essa pequena foto apresentava Lionel Messi ao mundo:


E quanto aos outros sete jogadores que apareceram ao lado de Messi? Estouraram? Floparam? Bem, o que teve mais destaque foi o zagueiro Gerard Piqué, que depois passou pelo Manchester United antes de retornar ao Barça. O defensor, do mesmo elenco que Messi, era exaltado pelas características de líder e pela qualidade na saída de bola desde o campo de defesa. Outros três garotos da Cadete B eram tratados como joias: Pedraza (atacante destro, goleador e valente), Víctor Vázquez (inteligente e com grande capacidade goleadora) e Songo'o (potência física e velocidade). O primeiro era filho de Ángel Pedraza, ídolo do rival local Espanyol. Aos 15 anos, o garoto mudou de clube. Ainda foi campeão europeu sub-19 pela Espanha, mas jamais estourou como se esperava. O segundo, apesar da gigantesca expectativa em torno de seu nome, também foi abaixo do esperado. Jamais engrenou no Barcelona, passou belo Brugge, da Bélgica, e hoje atua no futebol mexicano, no Cruz Azul. O último, filho de Jacques Songo'o, goleiro camaronês em quatro Copas do Mundo, sequer se profissionalizou pelo Barça, rodou por clubes da Inglaterra e Espanha, e hoje joga no Portland Timbers, da MLS.

Mais novo que Messi e sua turma era Iago Falque. Meia e canhoto, o Barcelona tinha grandes esperanças no garoto, que acabou não deslanchando, mas vestiu a camisa de grandes equipes da Europa, como Juventus, Tottenham e Roma. Atualmente joga no Torino. Outro que gerou grande expectativa foi o senegalês Diong Mendy, que na época, militava no Infantil A. Foi vendido ao Murcia, e após um período de irregularidade, passou a rodar por equipes das divisões inferiores da Espanha. O último nome a ser destacado na publicação foi Sérgio Garcia, então no Juvenil. Selecionável em todas as categorias da Espanha, foi convocado algumas vezes na Seleção Principal, mas nunca teve nem metade do sucesso de outros companheiros. Hoje atua no futebol catari, pelo Al Rayyan.
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Texto publicado originalmente em 3 de setembro de 2016 no blog Escrevendo Futebol.