Zeljko Raznatovic, mais conhecido pelo apelido de Arkan, é uma das mais controversas personagens da história da Sérvia. Tão controverso, que não é sérvio de nascimento, tendo vindo ao mundo em Brezice, na Eslovênia, no dia 17 de abril de 1952. Filho de Veljko Raznatovic, importante combatente da força aérea iugoslava durante a Segunda Guerra Mundial, o ambiente familiar não era dos melhores, já que o garoto e suas três irmãs eram constantemente espancados pelo chefe da casa. Mesmo assim, Zeljko chegou a sonhar com a mesma carreira do pai.

Entretanto, o caminho do jovem esloveno mudou drasticamente. Em 66, foi preso pela primeira vez por cometer pequenos roubos contra mulheres, o que lhe custou um ano em um reformatório. Após esse período, fugiu para Paris. Aos 15 anos, com um histórico de violência familiar, seu futuro fatalmente seria o da criminalidade. Na cidade-luz, passou a cometer diversos assaltos, e em 69, foi preso e mandado de volta para seu país, onde foi condenado a três anos de prisão.

Na cadeia, Zeljko passou a exercer sua liderança nata, organizando uma pequena gangue. Bem relacionado graças ao pai, era ajudado sempre que se metia em confusão por Stane Dolanc, político esloveno e Ministro do Interior, com forte ligação com o presidente iugoslavo Josip Tito. Em 72, aos 20 anos, se mudou para a Europa Ocidental, onde conheceu grandes criminosos sérvios. Todos, assim como ele, eventualmente contratados pelo serviço secreto para, digamos, algumas “missões especiais”. Para isso, era preciso sempre ter um passaporte falsificado em mãos. E foi de um deles que o apelido Arkan acabou pegando.

Entre 72 e 83, foi preso na Bélgica, na Holanda, na Alemanha e na Suíça, mas sempre se livrou do cárcere em fugas cinematográficas. Além destes quatro países, cometeu diversos crimes na Suécia, na Áustria e na Itália. Em uma de suas fugas, adentrou um tribunal com duas pistolas, e pulou por uma janela junto de um companheiro que estava sendo julgado. Em 83, voltou a Belgrado e se tornou um homem de negócios. Negócios do crime, obviamente. No final daquele ano, um assalto a banco foi cometido em Zagreb, e uma rosa foi deixada no balcão. Assinatura típica de Arkan em outros roubos. Procurado por policiais, reagiu a tiros e foi novamente detido. Entretanto, foi liberado após explicações. Efeitos de sua antiga ligação com Dolanc, que disse certa vez que "um Arkan vale mais que toda a polícia secreta iugoslava".


Arkan seguiu em sua vida de crimes e prisões. Enquanto isso, a Iugoslávia, já sem o líder Tito, morto em 1980, iniciava seu declínio, que culminaria na Guerra Civil da Iugoslávia, onde o futebol, e principalmente a figura de Arkan, teriam papel fundamental.

Adepto do futebol, Arkan passou a frequentar o estádio Marakana, onde o Estrela Vermelha, principal equipe do país manda seus jogos. Rapidamente, com seu carisma e ambição, e orientado pelo governo de Milosevic, se tornou líder da Delije, a torcida organizada do clube sérvio. Em 1990, logo após as eleições na Croácia (a primeira em mais de 50 anos de domínio sérvio), Arkan foi um dos protagonistas de uma das maiores batalhas campais da história. No dia 13 de maio, o Dínamo de Zagreb recebeu o Estrela Vermelha  no estádio Maksimir para mais uma partida repleta de tensão entre as partes. Rapidamente, a Delije iniciou os conflitos. Naturalmente, os Bad Blue Boys, a torcida da equipe croata, reagiu. A polícia, majoritariamente sérvia, tomou posição junto dos torcedores do Estrela Vermelha. E a violência tomou conta do gramado.

O fato mais marcante daquela data, entretanto, veio de um personagem inesperado. Zvonimir Boban, então camisa 10 e capitão do Dínamo Zagreb (e futura estrela do futebol mundial), se revoltou contra a brutalidade de um dos policiais e o atacou. O ato heróico, entretanto, lhe rendeu 6 meses de suspensão e acusações criminais, que acabaram arquivadas.


Em outubro daquele mesmo ano, Arkan resolveu ir além, e recrutou torcedores do Delije e outros amigos próximos para formar a Guarda Voluntária Sérvia, que posteriormente seria intitulada como os "Tigres de Arkan". Era a institucionalização da violência do futebol. A Guarda se juntou a militantes da República Sérvia de Krajina, grupo de oposição do governo croata recém-estabelecido e apoiados pelo governo central iugoslavo. Porém, Arkan foi detido em novembro pelas forças croatas. Mas Arkan nunca ficou numa cadeia por muito tempo, e logo foi libertado em condições não esclarecidas. Acredita-se que Croácia e Iugoslávia entraram em um acordo pela libertação do paramilitar e seu grupo.

A Guarda Voluntária possuía cerca de 500 membros, entre eles criminosos de diversas outras nações europeias, e atuaram de 1991 a 1995 em conflitos contra grupos paramilitares croatas e bósnios. Extremamente cruéis, os Tigres não mediam esforços por seus ideais nacionalistas. Arkan e seus homens matavam, torturavam e estupravam quem achassem necessário. Com sua liderança, conquistava a lealdade de seus oficiais, dando-lhes gratificações e honrarias. Com seu carisma, conquistou a simpatia de uma grande parcela da população sérvia. Mas nada disso seria possível sem o apoio irrestrito das autoridades locais. Forte politicamente, Arkan deu às lideranças iugoslavas tudo o que eles queriam, e recebeu em troca muitas vantagens econômicas. Assim, construiu um império após a guerra. Intocável, era imune a qualquer problema com a justiça. Dessa forma, passou a cuidar de inúmeros negócios em diversas áreas. E pôde cultivar uma de suas paixões: o futebol.

Apaixonado pelo Estrela Vermelha, tentou de todas as maneiras comandar o clube mais vitorioso da Sérvia. Sem sucesso, optou por comprar a pequena equipe do Obilic, em junho de 96. O nome do clube se refere a Milos Obilic, herói de guerra sérvio, que segundo conta a lenda, teria assassinado o sultão Murad I, em 1389, após vitória dos otomanos na Batalha de Kosovo. Com o dinheiro de Arkan, e seus métodos nada ortodoxos, o Obilic subiu para a primeira divisão em 96-97, e no ano seguinte, desbancou Partizan e Estrela Vermelha na elite do futebol na Iugoslávia. Ameaças a jogadores e árbitros eram constantemente relatadas. Nada que impedisse a ascensão do clube que passou a usar o amarelo como cor principal, em referência aos "Tigres". O livro "Como o futebol explica o mundo", de Franklin Foer, detalha a participação de Arkan e da Delije na Guerra da Iugoslávia e sua aventura no mundo do futebol.


Obilic campeão iugoslavo 97-98. De pé: Zoran Petrović, Nenad Lukić, Predrag Filipović, Kuzman Babeu, Darko Vargec, Miroslav Savić, Željko Ražnatović (Arkan), Dragan Šarac, Darko Nović, Živojin Juškić e Aco Vasiljević; Agachados: Saša Mrkić, Saša Kovačević, Saša Viciknez, Ivan Litera, Zoran Ranković, Nenad Grozdić, Saša Zorić, Marjan Živković e Goran Serafimović

Em entrevista ao Globoesporte.com, em 2014, o técnico da equipe na época, o bósnio Dragan Okuka, negou a influência externa de Arkan. "Todos tinham medo de Arkan, mas estas acusações não são verdadeiras. Nós vencemos o campeonato porque tínhamos um time muito lutador, com boa disciplina, graças a Arkan. Ele era rígido. Não deixava os jogadores fumarem e saírem até tarde. Ele era um bom presidente, dava boas condições de treino, de viagem. Todo mundo recebia em dia "

Na temporada 98-99, o Obilic derrotou o IBV da Islândia pela primeira fase preliminar da Liga dos Campeões. Na segunda fase eliminatória, a última antes da fase de grupos, sofreu uma dura goleada de 4 a 0 do Bayern na Alemanha, mas segurou um empate em 1 a 1 em Belgrado. Beckenbauer, então presidente do clube bávaro, se negou a acompanhar a partida na Sérvia. Na mesma temporada, foi eliminado na primeira fase da Copa da Uefa pelo Atlético de Madrid, com duas derrotas. O clube ainda contou com participações na Recopa Europeia, na Copa Intertoto e na Copa da Uefa de 2001-2002.


Na vida pessoal, Arkan teve nove filhos com cinco mulheres diferentes. Mas a mulher mais importante de sua vida certamente foi Ceca. Famosa cantora sérvia, foi colocada na presidência do clube quando a UEFA proibiu o Obilic de participar de competições europeias enquanto Arkan estivesse no comando.

Em 1997, o Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia indiciou Arkan pelos crimes de guerra de genocídio contra a população bósnia-muçulmana, crimes contra a humanidade e violações da Convenção de Genebra. Isso só veio a público dois anos depois, durante a Guerra do Kosovo, em 99, após os bombardeios realizados pela OTAN em solo iugoslavo. Acredita-se que os Tigres de Arkan se mantiveram ativos durante este conflito.

Apesar da vida de crimes, a impunidade era um companheiro fiel de Arkan, que só veio a ser punido pelas mãos vingativas de um jovem policial. Na tarde de 15 de janeiro de 2000, no saguão do Intercontinental Hotel, em Belgrado, Dobrosav Gavric, de 23 anos e membro da polícia, se aproximou de Arkan, que conversava com outros dois colegas, e iniciou uma série de disparos de sua pistola CZ-99. Arkan foi atingido no olho esquerdo, enquanto seus companheiros, Milenko Mandic, um gerente de negócios e Dragan Garci, um inspetor de polícia, morreram no local. O guarda-costas de Arkan, Zvonko Mateovic disparou contra Gavric e o deixou desacordado. Mateovic e Ceca agiram rápido e tentaram levar Arkan ao hospital, em vão. Aos 47 anos, Zeljko Raznatovic encontrava aquilo que sempre desafiou. Tido como herói por muitos, o sepultamento de Arkan foi acompanhado por uma multidão. Seu túmulo, adornado por um suntuoso busto é até hoje local de peregrinação.


Gavric, e seus dois comparsas, Milan Djuricic e Dragan Nikolic, foram condenados a 30 anos de detenção cada um. Entretanto, apenas Nikolic ainda cumpre a pena. Mas o verdadeiro mandante do crime jamais foi descoberto. Rumores indicaram a participação de Marko Milosevic, filho de Slobodan Milosevic, de empresários ligados ao crime organizado, e até mesmo do serviço secreto americano.

Após a morte de Arkan, o Obilic entrou em declínio. Ceca foi presidente da equipe por um bom tempo, mas não conseguiu manter as glórias conquistadas por seu marido. Atualmente, o clube, que retomou o branco como cor principal, milita na 6ª divisão do futebol da Sérvia. Ceca chegou a ser presa por ficar com parte do dinheiro arrecadado em vendas de jogadores. Hoje, vive uma vida de luxo, e em algumas oportunidades, volta às arquibancadas com seus filhos. Mas para torcer para o Estrela Vermelha.

É interessante notar que Arkan e seus homens ficaram impunes. O Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia, citado anteriormente, reconheceu os crimes cometidos pelos paramilitares, mas não levou nenhum deles a julgamento. Desde então, muitos deles foram presos por outros crimes, como o assassinato do primeiro ministro sérvio Zoran Djindjic, em 2003, mas jamais por seus crimes na época em que lutaram submetidos a Arkan.

O poder de Arkan inspira e fascina a muitos até os dias de hoje. Por quê? Segundo o jornalista Filip Svarm, a explicação é simples. "Arkan era policial e chefe da máfia ao mesmo tempo. Era comandante paramilitar e dono de um clube de futebol. Estava no show business e na lista de procurados da Interpol". Um homem acima da lei dos homens.

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Texto publicado originalmente em 4 de setembro de 2015, no blog Escrevendo Futebol. 



O futebol romeno é um dos mais complicados do planeta. É tão difícil entender as idiossincrasias locais tanto quanto compreender seu idioma. Durante a ditadura de Nicolae Ceausescu, o futebol foi uma importante arma ideológica. O regime usava as duas maiores equipes do país, o Steaua e o Dínamo, ambos de Bucareste. Enquanto o primeiro era financiado pelo Exército, o segundo tinha ligações com a Securitate, a polícia secreta romena. Um ano antes da deposição de Ceausescu, um episódio durante a Copa da Romênia de 87-88 era a representação do declínio comunista no país.

Antecedentes

O Steaua, time do coração de Valentin, filho de Nicolae Ceausescu, recebeu o apelido de Specialistă a Cupei (Especialista em Copas), devido a seu desempenho na Copa da Romênia. Nos anos 80, conquistou o campeonato romeno e a copa nacional por cinco anos consecutivos, além das conquistas da Liga dos Campeões e da Supercopa da Europa. Na edição da temporada 87/88, a 50ª da história da competição, Steaua e Dinamo chegaram à final com campanhas irretocáveis.

A final

A decisão foi disputada no Estádio 23 de Agosto, na capital Bucareste. Mais de 45 mil torcedores presentes para ver um dos grandes clássicos da Romênia. "Éramos uma equipe recém-formada, jovem, e o Steaua, campeão da Europa e também campeão do campeonato nacional. Tínhamos uma equipe muito boa, mas não éramos tão entrosados", lembra Danut Lupu, um ainda jovem meio-campista recém promovido ao time principal.

Com isso, o Steaua começou melhor o jogo, e chegou ao gol aos 27 do primeiro tempo, quando Iovan vai à linha de fundo pela direita, e cruza na cabeça de Lacatus, abrindo o placar. O título parecia estar na mão do Steaua até os 43 do segundo tempo, quando Florin Raducioiu aproveitou sobra na pequena área e emendou para as redes.

Porém, o que ninguém imaginava é que o Steaua teria poder de reação. Em rápido ataque, Hagi recebeu na esquerda e tentou o cruzamento, mas entregou a bola nas mãos do goleiro Moraru, que acabou se atrapalhando e soltando a bola. Gavril Balint aproveitou o vacilo, e marcou o gol do título para explosão da torcida vermelha! Mas não houve tempo para comemorar. O gol foi anulado por um dos árbitros auxiliares. A revolta, claro, foi imediata. A posição de Balint era legal.

Em protesto à decisão do juiz, a equipe do Steaua abandonou o campo de jogo, por ordens diretas de Valentin Ceausescu. O árbitro Radu Petrescu esperou o retorno dos jogadores, que não aconteceu. Com isso, decretou o fim do jogo e o título para o Dínamo.

Impasse

Entretanto, após o jogo, a FRF (Federação Romena de Futebol), decidiu por considerar o Steaua como campeão da Copa da Romênia daquela temporada.

Após a Revolução de 89, segundo algumas fontes, o Steaua tentou devolver a taça ao Dínamo, que preferiu por recusar. Porém, não encontramos o paradeiro deste troféu, que certamente, é uma mancha na história do futebol romeno.

*com a contribuição de João Vitor Roberge, de O Craiovano



O final dos anos 90 não foi uma época agradável para os torcedores do Fluminense, que sofreram com seguidos rebaixamentos. Quem não sofreu, e ainda se deliciou com tudo isso, foram os rivais. Mas há um capítulo neste trecho da história do time tricolor que se tornou uma verdadeira lenda do mundo do futebol. E não estamos falando do Fluminense 2x3 Lagartense, que é uma óbvia piada espalhada pela internet. Estamos falando de um confronto ainda mais impressionante e surreal. Um duelo entre Fluminense e uma equipe da MTV.

Bom, se você tem em torno dos 20 a 30 anos, deve ter acompanhando grandes momentos desta moribunda emissora de TV. A MTV resolveu patrocinar o Tricolor das Laranjeiras, sabe-se lá por qual razão. Em uma ação entre clube e patrocinador, decidiram realizar um amistoso beneficente. O problema é que o Fluminense havia recém sido rebaixado para a série B do Campeonato Brasileiro. O técnico Edinho Nazareth sequer quis participar do evento e declarou na época: "Não vou ficar no banco para comandar um jogo de cata-cata". 

O duelo aconteceu no dia 1º de dezembro de 1997, no não menos mítico estádio de Moça Bonita, em Bangu. O Fluminense venceu pelo elástico placar de 12 a 0. Os gols foram marcados por Roger (2x), Arthur (2x), Flavinho, Dirceu, Jorge Luís, Yan (2x), Cadu, Marcelo Cardoso e Márcio Costa. Isso tudo em apenas 50 minutos, já que a partida foi disputada em dois tempos de 25. O árbitro da partida foi Daniel Pomeroy, que já foi árbitro FIFA.

Não conhece a maioria desses jogadores do Flu? Mas aposto que o time da MTV é bem mais familiar. Entraram em campo os seguintes "jogadores": Andreas Kisser e Igor Cavalera (Sepultura), Lello e Samuel (Skank), Frejat e Guto Goffi (Barão Vermelho), os VJ's Edgar e Rodrigo, Dado Villa-Lobos (Legião Urbana), Toni Garrido (Cidade Negra), o cantor Ivo Meirelles e o ator e líder da Blitz, Evandro Mesquita.

"A gente também não achou legal aquele jogo. Não tínhamos motivos para festejar", disse o meia Yan, em entrevista ao jornal Extra, do Rio de Janeiro. Entretanto, foram arrecadados 3.500 kg de alimentos não perecíveis, como doação a Fundação Cazuza, pelo Dia Internacional de Combate à Aids. Pela internet, criou-se o mito de que o placar teria sido 12 a 1, com o gol da MTV sendo marcado pelo VJ Cazé Peçanha. Mas nossa pesquisa sequer encontrou registros da participação de Cazé no amistoso, quanto mais de ter marcado um gol. Confira abaixo o único registro em vídeo disponível na internet dessa partida:


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Texto originalmente escrito em 29 de julho de 2015 no blog Escrevendo Futebol.



Não era apenas o nome que soava incomum. Mas Jaguaré também era notado por sua versatilidade em campo e, principalmente, pela personalidade. Era lendário. Nasceu no Rio de Janeiro em berço humilde, e antes de entrar no mundo do futebol trabalhava como estivador. Até no porto, lendas fizeram parte de sua história. Dizem que carregava sacos de farinha de trigo de 50kg com apenas uma mão. No futebol, começou sua carreira no Vasco em 28, após ser levado por Espanhol, um defensor que o viu em peladas no bairro da Saúde, onde era conhecido pelo apelido de Dengoso. Algumas fontes dizem que Jaguaré também jogou pelo Atlético Santista e pelo Pereira Passos (equipes amadoras). Sem saber ler nem escrever, foi preciso contratar um professor para lhe ensinar a assinar o próprio nome nas súmulas, algo até comum na época. Rapidamente se tornou um dos ídolos da torcida cruz-maltina, também graças à sua irreverência. Era tão misterioso que nem a data de seu aniversário é conhecida. Fontes apontam os dias 14 de maio e 14 de junho, além de divergirem também no ano de nascimento, indicando 1900 ou 1905. Mas é certo que Jaguaré nem ligava para isso. As histórias contadas a seguir, são verdadeiras, até que se prove o contrário!

Jaguaré, sempre com seu gorrinho de marinheiro, tinha o costume de irritar os adversários. Certa vez, em um Vasco e Bangu, o goleiro prometeu a Ladislau, jogador alvirrubro e irmão de Domingos da Guia, que o iria driblar. Já no primeiro lance envolvendo os dois, Jaguaré deu apenas um tapinha na bola por cima do atacante, que ao tentar impedir a jogada, tomou outro chapéu. Após as defesas, tinha o hábito de girar a bola sobre o dedo, como se fosse um jogador de basquete. Além de atirar a bola na cabeça do adversário e pegá-la novamente no "rebote".


Em um amistoso entre as seleções paulista e carioca, Jaguaré desafiou o lateral-direito Grané, ídolo do Corinthians, a bater um pênalti contra ele. O jogador era conhecido pelo chute potente. Após a cobrança de Grané, e a consequente defesa, prevalece a ousadia do goleiro que se gabava como um verdadeiro Globetrotter. Em outra situação, o Vasco vencia o São Cristóvão por 5 a 0. O atacante do pequeno clube carioca invadiu a área e chutou. Jaguaré defendeu e devolveu a bola a Vicente: "Vamos, chuta de novo!". Na segunda oportunidade, Vicente balançou as redes.

Pelo Vasco, foi campeão carioca em 1929, e após uma excursão pela Europa em 1931, em que o clube venceu 8 de 12 jogos disputados, Jaguaré assinou com o Barcelona, junto do também jogador vascaíno Fausto dos Santos. Atuou por um tempo pela equipe catalã e depois retornou ao Brasil para jogar pelo Corinthians (34-35). Voltou a jogar no Velho Continente, pelo Sporting de Lisboa na temporada 35-36, sendo campeão do Campeonato de Lisboa. Foi o primeiro brasileiro a vestir a camisa leonina, com 7 partidas e 4 gols sofridos. A intenção inicial era ir para a Itália, mas a guerra entre Itália e Abissínia o impediu.

Em 1936, chegou ao Olympique de Marseille, onde alcançou seu maior destaque. No lugar de Bezerra, o sobrenome foi substituído por Besveconne. Foi campeão francês em 37 (o primeiro dos 9 títulos nacionais do clube) e da Copa da França em 38. Nesta mesma temporada, marcou de pênalti um gol no empate em 1 a 1 diante do Séte, em 1º de maio de 1938, mais uma vez se mostrando pioneiro em sua posição. Na mesma partida, ainda defendeu outras duas penalidades. Um espanto! Recebeu o apelido de Jaguar, por suas estripulias. Pelo clube francês, sofreu 70 gols em 69 partidas. Outra lenda muito difundida dá conta de que o gol do título da Copa da França, na vitória por 2 a 1 sobre o Metz, teria sido marcado por Jaguaré. Entretanto, o fato é desmentido por inúmeras fontes. Porém, na Europa, suas molecagens não eram tão bem aceitas. Foi duramente repreendido pela direção do Olympique ao realizar uma defesa elástica, fazendo um movimento parecido com o de uma bicicleta. Em outra oportunidade, fez com um francês o mesmo que havia feito com Alfredinho, e foi advertido pelo juiz, o ameaçando de expulsão.


Outro fato importante de sua vida, é que Jaguaré teria sido o precursor do uso de luvas de goleiro no Brasil, após o seu primeiro retorno ao país. Pela Seleção, jogou em 3 partidas entre 1928 e 1929, e sofreu 5 gols. Boêmio e alcoólatra, gastava tudo o que ganhava, e voltou para o Brasil, com medo da guerra, com os bolsos vazios. Antes disso, ainda atuou 9 vezes pelo Académico do Porto em 1939. No Brasil, ainda tentou jogar pelo São Cristóvão, mas seu período no clube durou pouco. Voltou a ser estivador e era motivo de chacota dos colegas, que não acreditavam nele quando contava suas histórias da época de jogador. Mudou-se para Santo Anastácio, interior de São Paulo. Só foi aparecer novamente em 27 de outubro de 1946, quando faleceu. Até em sua morte, há divergências históricas. Fontes afirmam que Jaguaré havia se envolvido em uma briga, e foi espancado até a morte por policiais. Outra versão conta que após ser preso, bateu a cabeça na parede. Foi transferido para o Manicômio Judiciário de Franco da Rocha (mais conhecido como Juquery), sendo hospitalizado e falecendo pouco depois. Há ainda, uma terceira versão que diz que Jaguaré foi esfaqueado. Independente da história verdadeira, terminou de forma melancólica a vida de um dos precursores dos futuros goleiros-artilheiros, como Jorge Campos, René Higuita, Chilavert e Rogério Ceni.

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Texto publicado originalmente em 26 de março de 2015 e editado em 18 de setembro de 2019.


Por João Heim

Dez anos atrás, em Cascavel, interior do Paraná, um dos fatos recentes mais curiosos do futebol brasileiro aconteceu. O famoso “jogo das máscaras”, entre Coritiba e Santos, no Estádio Olímpico Regional Arnaldo Busatto, entrou para a história e viu o florescimento de duas promessas do futebol nacional.

Contexto

O Brasil e o mundo viviam um surto e um grande medo de epidemia da famosa Influenza H1N1, popularmente chamada de gripe suína. Algumas mortes e vários casos foram registrados, principalmente na região sul do Brasil, região mais fria e propensa a casos da gripe. Na cidade de Cascavel, a 140 km de Foz do Iguaçu e 500 km da capital paranaense, Curitiba, o clima era de apreensão com a doença. 

Estabelecimentos públicos com aglomeração, como igrejas e escolas, foram fechados, para evitar a transmissão da doença até que os casos diminuíssem. Na época, a cidade tinha oito casos da gripe confirmados e outros 365 sob investigação, com cinco pessoas suspeitas de falecerem por causa da doença. O exército chegou a montar um ambulatório provisório no centro de convenções da cidade para trabalhar na prevenção e cuidados da Influenza H1N1.

No meio disso tudo, o Coritiba havia sido punido por uma briga entre torcedores do clube e do rival, Athletico, e perdeu um mando de campo. Sendo assim, a equipe alviverde decidiu mandar o jogo contra o Santos, pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro, para Cascavel. Com todo esse contexto, o Ministério Público queria o cancelamento da partida ou que ela fosse jogada com portões fechados, pela segurança das pessoas. A justiça acabou permitindo a realização do jogo, mas determinou que os presentes no estádio usassem máscaras. Caso a medida não fosse cumprida, a prefeitura de Cascavel teria que pagar uma multa de 300 mil reais. A secretaria de saúde da cidade comprou 20,5 mil máscaras e assim viabilizou a realização do evento.

Expectativas do jogo 

No onze inicial do Coritiba para aquela partida, o atacante Bruno Batata relata que a memória já não ajuda para lembrar os detalhes daquele jogo acontecido há dez anos, mas que os jogadores souberam dias antes sobre os problemas com a gripe suína e viram no noticiário que os torcedores usariam as máscaras na partida. “Confesso que a gente não temia muito (a gripe), até porque quando você entra ali em campo pra jogar, você esquece um pouco desses fatores”, afirma o jogador. 

Para Antonio Abelardo, repórter de uma rádio local naquela partida, o clima também era diferente na cidade, com muito burburinho com o público tendo que usar máscaras, mas não um clima de medo por parte das pessoas. “É a primeira vez na história de você ir transmitir o futebol com a máscara, até mesmo atrapalhando um pouco o que você ia falar”, afirma. Ele relata que teve contato de rádios e veículos do país todo pedindo por informações da partida e como estava a situação na cidade, tamanha a expectativa da imprensa e do público para o evento.


O repórter diz que o fato inusitado mais próximo do jogo das máscaras que ele presenciou na carreira foi o falecimento de um colega de trabalho, atingido por um raio em Nazaré das Farinhas, na Bahia, com a descarga elétrica atingindo o fio do microfone da vítima. “Tava chovendo muito, no intermunicipal, e aí veio aquela descarga elétrica. Naquela oportunidade, se trabalhava só com fio. O microfone era ligado com fio de 100, 200 metros e um colega morreu naquela ocasião”, conta.

O Jogo

Para aquele jogo, o Coritiba não vinha na melhor situação no campeonato e tinha como destaques em campo o goleiro Edson Bastos, os meio campistas Carlinhos e Marcelinho Paraíba, Pedro Ken e Leandro Donizete, além do treinador Ney Franco. Já o Santos, tinha nomes de destaque como os laterais Léo e Pará, o meia-atacante Madson, o centroavante Kléber Pereira, o treinador Vanderlei Luxemburgo e dois jovens que seriam destaques num futuro breve: Neymar e o até então chamado Paulo Henrique Lima, o Paulo Henrique Ganso. 

A partida não teve grandes emoções e o meia Ganso fez o único gol da partida, no rebote do chute de Léo, que Edson Bastos rebateu nos pés do jovem jogador, que só completou para as redes. Bruno Batata admite que o jogo não foi de grande qualidade, que o gramado não ajudou ambas as equipes e que a derrota coxa branca, a segunda em sequência no momento, não ajudava a situação do clube. O Coritiba acabou, no final do campeonato, rebaixado para a segunda divisão, após o traumático jogo contra o Fluminense, onde os torcedores invadiram o campo e depredaram o estádio Couto Pereira. O Santos, por sua vez, terminou a rodada em décimo primeiro e o campeonato em décimo segundo lugar, sendo o começo de uma geração vencedora, que teria o auge em 2011 no título da Libertadores, justamente com Neymar e Ganso em evidência.

Quem estava no Coritiba x Santos afirma que já era possível ver que os jovens jogadores tinham algo diferente. “O Ganso já dava pra ver que era um jogador maduro, diferenciado, diferente do Neymar, que nesse jogo entrou no segundo tempo. Ainda era um menino, a gente nem tinha noção no que ele ia se tornar” conclui Bruno Batata, que viu os dois direto do campo. “O técnico, Luxemburgo, tava soltando ele (Neymar) aos poucos, molecão, já tava entrando e fazia aquele salseiro na equipe do Santos” recorda Abelardo sobre Neymar, que desde muito novo já chamava as jogadas para ele. 


A atenção com Neymar, principalmente, era tanta, que Abelardo guarda até hoje fotos daquela partida, entrevistando o jovem craque, e diz que lembrará do curioso episódio para o restante da vida. “Eu posso contar pros meus netos, pros meus bisnetos. A gente acredita que ficou pra história. Um dia, sentado na praça, jogando bingo ou jogando o truco, eu vou dizer assim, ‘pô, aquele jogo das máscaras eu tava lá e transmiti’”.



FICHA TÉCNICA
Local: Estádio Olímpico Regional, Cascavel (PR)
Data: 5 de agosto de 2009, quarta-feira
Horário: 21h50 (de Brasília)
Árbitro: Sandro Meira Ricci (DF)
Assistentes: Marrubson Melo Freitas e Enio Ferreira de Carvalho (ambos do DF)

Cartões amarelos: Dirceu, Cleiton e Pedro Ken (Coritiba); Róbson (Santos)
Cartão vermelho: Róbson (Santos)

GOL: SANTOS: Paulo Henrique Lima, aos 20 minutos do primeiro tempo

CORITIBA: Edson Bastos; Márcio Gabriel (Cleiton), Dirceu, Demerson e Carlinhos Paraíba; Pedro Ken, Jaílton, Leandro Donizete e Marcelinho Paraíba (Renatinho); Leozinho (Thiago Gentil) e Bruno Batata
Técnico: Ney Franco

SANTOS: Felipe; Pará, Fabão, Eli Sabiá e Léo; Rodrigo Mancha, Rodrigo Souto, Madson (Róbson) e Paulo Henrique Lima (Wágner Diniz); Felipe Azevedo (Neymar) e Kléber Pereira
Técnico: Vanderley Luxemburgo

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Fotos: Reprodução/Internet e Acervo pessoal/Antonio Abelardo.



Na madrugada do dia 5 de março de 1918, o silêncio da noite foi quebrado por um estampido vindo do interior do estádio Gran Parque Central, em Montevidéu. Horas depois, Severino Castillo, o zelador do campo, acordou, tomou seu chimarrão para espantar o frio, e botou suas luvas antes de partir rumo ao gramado do Parque Central acompanhado de seu fiel cão. Andava de cabeça baixa quando avistou algo estranho. Seu coração já sentia a tragédia. Ao chegar ao meio de campo, encontrou o corpo de um homem que havia ajudado a mudar a história do Nacional e daquele estádio. Abdón Porte, capitão tricolor durante sete anos, havia se matado com um tiro no coração e caído no mesmo círculo central em que anos mais tarde seria dado o primeiro pontapé da história das Copas do Mundo. Era o fim de uma história de paixão e suor eternizada em uma das tribunas de honra da acanhada casa do Decano.

Voltamos então para 1893. Este foi o ano de nascimento de Porte, no departamento de Durazno. Em 1908, aos 15 anos, desembarcou na capital uruguaia. Em 1910, começou a jogar no pequeno Colón e depois passou pelo já extinto Libertad. Chegou ao Nacional em 1911, graças à democratização pela qual o clube passou, apoiada pelo presidente José Maria Delgado, que permitia o ingresso ao clube de pessoas de todas as classes. Fez sua estreia em 12 de março contra o Club Dublin. Era um centro-médio vigoroso, bom no jogo aéreo, do tipo que a América do Sul criaria aos montes com o passar dos anos. Pela garra, recebeu o apelido de El Indio. Foi capitão por inúmeras vezes e conquistou 19 títulos pelo Nacional: 4 campeonatos uruguaios, 5 Copas de Honra, 4 Copas Competencia, 1 Copa Aldao, 2 Copas Competencia Chevallier Boutell e 3 Copas de Honra Cousenier. Esteve na delegação uruguaia no título do Sul-Americano de 1917, a primeira edição da atual Copa América. Um de seus maiores orgulhos era jamais ter perdido para o CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club), grande rival da época.

Porte tinha uma visão parecida com a de muitos de nós. Sem futebol e sem seu clube do coração, não havia porque viver. "O dia em que eu não puder mais jogar futebol, me dou um tiro", costumava dizer. Em 1917, depois de vencer a Copa Uruguaya de Propiedad, uma de suas maiores glórias, o futebol físico de Porte começou a cair de desempenho, sendo relegado aos poucos para a reserva de Alfredo Zibecchi, algo inaceitável para ele. No dia 4 de março, ajudou o Nacional a vencer o Charley por 3 a 1, e comemorou junto aos companheiros até a noite. Por volta de uma hora da madrugada, se despediu de todos dizendo que iria pegar o trem. Mudou de ideia. Afundado em depressão reforçada pela morte recente de seus dois irmãos, Bolívar e Carlos, vítimas de varíola, El Indio decidiu não mais fazer parte deste mundo. Caminhou até o círculo central, como se fosse dar a saída de jogo da vida. Com um único tiro no próprio peito, Porte, então com apenas 25 anos, entrou para a eternidade do Club Nacional, camisa que vestiu por 207 vezes. Dentro de um chapéu de palha, uma carta destinada ao presidente José Maria Delgado, responsável por sua chegada ao Bolso: "Querido Doctor José María Delgado. Le pido a usted y demás compañeros de Comisión que hagan por mí como yo hice por ustedes: hagan por mi familia y por mi querida madre. Adiós querido amigo de la vida".

Logo abaixo da assinatura, versos que representavam toda a paixão e loucura de Porte

Nacional aunque en polvo convertido
y en polvo siempre amante.
No olvidaré un instante
lo mucho que te he querido.
Adiós para siempre

O bangue-bangue uruguaio
Um pouco menos de dois anos depois da trágica despedida de Porte, uma história ainda mais extraordinária aconteceu no mesmo trecho de campo do Gran Parque Central. Em 2 de abril de 1920, o jornalista, escritor e político Washington Beltrán Barbat, trava um duelo digno de Velho Oeste contra ninguém mais ninguém menos que um ex-presidente uruguaio, o também jornalista José Batlle y Ordoñez. O antigo mandatário máximo do país desafiou Beltrán por conta de um artigo escrito no dia anterior. Orgulhoso, o jornalista aceitou o desafio. Beltrán tinha 35 anos contra incríveis 63 do presidente, que se mostrou um exímio atirador, e assassinou o desafeto com um tiro na axila. Batlle y Ordoñez morreria dez anos depois, durante uma cirurgia em razão de um tromboembolismo pulmonar.

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Texto publicado originalmente em 11 de março de 2015 no blog Escrevendo Futebol, e editado em 5 de julho de 2019.


A data de fundação do São Paulo Futebol Clube é, oficialmente, 25 de janeiro de 1930. Por muitos anos, o início da história do tricolor paulista era datado como sendo o dia 16 de dezembro de 1935. A controvérsia se dava por conta da polêmica extinção do departamento de futebol do São Paulo em 1935, que foi refundado no fim daquele mesmo ano por membros da equipe tricolor contrários à fusão ocorrida com o Clube de Regatas Tietê. Sempre houve muita discussão em torno desse assunto, mas o fato é que uma parte considerável das gestões do São Paulo e também da torcida tricolor, sempre considerou que o time conhecido como São Paulo da Floresta (nascido da união entre Paulistano e Associação Atlética das Palmeiras) é parte indissociável do São Paulo atual. Tanto que em 2015, o estatuto do clube foi alterado, retirando o destaque dado à refundação do tricolor e confirmando o ano de 1930 como o de fundação.

A não oficialidade anterior, porém, nunca impediu que o clube celebrasse a história e as conquistas do São Paulo da Floresta. Em janeiro de 2000, por exemplo, na ocasião dos 70 anos de nascimento do São Paulo, foi organizado o Torneio Constantino Cury. A competição amistosa de pré-temporada fez parte de uma série de festividades e homenagens: primeiramente, pelo nome, referente ao empresário Constantino Cury, histórico dirigente tricolor, que havia falecido em julho de 99. Além disso, janeiro marcava os 70 anos do nascimento do São Paulo e no final do ano 2000, o futebol do Clube Athletico Paulistano completaria cem anos, caso não tivesse encerrado suas atividades em 1929.

Entre o final do século XX e o início do terceiro milênio, ainda eram comuns os torneios amistosos em comemoração a algo ou alguém, ou apenas como preparação no início de uma temporada. E essas competições sempre colocaram à prova jogos inimagináveis nos tempos de hoje. No Torneio Constantino Cury participaram: São Paulo, Avaí, a Seleção Nacional do Haiti, e o Uralan Elista, da Rússia. 

Homenagem ao Paulistano 

O técnico do São Paulo na ocasião era Levir Culpi. O curitibano vinha de um biênio de destaque no Cruzeiro, mas sem grandes títulos. E logo na chegada ao Morumbi, o técnico foi obrigado a levar a equipe a campo sem sequer ter completado uma semana de trabalho. E ainda por cima, sem ter sido atendido pela diretoria são paulina em relação a reforços. ‘O começo está sendo diferente do que eu pensava, mas essas são as dificuldades de início de trabalho, e tivemos que nos adaptar”, disse à época. Para a primeira partida, contra o Avaí, o treinador lançaria como titular os jogadores Raí, ídolo tricolor, e Evair, principal reforço para a temporada. 

O jogo de estreia, no dia 15 de janeiro, também teria uma bonita homenagem ao Paulistano, um dos times que deram origem ao São Paulo. A equipe paulista jogaria o primeiro tempo da partida com um uniforme inspirado nas vestimentas dos primeiros anos de futebol, com o escudo do clube que é até hoje, tirando os quatro grandes do estado de São Paulo, o maior campeão paulista da história, com onze conquistas.

Em campo, e devidamente trajados com o uniforme retrô do Paulistano, o São Paulo abriu dois a zero na primeira etapa, com gols de Marcelinho Paraíba, chutando de fora da área com o pé esquerdo, e Raí, tocando por cobertura sobre o goleiro. Evair ainda perdeu um pênalti. No segundo tempo, o Avaí reagiu e empatou com dois gols do ainda jovem Marquinhos. Mas o zagueiro Wilson salvou o dia tricolor desempatando a partida com um forte cabeceio após tiro de canto. O São Paulo estava na decisão do Torneio Constantino Cury.

Os times jogaram com as seguintes formações:

São Paulo: Rogério Luís Paulo (Carlos Miguel), Paulão (Rogério Pinheiro), Wilson e Ricardinho; Edmílson, Vágner (Alexandre), Raí (Souza) e Marcelinho; França e Evair (Jaques). Técnico: Levir Culpi. 
Avaí: Fabiano; Flavinho, Marcelo, Sérgio Andrade e Biro; Luís Fernando, Edson Garcia (Douglas), Marquinhos e Fantik (Vinícius); Dão e Missinho (Renatinho). Técnico Evandro Guimarães.


Jogos de futebol que incrivelmente já aconteceram: Uralan Elista x Haiti 

Poucos jogos são tão aleatórios e obscuros quanto a semifinal do Torneio Constantino Cury disputada no Morumbi entre os russos do Uralan Elista, sétimo colocado do campeonato russo de 1999 e a seleção nacional do Haiti. Não há - ou ao menos não pude encontrar - registros fotográficos ou em vídeo da vitória russa por 3 a 1, ocorrida no mesmo dia que São Paulo x Avaí. Com alguns brasileiros no elenco, entre eles o ex-tricolor Cassiano, o Uralan veio passar uma curta pré-temporada no país. Antes do torneio no Morumbi, a equipe havia vencido por 2 a 0 o Independente de Limeira, clube que havia negociado os jogadores Mila e Junior com os russos. Contra o Haiti, o brasileiro Brener, emprestado pelo Vasco, abriu o placar, e Dancenko marcou outras duas vezes. O nome do autor do gol haitiano é desconhecido. Depois da competição, o Uralan ainda perderia para o Bragantino por 2 a 1. 

A final

A decisão do torneio de verão teve o script esperado. Na segunda-feira, 17, o São Paulo enfrentaria um adversário de qualidade duvidosa e levantaria o primeiro troféu da temporada. Mas antes de a bola rolar para a final, houve a disputa de terceiro lugar entre Avaí e Haiti como preliminar. Embora os registros sejam tão raros quanto os do jogo anterior, é possível afirmar que a partida foi um bom espetáculo para se assistir. Com apenas cinco minutos, Missinho abriu o placar para o time brasileiro. Menelas empatou logo em seguida, e no segundo tempo, aos 13 minutos, Pierre virou para os haitianos. Renatinho voltou a empatar aos 38 minutos, e nos acréscimos, Dão deu a vitória ao Avaí. 

Em seguida, aconteceu o duelo entre São Paulo e Uralan. Em detalhes bem notados pela reportagem de César Augusto, da Rede Globo, os uniformes do time russo eram um pouco improvisados. O goleiro não tinha número, o jogador que usava a camisa 7 passou a ser o 2 e outros remendos foram utilizados no curioso fardamento auriazul. 

Apesar de frágil, o Uralan segurou bem o São Paulo, que só marcou o primeiro gol aos 30 minutos, em um belo chute de primeira de Edmilson, após cruzamento de Marcelinho Paraíba. Sete minutos depois, França ampliou de fora da área. No segundo tempo, com apenas dois minutos, os russos diminuíram o placar, com o ucraniano Semochko chutando cruzado. A partir daí, o Uralan chegou a pressionar, exigindo boas defesas de Rogério Ceni. Muito superior tecnicamente, porém, o São Paulo não demorou a transformar o jogo equilibrado em goleada. Raí marcou o terceiro aos 9 minutos, em falha do goleiro Lutsenko. 

O quarto gol tricolor merece um breve parágrafo à parte. De falta, aos 33 minutos, Rogério Ceni marcou um bonito gol. Doze anos depois, o goleiro-artilheiro fazia o seu centésimo gol na carreira em clássico contra o Corinthians. Para a FIFA e para entidades estatísticas como a IFFHS, este não poderia ser o centésimo gol de Rogério, pois gols em amistosos não entrariam na conta. Azar dos números. 

Voltando a 2000, ainda deu tempo para Souza deixar o seu e fechar a conta em 5 a 1 para o São Paulo. De forma burocrática e nada convencional, o troféu foi entregue no camarote da presidência. Quando os jogadores voltaram ao gramado para “comemorar”, já não havia mais torcedores no estádio. E é aí que a reportagem global mais uma vez nos apresenta um episódio ímpar. O zagueiro Paulão, o popular Paulão “Desmaio”, com o troféu Constantino Cury nas mãos, diz a um companheiro: “Levar pra casa isso aqui, os caras não vão achar mais nunca”. 

São Paulo e Uralan jogaram com as seguintes formações:

São Paulo: Rogério; Luis Paulo (Alexandre), Paulão (Pinheiro), Wilson, Ricardinho, Edmilson, Vágner (Sidnei), Raí (Carlos Miguel), Marcelinho Paraíba, França, Evair (Souza 68''). Técnico: Levir Culpi.
Uralan: Lutsenko; Terechtchenko, Chichine, Jarinov, Zub (Mila), Voskanian, Mikalalunas, Gaidamascluk (Arechnikon), Cassiano (Galloian), Semotchco, Brener (Régis). Técnico: Averianov.


Desdobramentos

Depois da disputa do Torneio Constantino Cury, as equipes participantes não tiveram um bom ano. O São Paulo de Levir Culpi fez uma temporada em que a equipe chegou longe em quase todos os campeonatos que disputou, mas levantou apenas mais um troféu, o de campeão paulista. Nas demais competições, derrotas traumáticas, como na final da Copa do Brasil frente ao Cruzeiro e as eliminações para Vasco e Palmeiras, no Rio-São Paulo e no Campeonato Brasileiro. O Avaí teve um ano para esquecer, terminando em 15º no Módulo Amarelo da Copa João Havelange e sendo apenas o quinto colocado no catarinense. Em relação ao Haiti, é difícil saber se o elenco era formado por jogadores da seleção principal, mas em 2000, o país passou da fase qualificatória na Copa Ouro, e acabou eliminado na primeira fase, em um triangular com Estados Unidos e Peru. 

Já o Uralan Elista é o que teve o pior destino. A equipe fundada em 1958 havia sido promovida à elite russa em 1997, e no final de 2000 acabou sendo rebaixada. Figurinha carimbada na segunda divisão russa nos anos 90, o Uralan Elista representava uma área curiosa do país. Elista, atualmente com cerca de 100 mil habitantes (de origem étnica mongol), é a capital da Calmúquia, uma das unidades federativas da Rússia e que é a única região da Europa predominantemente budista. O atual dirigente de Calmúquia é o excêntrico Kirsan Nikolayevich Ilyumjinov, um milionário adepto do xadrez e da ufologia, e que presidiu justamente o Uralan/FC Elista. O clube voltaria à elite já na temporada seguinte, mas em 2003 voltou a cair, desta vez para nunca mais voltar. Endividado, em 2005 o Uralan foi refundado como FC Elista, mas os problemas financeiros persistiram até uma nova falência em 2006. Em 2014, houve uma nova tentativa de volta, que não durou sequer um ano, e em 2015, a equipe novamente encerrou suas atividades. 

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Sempre quando se fala na origem do futebol, é quase que obrigatório contextualizar seus esportes predecessores. Essa ancestralidade do esporte tem início na dinastia Huang-Ti, na China, há 3.000 mil anos a.C. chamado de  tsu-chu, e passa por outros similares chineses, gregos ( como o Epyskiros), pelo império Maia, pela França (Soule), pela Itália (com o tradicional Calcio Fiorentino, que deu origem ao termo Calcio, para o futebol na Itália) e pela Inglaterra, com o Football, que nasceu nas ruas, se tornando um distúrbio social, tendo que ser controlado pelas autoridades. Popular desde suas remotas origens, o esporte foi tomando forma aos poucos na segunda metade do século XIX, pelas mãos de intelectuais das inúmeras universidades locais. Porém, as regras do esporte variavam de lugar para lugar. Aos poucos, os regulamentos foram sendo unificados. As duas principais variações do jogo seguiam as Regras de Cambridge e as Regras de Sheffield.

Cambridge praticava o futebol desde meados de 1579. Mas foi em 1848 que o esporte deu um novo passo. Os estudantes Herry de Winton e John Charles Thring reuniram representantes de outras escolas para a definição de um único conjunto de regras (que além de ter influenciado o futebol, contribuiu para a constituição das regras do futebol australiano). Após oito horas de conversa, eles chegaram a um consenso. E a influência nas Regras do Jogo, criados em 1863, são claríssimas, como a inclusão de tiros de meta, laterais, e passes para frente, até então proibidos. As mãos ainda tinham permissão para serem usadas durante o jogo. Não existe nenhuma cópia do texto original, mas há na biblioteca de Shrewsbury, uma edição revisada datada de 1856. Em 1862, Thring lançou um novo conjunto de regras, mais simplificado. As primeiras partidas sob estas regras foram disputadas no Parker's Piece, uma grande área gramada próximo ao centro de Cambridge.

Além do código de Cambridge, os precursores do futebol se inspiraram também no conjunto de regras de Sheffield. A partir de 1855, membros do Sheffield Cricket Club passaram a praticar jogos de bola sem regras fixas. Dois anos depois, no dia 24 de outubro, Nathaniel Creswick e William Prest fundaram o Sheffield Football Club, reconhecidamente o clube mais antigo do mundo. Junto da instituição, foram criadas regras próprias que também deixaram seu legado ao futebol atual. Os travessões que unem as duas traves, os escanteios, as faltas e os primeiros sistemas de desempate (que incluíam prorrogações e gols de ouro) foram algumas das regras posteriormente perpetuadas. No primeiro torneio da história do esporte, a Copa Tommy Youdan, foi utilizada estas regras. A segunda competição mais antiga do mundo, a Copa Oliver Cromwell, foi decidida num gol de ouro em favor do The Wednesday, após empate sem gols diante do Garrick.

A Football Association

Ebenezer Cobb Morley pode ser considerado um dos pais do futebol "moderno". Em 1862, ele já havia fundado o Barnes FC, e no ano seguinte, foi um dos responsáveis por fundar a Football Association e unificar as regras de Cambridge e Sheffield. Morley era um advogado e liderou a reunião na Freemasons' Tavern. Numa segunda-feira à noite, em 26 de outubro de 1863, capitães, secretários e representantes de doze clubes de Londres se reuniram "com a finalidade de formar uma associação com o objetivo de estabelecer um código definido de regras para a regulação do jogo". Os clubes representados foram: Barnes, War Office (atual Civil Service FC, e único clube-fundador ainda existente), Crusaders, Forest (Leytonstone), No Names (Kilburn), Crystal Palace (sem nenhuma relação com a atual equipe), Blackheath (posteriormente dissidente, e que contribuiu com a criação do Rugby), Kensington School, Perceval House (Blackheath), Surbiton, Blackheath Proprietory School and Charterhouse. Durante os meses seguintes, foram feitas outras reuniões que formataram a fundação da Football Association, entidade que regula o futebol na Inglaterra, e o conjunto de regras a ser usado. O primeiro presidente da FA foi Arthur Pembe e Ebenezer Morley assumiu como secretário. Anos depois, em 1878, se deu a unificação definitiva das regras, e posteriormente, foi criada a International Football Association Board, que passou a ser a entidade que rege as regras do futebol até hoje.

O primeiro clube

Antes mesmo da definição das regras, como dissemos, nasceu o primeiro clube para a prática do futebol: o Sheffield Football Club, fundado em 24 de outubro de 1857 por Nathaniel Creswick e William Prest. Há certa controvérsia nisso, afinal, junto da criação das regras de Cambridge, foi fundado o Cambridge University Association Football Club, mas é o Sheffield que é reconhecidamente o clube mais antigo de todos. É ao lado do todo poderoso Real Madrid o único clube a receber a Ordem de Mérito da FIFA.

A sala de troféus do Sheffield é modesta. Mas o que não falta ao pequeno clube é história. O Sheffield também é o time que possui a rivalidade mais antiga da história, com o Hallam Football Club. A primeira partida entre os dois aconteceu em 1860, no Sandygate Road, e o Sheffield conquistou a vitória por 2 a 0.  Em compensação, o Hallam deu o troco vencendo a primeira competição.

O primeiro torneio


A competição mais antiga de todas foi a Youdan Cup. Disputada por 12 clubes, foi patrocinada pelo dono de teatro Thomas Youdan, que também cedeu o troféu. Foram três fases de mata-mata e posteriormente um triangular final. O vencedor foi o Hallam FC, que venceu o Norfolk no jogo final por 2 a 1, no Bramall Lane, estádio do rival Sheffield.

A primeira FA Cup

A Copa da Inglaterra foi criada por Charles W. Alcock, que por ter criado a FA Cup, é considerado o pai do mata-mata. A primeira edição da competição foi na temporada 1871-72 e foi vencida pelo Wanderers FC, que bateu o Royal Engineers por 1 a 0, tento marcado por Morton Betts. O duelo aconteceu no Kennington Oval. Diferente da grandiosidade atual, onde uma infinidade de clubes disputa o charmoso torneio, houve apenas 15 clubes participantes. De lá para cá, a FA Cup jamais foi interrompida, e é uma das taças mais cobiçadas da Inglaterra.

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Texto originalmente postado em 1º de março de 2015 no blog Escrevendo Futebol e editado em 8 de junho de 2019.