Nós, brasileiros, estamos acostumados às bizarrices que a cartolagem do futebol nacional criou ao longo dos anos. Mas talvez, nada seja mais surpreendente e inexplicável do que a Copa João Havelange. É difícil de entender até mesmo para quem viveu de perto aquela competição, que oficialmente, foi o Campeonato Brasileiro de 2000. Mas é curioso como consequências possuem causas tão distantes entre si. Tudo começou em 1999, com a adesão absurda do sistema de promédios para o rebaixamento daquele ano. E você vai conhecer todos os detalhes da Copa João Havelange, nesta reportagem especial.

O promédio brasuca

Se há algo que jamais teve sentido algum em se realizar num campeonato com acesso e descenso, é o chamado promédio. Utilizado em alguns países latinos, é muito difundido na Argentina. O promédio argentino consiste em somar todos os pontos das últimas três temporadas e dividi-los pelo número de jogos que a equipe fez nestes campeonatos. Os clubes com as piores médias desse índice são rebaixados diretamente. Esse método é usualmente associado à proteção dos clubes grandes, embora recentemente tenhamos visto casos como o do River Plate. Em 99, essa ideia passou a vigorar no Brasileirão.

Só para termos uma ideia de quão estranho é esse tipo de regulamento, o Gama, um dos rebaixados, terminou a competição em 15º, com 26 pontos, 9 acima do lanterna, Sport, que NÃO caiu. Mas vamos explicar o método utilizado pela CBF. Como o número de jogos da primeira fase diminuiu de 23, do ano anterior, para 21 partidas, a fórmula para o cálculo era a seguinte:

Média de pontos = pontuação de 1998 ÷ 23 (jogos) + pontuação de 1999 ÷ 21 (jogos) ÷ 2 (temporadas)

Sim, amigos. Não bastava bons jogadores e um grande treinador. Era preciso ter um matemático na comissão técnica da equipe. A fórmula mudava para as equipes recém-promovidas (Gama e Botafogo-SP):

Média de pontos = pontuação de 1999 ÷ 21 (jogos)

Ao término da primeira fase, em novembro, as médias deveriam estar assim (do menor para o maior):

1 - Botafogo-SP: 1,000
2 - Juventude: 1,089
3 - Paraná: 1,093
4 - Botafogo-RJ: 1,178
5 - Internacional: 1,219
6 - Gama: 1,238

Ou seja, Botafogo-SP, Juventude, Paraná e Botafogo-RJ estariam rebaixados para a Série B de 2000. Isso, se em outubro, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva não tivesse tomado uma polêmica decisão que mudaria não só os rumos do campeonato daquele ano, como de todo o futebol brasileiro.

O caso Sandro Hiroshi


Milton Trajano/Placar

No Campeonato Paulista de 99, um jovem atacante despontava para uma promissora carreira. Era Sandro Hiroshi, um tocantinense de traços orientais, que na ocasião, era jogador do Rio Branco de Americana. Na sequência do estadual, foi contratado pelo São Paulo para formar dupla de ataque com França. Foi a partir desta transferência, que os problemas começaram a aparecer. Sandro foi contratado pelo Rio Branco vindo do Tocantinópolis. Com sua ida para o tricolor paulista, o time tocantinense queria parte no valor da negociação, como clube formador. Porém, o Rio Branco alegava ter assinado com o jogador ainda como juvenil. O próprio Sandro Hiroshi afirmou em entrevista à revista Placar que jamais teve vínculo algum com o Tocantinópolis, apesar de ter jogado alguns campeonatos de base. Afirmou que sequer treinava no clube. A batalha judicial fez a CBF bloquear o passe do jogador, não permitindo que ele se transferisse, mas dando o aval para que o mesmo continuasse a jogar, assim como a Federação Paulista de Futebol.

No dia 4 de agosto, na 3 ª rodada do Brasileirão, o São Paulo encaçapou o Botafogo-RJ por 6 a 1. Dias depois, o clube carioca entrou com um pedido de anulação da partida, alegando que o bloqueio tornava o jogador irregular (algo contraditório, afinal, a própria CBF já havia permitido a atuação do atleta). Entretanto, o caso foi julgado pela Justiça Desportiva apenas em 19 de outubro. A decisão da Comissão Disciplinar foi favorável ao Glorioso, atribuindo-lhe os três pontos daquela partida, e retirando o mesmo número de pontos do São Paulo. O tricolor ainda tentou recorrer alegando que outros atletas de outras equipes também estavam com o passe bloqueado, e jogando normalmente. O argumento foi ignorado e a decisão foi mantida.


Jornal do Brasil - 19/10/99

Depois, o Internacional, com chances reais de rebaixamento, viu no imbróglio uma brecha, e também buscou recuperar os pontos do empate com o São Paulo. E conseguiu. Ganhou 2 pontos sem nenhuma justificativa. Curioso notar que Sandro Hiroshi atuou por 16 partidas durante o torneio (e marcou apenas um gol, justamente contra o Botafogo). Se o São Paulo fosse punido de maneira equivalente aos dois primeiros casos, fatalmente terminaria rebaixado. Caso o tricolor não tivesse sido julgado, e seus pontos não tivessem sido transferidos, o Botafogo teria sido rebaixado no lugar do Gama e o Inter seria mantido na elite. Em uma segunda hipótese, se apenas o Glorioso tivesse ganho estes pontos na justiça, quem sofreria o rebaixamento era o Internacional.

No dia 3 de novembro, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva da CBF condena em definitivo o São Paulo pela escalação do atacante Sandro Hiroshi na vitória sobre o Botafogo-RJ por 6 a 1, e dá os pontos do jogo ao Botafogo, o que causa o rebaixamento do Gama. Antes da decisão, os jogadores do São Paulo chegaram a ensaiar uma greve caso Hiroshi fosse julgado. "Se um presidente que roubou nosso país pode voltar a disputar eleições, porque o Sandro não pode ser perdoado", questionou Raí. Carlos Augusto Montenegro, dirigente do Botafogo, deixou claro como o que acontece dentro de campo no Brasil, pouco vale. "Perdemos no campo de 6, mas aqui ganhamos de 7", em referência aos sete votos a favor do clube carioca.


Documentação apresentada pelo Botafogo.

Documentação apresentada pelo Botafogo
Com a decisão do STJD, o promédio ficou assim:

1 - Botafogo/SP: 1,000
2 - Juventude: 1,089
3 - Paraná: 1,093
4 - Gama: 1,238
5 - Botafogo-RJ: 1,249
6 - Internacional: 1,267

Como era de se esperar, o caso envolveu grande atuação da imprensa. E enquanto se investigava as transferências de Sandro Hiroshi, a Folha de São Paulo publicou uma reportagem em que denunciava que o atacante havia adulterado sua idade, e que jogava desde 1994 com documentação falsa. O popular "gato". Sandro nasceu no dia 19 de novembro de 1979, e quando tinha apenas 14 anos, teve a documentação alterada em 42 dias, modificando o ano de nascimento para 1980. Como o julgamento do caso do bloqueio do passe e a denúncia de adulteração de idade apareceram praticamente juntas, criou-se o mito de que o "gato" teria sido preponderante no desfecho do processo judicial. O atacante foi punido com 180 dias de suspensão, e posteriormente julgado pela Justiça por falsidade ideológica.

O caso teve uma repercussão tão grande, que atravessou fronteiras. Pela Copa Mercosul, o São Paulo empatou com o Boca Juniors por 1 a 1 em  18 setembro de 99. Hiroshi estava no banco durante a partida do Morumbi, e o clube xeneize, eliminado, buscou encontrar irregularidades em outras equipes para tentar uma vaga na fase seguinte da competição, no tapetão. O Boca Juniors terminou a fase de classificaçao do torneio sul-americano com dez pontos, na segunda colocaçao do Grupo C, empatado com o Corinthians, do Grupo B, como terceiro melhor 2º colocado. Ambos tinham o mesmo número de vitórias e saldo de gols. O desempate foi decidido em um sorteio na sede da Conmebol, e o Timão levou a melhor. A CBF enviou para a entidade sul-americana todos os documentos do atleta, garantindo sua regularidade, explicitando a total incoerência nas decisões tomadas durante o Brasileirão. Lembre-se: segundo a documentação apresentada pelo Botafogo, Hiroshi estaria irregular entre os dias 13 de julho e 18 de outubro!

Revoltado, e com certa razão, o Gama resolve melar tudo

Com o rebaixamento decretado, a diretoria do Gama resolveu entrar na Justiça Comum para evitar o descenso. Com ligações importantes com membros da política, o clube candango decidiu enfrentar de peito aberto a CBF. No final de novembro, o PFL-DF (atual DEM) e o Sindicato dos Técnicos do DF, representados pelo então senador pelo PSDB, José Roberto Arruda, entram na Justiça Comum, que concede liminar garantindo o Gama na série A. Esse foi o pontapé de um dos maiores imbróglios jurídicos da história do esporte.

No início de fevereiro de 2000, o Tribunal Regional Federal-DF nega recurso do Botafogo para cassar a liminar que mantinha o Gama na série A. No final do mês, foi a vez da CBF ter recurso negado pela segunda Turma do TRF-DF, desta vez pela liminar que garantia o Gama na Copa do Brasil. A entidade máxima do futebol brasileiro seguiu sofrendo derrotas nos tribunais. Em março, o Tribunal Federal de Recursos do DF rejeita recursos da CBF contra as duas liminares anteriormente descritas.

Com um desfecho imprevisível, os times grandes do país começam a se articular. No dia 8 de maio, o Clube dos 13 define que iria criar uma liga, sem o Gama. A ideia era assumir de vez o controle do futebol brasileiro. A CBF sinaliza apoio. Na época, o presidente do Gama, Agrício Braga Filho declarou em entrevista: "Estamos em contato com a CBF, a Federação Carioca e o Botafogo em busca do consenso. Nossa proposta é um brasileiro com 21 clubes". No dia 31, nova derrota da CBF, com recurso negado pelo Superior Tribunal de Justiça.

Nisso, já haviam se passados 6 meses do ano, e nada havia sido resolvido. A FIFA resolveu intervir, inclusive ameaçando a CBF de suspensão em caso de não resolução do problema. Mas a Justiça ainda não tinha julgado o caso em todas as instâncias, o que impedia a entidade de realizar o Campeonato Nacional de 2000. A solução encontrada pelo então presidente Ricardo Teixeira, foi entrar em acordo com o Clube dos 13. Dessa maneira, o grupo dos grandes clubes brasileiros organizaria um torneio com a chancela da CBF chamado Copa João Havelange em homenagem ao ex-presidente da FIFA. Isso, claro, sem o Gama. A FIFA havia punido o Gama no fim de junho, suspendendo o clube, por não aceitar que os clubes ingressem na Justiça Comum. No final das contas, a entidade máxima do futebol recuou. Mas o clube brasiliense insistiu em lutar por seu direito de jogar, e em 10 de julho foi incluído via liminar no novo Brasileirão. CBF e Clube dos 13 tentaram reverter a decisão em novo recurso no TRF-DF, mas não obtiveram êxito.

A Copa João Havelange

Finalmente, no dia 20 de julho de 2000, CBF, Clube dos 13 e Gama entram em um acordo e definem que a primeira divisão nacional contaria com 25 clubes, incluindo o Gama, o Fluminense (campeão da série C, gerando assim o famoso bordão "Pague a série B", utilizado por torcedores rivais), o Bahia e o América-MG (ambos eliminados da série B nacional do ano anterior) e o Juventude (rebaixado à série B em 99). Assim como na famosa Copa União de 87, foi feito um acordo elitista, direcionado e sem nenhum critério técnico, o que obviamente desencadearia uma nova guerra de liminares.

Assim, ficou decidido que as três divisões nacionais seriam unificadas em um único torneio, dividida em quatro módulos diferentes. Cada módulo tinha um regulamento e número de participantes diferente entre si. Entretanto, todos os clubes de todos os módulos tinham chance de se tornarem campeões nacionais, graças ao cruzamento destes módulos na fase final. É importante destacar que oficialmente não existiram séries B e C no ano de 2000, embora as divisões da pirâmide do ano de 99 tenha definido indiretamente os participantes de 2000 e o resultado final de 2000 tenha sido determinante na definição do Campeonato Brasileiro de 2001, já restabelecido. Ou seja, não é absurdo nenhum que Paraná Clube e Malutrom sejam considerados campeões da série B e C do Brasileirão, respectivamente, mesmo que, oficialmente, não seja assim.

O Módulo Azul seria o equivalente a Série A e foi formado pelos 20 clubes que ficariam na primeira divisão do ano anterior, e os cinco clubes repescados, como citado anteriormente: Gama, Fluminense, Bahia, América-MG e Juventude. O Módulo equivalente a série B foi formado por 36 clubes, os 15 que deveriam estar na série B normalmente, mais outras 21 equipes convidadas com o aval da CBF. A terceira divisão nacional foi dividida em duas. No Módulo Verde eram 28 clubes, e no Módulo Branco outros 27.

Os cruzamentos

Qualquer semelhança com a Copa União de 87 não é mera coincidência. O Clube dos 13, que naquela ocasião era permanentemente contra o cruzamento entre os módulos, em 2000 se mostrou ser tão desorganizada quanto a CBF. Sem ter o poder de definir os acessos e descensos, foi instituído que todos os times dos quatro módulos tinham chances de serem campeões brasileiros de 2000, mesmo que na teoria, estivessem em divisões diferentes, algo corroborado na distribuição de vagas realizada para o Brasileirão de 2001 (como você verá ainda neste texto).

Para a fase final, ficou definido que disputariam os 12 primeiros do Módulo Azul, os 3 primeiros do Módulo Amarelo (Paraná, São Caetano e Remo), e o campeão do Módulo Verde e Branco (Malutrom). Já nas oitavas, Malutrom e Remo foram eliminados por Cruzeiro e Sport, respectivamente. Enquanto o Paraná passava pelo Goiás e o Azulão, comandado por Jair Picerni, surpreendia o Fluminense. "É óbvio que todo mundo disputa pensando em chegar a uma final. Mas a gente só foi crer que podia chegar quando a gente eliminou o Fluminense no primeiro mata-mata. Foi aí que a gente começou a fomentar aquela situação de poder chegar a final do Campeonato Brasileiro" disse o atacante Adhemar, com exclusividade para a  nossa reportagem. O jogador desembarcou em São Caetano do Sul no final de 96, viu o time quase cair para a quarta divisão paulista, e foi um dos líderes da equipe, ajudando o clube a sair da série A-3 do Campeonato Paulista para a elite do Brasileirão.

Nas quartas-de-final, o tricolor da Vila Capanema caiu diante do Vasco em duas partidas muito polêmicas. Do outro lado da chave, o São Caetano eliminava mais um gigante do futebol brasileiro, o Palmeiras, em duas partidas eletrizantes e com muitos gols. Nas semifinais, o Vasco, liderado pela dupla de ataque formada por Romário e Euller, passou pelo Cruzeiro, a equipe com a melhor campanha até então. E olha, que não faltou turbulência nos bastidores do Vasco. Após o empate no jogo de ida, o técnico Oswaldo de Oliveira deu folga ao elenco. Ainda nos vestiários do Mineirão, Eurico contraria o treinador e muda a programação, alegando que a folga atrapalharia a concentração do time para a final da Copa Mercosul diante do Palmeiras, dali a quatro dias. Nesse cabo de guerra, estourou o lado mais frágil. Oswaldo foi demitido, e Joel Santana assumiu a nau vascaína, garantindo o título da competição continental e a vaga na final do Brasileirão.

No meio de tudo isso, o São Caetano já tinha se tornado o novo xodó do torcedor brasileiro. Ninguém esperava uma nova surpresa, mas Adhemar estava endiabrado, e nos dois jogos eliminatórios diante do Grêmio, marcou três gols essenciais para a classificação de uma das maiores zebras da história do futebol nacional. "A cumplicidade que cada jogador tinha com seu companheiro... Éramos uma família. às vezes íamos em três ou quatro famílias pro shopping, pessoal ia brincar com os filhos, as mulheres iam passear. E isso fez com que cada um se doasse um pouquinho mais dentro de campo", respondeu Adhemar ao ser perguntado sobre o segredo daquele elenco do São Caetano.

A final emocionante e trágica

Os jogos da final ficaram marcados para os dias 27 e 30 de dezembro. De um lado, um Golias do futebol nacional. Do outro, um surpreendente Davi. O jogo de ida aconteceu no Palestra Itália, estádio do Palmeiras. Sem favoritismo, o São Caetano aproveitou o desfalque de Juninho Pernambucano e se lançou ao ataque. Wagner pela esquerda toca para dentro da área, e César manda um forte chute de canhota para abrir a contagem. A pressão seguiu e Hélton ia segurando o time do São Caetano do jeito que dava. Mas aos 27 minutos, a bola chega nos pés de ninguém menos que Romário. Dentro da área. Ali, fica difícil, e o Baixinho deixa tudo igual. Na segunda etapa, o Azulão atacou o Vasco de tudo que é maneira. Foi parado pela trave, por Hélton em noite iluminada, e por um pênalti de Odvan em Wagner, não marcado por Carlos Eugênio Simon.

"Foram várias chances, bola no travessão, bola na trave, bola que passou raspando, bola que o Hélton pegou. Naquela partida eu fiz o meu melhor. A gente sabia que o Vasco tinha uma excelente equipe. Pra resumir, o resultado não foi justo pelo número de finalizações que tivemos, mas o Vasco tinha o Romário, né?", destacou Adhemar.

Para o jogo da volta, em um belo e ensolarado sábado, o Vasco tinha a vantagem do empate sem gols. E o Azulão, que não tinha nada a perder partiu pra cima do Gigante da Colina. Em 23 minutos, o cenário era favorável ao pequeno clube do ABC Paulista, que já havia carimbado a trave com Adhemar. Romário, sentindo uma fisgada na coxa, deixa o campo para a entrada de Viola. Foi então que a torcida, de maneira literal, veio abaixo. Em uma pequena discussão na arquibancada de São Januário superlotado, o alambrado cedeu, e centenas de torcedores ficaram amontoados à beira do gramado. Mais de 150 feridos, com três deles em estado grave.


Alexandre Battibugli/Placar

"Eu pensei que fosse algo mais suave. Não deu pra ver. A pilha de gente era muito grande. Uma imagem que me marcou muito foi de um pai carregando uma menina, e a menina estava com as costas perfurada e jorrava muito sangue", lembra Adhemar. Enquanto ambulâncias e um helicóptero do Corpo de Bombeiros retiravam as vítimas, discutia-se em campo o prosseguimento da partida. Os jogadores aguardavam o desfecho, atônitos. Eurico Miranda fazia questão de tentar "limpar" o campo de jogo, e declarava a quem quisesse ouvir: "Vamos recomeçar o jogo". O árbitro Oscar Roberto Godói aguardava para tomar a decisão mais sensata. O comando da polícia concordava com o dirigente e então deputado federal. Para os homens da lei, o cancelamento da partida poderia gerar consequências ainda mais trágicas, com uma possível revolta da torcida. Entretanto, o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, ligou pessoalmente ao comandante dos Bombeiros, o coronel Paulo Gomes, e determinou o fim da partida. "É melhor adiar um jogo do que perder uma vida. Imagine uma torcida enfurecida caso o São Caetano fizesse um gol?", declarou o político. Adhemar concordou com o ex-governador e reforçou que encerrar a partida foi a decisão correta: "As duas equipes estariam muito erradas em tentar continuar aquela partida. Sei lá, de repente poderíamos ter ganho ou ter perdido, mas não era o momento pra continuar uma partida".

Indignado, Eurico vociferava contra o governador que chegava de helicóptero ao estádio para assegurar que tudo aconteceria de acordo com sua decisão. E chegou ao ápice da falta de responsabilidade ao ordenar que os jogadores voltassem a campo, pegassem o troféu e fizessem a mais vergonhosa volta olímpica possível. "O Vasco é o legítimo campeão! Tem todos os méritos. Como o 0 a 0 era nosso e o jogo acabou, nada mais natural que a volta olímpica". Sem a mesma tarimba de dirigente de time grande, o vice-presidente do São Caetano, Luiz de Paula, comentava resignado: "Se ele diz que o Vasco é campeão, o São Caetano se contenta com o vice. Vamos comemorar do mesmo jeito". O presidente da Federação Carioca, o folclórico Caixa D'Água, considerava a decisão mais plausível dividir o título de campeão entre as duas equipes. Talvez fosse o final mais coerente com o desastre que foi a Copa João Havelange do começo ao fim. Enquanto isso, nenhum dirigente do Clube dos 13, a entidade organizadora do torneio, deu as caras.


Alexandre Battibugli/Placar

Romário 100% contra um São Caetano meia-bomba

Após o desastre, era hora de decidir o rumo do campeonato. Rapidamente, se espalhou a ideia de dividir o título entre as duas agremiações. Foi preciso que Luiz Zveiter, presidente do STJD na época (AQUELE que anulou 11 jogos no Brasileirão de 2005) assumisse a bronca. Zveiter definiu que uma nova partida seria realizada, dando entrevistas para toda a imprensa. Em suas palavras, "forçamos a decisão que consideramos a mais justa", acatada prontamente pelo Clube dos 13.

Definida a data da final (18 de janeiro), o São Caetano precisava correr para remontar a equipe. Vários jogadores já tinham fechado com outros times ou estavam sem contrato. A presença do craque Adhemar, acertado com o Stuttgart, da Alemanha, foi confirmada poucos dias antes do jogo. "Eu já tinha ido pra Alemanha, já tinha acertado toda minha transferência pro Stuttgart. Alguns outros ja tinham sido negociados. Então foi uma partida diferenciada, com jogadores já pensando nos outros contratos. E é diferente. O cara fala que entra em campo e tá focado na partida. Mas passou a semana inteira discutindo um contrato e na hora do jogo você tem que estar focado. Foi uma coisa que atrapalhou muito. Mas faz parte, isso é o futebol brasileiro e a gente tem de aceitar". O zagueiro Daniel e os reservas Zinho e Leto não tinham contrato até a véspera da finalíssima. Na verdade, não se sabe se foi efetivado algum contrato realmente. Claudecir possuía um pré-contrato com o Palmeiras desde outubro de 2000. Japinha, já negociado com o Bahia, chegou a dizer que o time do ABC era passado. "Disse aquilo antes da decisão do STJD pela realização do terceiro jogo. Não sabia que teria que jogar de novo".

Toda a partida foi realizada às pressas. O Maracanã, em meio a uma de suas muitas reformas, precisou ter a grama plantada a poucos dias da final, ficando rala e cheia de areia. E após a justificável cobertura da imprensa, em especial da Globo, que tratava Eurico como um verdadeiro ditador, o dirigente preparou uma das suas. Sem nenhuma autorização, estampou a logo do SBT, na época principal rival da emissora carioca, na frente e nas costas da camisa vascaína. Segundo o mandatário, tudo não passou de uma homenagem a Sílvio Santos. Ao ser informado do ocorrido, Sílvio, que estava nos EUA pediu: "guarda essa fita que eu quero ver quando chegar".


Com a bola rolando, Juninho Pernambucano colocou o Vasco na frente aos 30 minutos com um chute no ângulo, após receber lindo passe de Romário. Seis minutos depois, Adãozinho arriscou de longe e empatou o jogo para o valente São Caetano. Mas ainda na primeira etapa, nova jogada coletiva do Vasco, que acaba em passe de Juninho Paulista e gol de Jorginho Paulista. No fim do primeiro tempo, Adhemar alertava: "A nossa condição física não é das melhores. Temos que tocar mais a bola e sair conscientemente para o contra-ataque".

Mas não houve reação do Azulão. Aos 8 da segunda etapa, Juninho Paulista encontra Romário na área. Ele vence o zagueiro Serginho e define a partida, e enfim, conquista seu primeiro título brasileiro. O consolo do Azulão foi a calorosa recepção em São Caetano do Sul feita por mais de 7 mil torcedores, que acompanharam a equipe em carreata até o estádio Anacleto Campanella.


A irregularidade do Vasco

Em 25 de julho de 2000, ainda antes do início da competição, o Clube dos 13 anunciou a criação de um Tribunal de Penas para o julgamento de casos de indisciplina. Entretanto, esse órgão foi extinto por pressão do STJD, que considerava que a entidade não tinha a competência para julgar esses casos. Além de todos os problemas flagrantes da final, já descritos anteriormente, a Folha de São Paulo, em reportagem assinada por Fernando Mello no dia 21 de março de 2001, descobriu que o Clube dos 13 encobriu uma irregularidade do lateral-esquerdo Jorginho Paulista, do Vasco da Gama.

O jogador vascaíno atuou em 4 partidas, contra Gama, Goiás, Flamengo e Coritiba, sem estar regularizado, pois a Udinese, clube anterior do lateral, ainda não havia liberado a documentação do jogador, que na época, sofria uma acusação por uso de passaporte falso. Jorginho ainda atuou outras 10 partidas e marcou um dos gols do Vasco na final contra o São Caetano.

Em entrevista à Folha, o presidente do Clube dos 13, Fábio Koff admitiu que a entidade tinha conhecimento da irregularidade: "O que soube, por informações extra-oficiais, é que ele jogou algumas partidas sem estar devidamente regularizado. Mas não sei por quanto tempo isso durou e, se no próprio curso da competição, o Vasco não regularizou sua situação. Não tomamos nenhuma atitude porque não éramos órgão judicante, isso não era competência nossa. Deixamos de sê-lo com a exclusão do Comitê de Penas. Toda a postulação deveria ter sido encaminhada ao TJD. Não éramos nem instância inferior, só podíamos aplicar a suspensão automática em caso de cartões amarelos ou vermelhos. O que recebemos foi um ofício de pessoa física do advogado Paulo Goyaz (vice-presidente do Gama) pedindo a punição ao Vasco também por ofício. Não houve recurso formal de um clube a nós. Houve solicitação de informações, uma consulta. Respondi que o acesso a esta informação deveria ser obtido na CBF. Encaminhamos o caso ao nosso Departamento Jurídico, mas entendemos que o prazo para reclamar, de cinco dias úteis após o jogo, já estava esgotado".

Mas por qual razão outros clubes interessados em uma punição ao Vasco recuariam? Segundo a Folha, por medo de Eurico Miranda, vice-presidente do Clube dos 13, e curiosamente, também um dos pivôs da polêmica da Copa União de 87.

Quem foi o artilheiro?

Em qualquer relato histórico sobre a história do Campeonato Brasileiro, existirão dezenas, ou até centenas de asteriscos. Um deles é em relação ao artilheiro da Copa João Havelange. Parte da imprensa considera apenas os números do Módulo Azul, conferindo a Magno Alves do Fluminense, Dill do Goiás e Romário do Vasco, todos com 20 gols, o título de artilheiro do Brasileirão de 2000. Oficialmente, Adhemar, do São Caetano, é o grande artilheiro por ter marcado 22 gols durante toda a Copa João Havelange - 15 no Módulo Amarelo e incríveis 7 gols na fase final. Porém, a CBF jamais premiou o jogador. "Não ganhei nada! Foi tudo muito conturbado! Não me deram troféu. Eu sou o artilheiro do asterisco. Todo ano que começa o Campeonato Brasileiro meu nome fica lá, aí colocam o Romário, o Dill e o Magno com 20 gols. Aí eu vejo assim: puxa, era tão difícil fazer gol no módulo amarelo, aí a gente passa pro módulo azul e minha média aumentou. A CBF não me deu nem um papelzinho. Aliás, eu gostaria de ser reconhecido nem que fosse com um certificado".


Carlos Moraes/Placar

Os beneficiados e os prejudicados: as consequências para 2001
                                                                                                                     
Em 2001, o futebol brasileiro voltou para as mãos da CBF. O Campeonato Brasileiro começou praticamente do zero, com diversas distorções, apesar de algumas decisões terem sido tomadas através do critério técnico, mesmo que isso não tenha acontecido de forma oficial. Na série A, foram definidos 28 times. Os 25 que disputaram o Módulo Azul (e isso inclui Fluminense, Bahia, América-MG e Juventude), somados ao Paraná e São Caetano (campeão e vice do Módulo Amarelo) e o Botafogo de Ribeirão Preto, um dos rebaixados no Brasileiro de 99, junto com Gama, Juventude e Paraná Clube. Portanto, na prática, Paraná e São Caetano "subiram de divisão" no campo. O Botafogo-SP acabou rebaixado ao Módulo Amarelo mas foi repescado, assim como o Juventude, que sequer teve o rebaixamento concretizado, e o Fluminense, que passou da Série C para a A sem disputar a segunda divisão.

Para a disputa da Série B, também houve confusão e privilégios. O tradicional Nacional de Manaus foi convidado mesmo tendo sido um dos piores times da terceira divisão de 99 e feito péssima campanha na João Havelange, graças ao lobby do senador Gilberto Mestrinho (PMDB-AM). O mesmo ocorreu com a Anapolina, que contou com a ajuda do senador Maguito Vilela (PMDB-GO). O Malutrom foi convidado pelo título no Módulo Verde e Branco. O Brasil de Pelotas, deixado de fora, ainda tentou melar o torneio, mas teve liminar cassada, já com o torneio em andamento. O Remo, 3º colocado do Módulo Amarelo e eliminado nas oitavas-de-finais da Copa João Havelange, não recebeu o privilégio de jogar a Série A, e permaneceu na segunda divisão.

O fim da virada de mesa

É sempre necessário tirar boas lições dos erros. E aparentemente, a elite do futebol brasileiro deixou a "virada de mesa" para trás após a Copa João Havelange. Desde 1971, quando foi instituído o Campeonato Brasileiro, jamais um regulamento foi repetido à risca por dois anos consecutivos. A partir de 2003, o Brasileirão passou a ser disputado através do sistema de pontos corridos, e não possui mudanças no regulamento desde o ano de 2005, quando se estabeleceu o número atual de 20 clubes.

*Para esta reportagem foram consultados os arquivos do Jornal do Brasil, da Folha de São Paulo e da Revista Placar.

Reportagem: Yuri Casari
Colaboração e revisão: André Carlos Zorzi



A cidade de Ardabil, ao norte do Irã, à beira do Mar Cáspio e na divisa com o Azerbaijão, possui uma longa história. É conhecida por ser o local de nascimento do profeta Zaratustra, fundador do zoroatrismo há aproximadamente 3500 anos, uma das primeiras religiões monoteístas da história. O nome da cidade vem do zoroastrismo, e significa algo como local sagrado. Lugar perfeito para o nascimento de um Shahriar (rei). Esse foi o apelido dado para Ali Daei, nascido em Ardabil no dia 21 de março de 1969. Maior jogador da rica história do futebol iraniano, Ali Daei colecionou gols em seus 46 anos de vida.

Daei cresceu em Ardabil e se formou em Engenharia de Materiais na Universidade Tecnológica de Sharif. Estudioso como boa parte da juventude iraniana, tinha o futebol como grande paixão. E seu talento, naturalmente, o levou para um caminho totalmente diferente do que sua graduação poderia indicar.

Desde os 14 anos, jogava pelo Esteghlal Ardabil, e estreou profissionalmente aos 19 anos, em 1988. Chamou a atenção do Taxirani, de Teerã, onde atuou pela temporada de 89-90. No ano seguinte, mais uma transferência, dessa vez para o Bank Tejarat, também do Teerã. Essa fase da carreira de Daei possui poucos registros, e as estatísticas são desconhecidas. Entretanto, foi aí que começou a fazer sua fama como homem-gol. Não à toa, foi convocado pela primeira vez para a seleção em junho de 93.


No mesmo mês, pelas eliminatórias para a Copa de 94, anotou seu primeiro gol pela seleção, na goleada por 6 a 0 sobre o Taiwan. Em 94, acertou com o Persepolis, uma das maiores equipes do país para enfim conquistar seu primeiro título, o campeonato iraniano da temporada 95-96. Em sua primeira passagem pela equipe, assinalou, de acordo com números do site Ogol.com, 25 gols em 44 partidas.


Em 96, pela Copa da Ásia, Daei já tinha 21 gols internacionais. Número expressivo que só aumentou com atuações de gala na principal competição do futebol asiático, sendo o grande nome da equipe que alcançou a terceira posição. Daei marcou um gol em cada uma das três partidas da primeira fase, e reservou o melhor para as quartas-de-finais contra a Coréia do Sul. Vitória de 6 a 2 com quatro gols marcados pelo camisa 10 iraniano. Nas semifinais, entretanto, o Irã empatou sem gols com a Arábia Saudita e acabou eliminado nos pênaltis, com Daei desperdiçando a primeira cobrança iraniana. Na disputa de 3º lugar com o Kuwait, marcou o gol do empate, e viu sua equipe vencer a partida nos pênaltis.

A campanha o levou para o Al Sadd, do Catar, mas o atacante já estava na mira do futebol europeu. Após 10 gols em 16 partidas pelo clube catari, Ali Daei foi contratado, junto com seu companheiro de seleção e também de Persépolis, o meia Karim Bagheri, pelo alemão Arminia Bielefield, que havia acabado de retornar à Bundesliga. No Arminia, foram 26 jogos (25 pela Bundesliga e um amistoso) e 7 gols. Logo em sua segunda partida, contra o Stuttgart, marcou seu primeiro gol. As boas atuações de Daei, entretanto, não impediram o clube de ser rebaixado novamente como lanterna da competição. Mas foram o suficiente para atrair a atenção do maior clube da Alemanha, o Bayern de Munique.


Antes disso, porém, Ali Daei disputaria sua primeira Copa do Mundo. Durante as eliminatórias, havia marcado nove gols, e só não balançou as redes nos dois duelos decisivos com a Austrália, na repescagem, mas foi fundamental para garantir a classificação do Irã para o Mundial da França. A primeira partida, em Teerã, havia terminado em 1 a 1. O segundo jogo, em Melbourne, era vencido pela Austrália por 2 a 0 até os 26 minutos do segundo tempo. Bagheri diminuiu, e apenas quatro minutos depois, após belíssima assistência de Daei, Aziz marcou o gol da classificação. "Aquele 29 de novembro de 97 ainda está em meus sonhos. Foi inacreditável", disse em entrevista ao site da FIFA, em 2007. No Mundial, o Irã acabou eliminado ainda na primeira fase, Daei não marcou gols, mas ao menos, venceram os Estados Unidos em um jogo histórico, com diversas ações de esportividade dos atletas de duas nações que de tempos em tempos vivem tensões políticas.

Com o clube bávaro, assinou um contrato de três anos. Na temporada 98/99, disputou 31 partidas, a grande maioria entrando no meio dos jogos e marcou apenas seis gols, mas conquistou o Campeonato Alemão, a Copa da Liga alemã e viu do banco de reservas o Bayern cair nos minutos finais da final da Liga dos Campeões diante do Manchester United. Aliás, Daei foi o primeiro asiático da história a disputar uma partida da Liga dos Campeões. Vestir a camisa de um gigante e conquistar títulos, mesmo que no banco de reservas, seria suficiente para alguns, mas não para Ali Daei. As poucas oportunidades como titular o incomodavam, e ele resolveu rescindir o contrato e partir para uma nova experiência no futebol alemão.


Em 99/2000, desembarcou em Berlim para fazer parte do elenco do Hertha, que disputaria a Liga dos Campeões. Nos play-offs, diante do cipriota Anorthosis, marcou seu primeiro gol pela competição continental. Mas como se sabe, a UEFA contabiliza apenas os gols da fase de grupos em diante. Não houve problema, afinal, no dia 21 de setembro de 99, Daei marcou os dois gols da vitória do Hertha sobre o Chelsea por 2 a 1. Ainda foi o autor do gol de empate contra o Milan, na semana seguinte. Apesar disso, teve uma pequena queda de produção, voltou a figurar na reserva, e marcou apenas mais dois gols até o final daquela temporada. Ainda assim, no início do ano 2000, foi eleito o melhor jogador asiático do ano de 99, prêmio concedido pela Confederação Asiática de Futebol.

Na temporada seguinte, Daei começou com tudo, marcando nas cinco primeiras partidas, mesmo saindo do banco em quatro delas. Mas novamente, não conseguiu se firmar entre os titulares e não balançou mais as redes no restante da temporada. Em 2001/2002, fez apenas 12 partidas pelo clube alemão sem marcar gols. Ao menos pela seleção iraniana, Daei jamais deixou de ser o principal nome da equipe. Ainda assim, a repescagem contra a Irlanda não conseguiu ser superada, e o Irã acabou vendo da TV o primeiro mundial realizado no continente asiático.


Após o fracasso nas Eliminatórias, Daei retornou para a Ásia. Já com 34 anos, assinou com o Al Shabab, do Emirados Árabes, e marcou 11 gols em 25 partidas. Em 2003 voltou ao Irã para uma nova passagem pelo Persépolis, com 16 gols em 28 partidas. Em 2004, acertou com o Saba Battery. Talvez tenha sido uma das grandes decisões de sua carreira. Pelo clube de Teerã, que posteriormente se mudaria para a cidade de Qom, Daei marcou 35 gols em 65 partidas e foi campeão da Hazfi Cup (inclusive convertendo um dos pênaltis decisivos) e da Supercopa do Irã, além de ter disputado uma Liga dos Campeões da Ásia. Também em 2004, fez uma de suas partidas mais memoráveis, marcando quatro vezes contra Laos, em sua 100ª partida pela seleção iraniana.

Apesar dos bons números, seu contrato não foi renovado. Aos 36 anos, disputou sua segunda Copa do Mundo, mas longe da forma física ideal, disputou apenas duas partidas, novamente, sem marcar gols. E quem pensou que veria o jogador se aposentar, se surpreendeu com Daei liderando o Saipa, clube de uma indústria de automóveis de Teerã, ao título nacional em 2006-07. Também como treinador da equipe, marcou um dos gols na partida final do campeonato. Coroado, enfim decidiu se retirar dos gramados.


Goleador, exímio cabeceador, ainda possuía muita habilidade, apesar dos 1,92 de altura. Detém o recorde de mais gols por uma seleção nacional, com incríveis 109 gols em 149 partidas pelo Irã. Assumiu o recorde anterior, de 84 gols do húngaro Férenc Puskás, em 2003, em uma partida contra o Líbano. O mais curioso, é que de 1996, ano em que atuou pelo Al Sadd, do Catar, até 2007, quando se aposentou pelo iraniano Saipa, Daei marcou 132 gols em 345 partidas por clubes, número apenas um pouco superior ao marcado pela seleção. Em 2005, quando tinha 102 gols, chegou a declarar ao site da FIFA que chegaria aos 120 gols. Não conseguiu bater a meta, mas marcou seu nome na história do futebol mundial. É também o maior artilheiro da história das eliminatórias para a Copa, com 35 gols.

A seguir, você pode ver o vasto repertório do Rei Persa: gols de pé direito, esquerdo, de habilidade, de raça, na bola parada e, claro, no excelente jogo aéreo do jogador, que sabia se posicionar e cabecear como poucos.


Durante sua carreira, Ali Daei fez dupla de ataque com três brasileiros em sua passagem pelo futebol alemão: com Élber, no Bayern de Munique, com o falecido Alex Alves e com Marcelinho Paraíba, ambos pelo Hertha Berlim. Mas é do atacante do Bayern que Daei tem as melhores recordações. Em uma entrevista ao site da FIFA, questionado sobre um jogador que ele admirava, Daei respondeu que era difícil escolher um, mas que se inspirava em Élber.

Além dos gols e das campanhas na Copa da Ásia e em Copas do Mundo, Daei foi bicampeão como jogador da West Asia Football Federation Championshp, em 2000 e 2004, e levou o tri em 2008, em sua curta passagem como treinador do selecionado.

Se no Team Melli, seu desempenho como treinador foi abaixo das expectativas, nos clubes conseguiu alguns bons resultados. No Saipa, logo após pendurar as chuteiras, levou o time ao título da Copa do Golfo Pérsico. Depois do período na seleção, assumiu o Persépolis, e sagrou-se bicampeão da Hazfi Cup (2010 e 2011). Depois teve uma passagem pelo pequeno Rah Ahan, e retornou ao Persepólis, onde não durou muito. Após um período de quase um ano sem treinar nenhuma equipe, Daei assumiu o Saba Qom, em julho de 2015, onde possui fraco desempenho, bem abaixo do que costumava fazer quando tinha a bola nos pés. Certa vez, disse uma frase que resumiu bem seu estilo de jogo, mas também seu modo de vida.

"Durante todos esses anos, futebol foi a minha vida, e marcar gols foi a minha prioridade".
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Texto publicado originalmente em 11 de maio de 2016 no blog Escrevendo Futebol.



Em 2011, a Líbia via o regime de Muammar Gaddafi sucumbir. Como era de se esperar, a queda do ditador trouxe os mesmos males dos quais padecem outras nações que, digamos, receberam uma "dose de democracia ocidental". O país vive atualmente* uma guerra civil, e está retalhado politicamente, dividido basicamente em quatro grandes facções: o Parlamento Líbio, governo internacionalmente reconhecido, apoiado pelo Exército Nacional, pelo grupo paramilitar Brigadas de Zintan e por países como Estados Unidos e Rússia; o Novo Congresso Geral Nacional, formado pelos derrotados nas eleições de 2014 e ligado a grupos paramilitares como a RSF, do Sudão e milícias étnicas como os Tuaregues; o grupo jihadista Conselho da Shura de Revolucionários de Bengazi; e o mais famosos grupo terrorista da atualidade, o Estado Islâmico.

Nos 42 anos à frente do poder, Muammar Gaddafi colocou a Líbia como um dos países de maior IDH da África e chegou a deixar o país com a menor dívida pública do mundo. Entretanto, perseguiu, torturou e matou oposicionistas, atuou em diversos conflitos no continente africano de maneira contraditória, concentrou as riquezas da nação em suas mãos e mais recentemente, durante o conflito que o derrubou do poder e o assassinou, cometeu diversos crimes contra a humanidade (vale salientar aqui, realizados também por facções contrárias ao ditador, e por soldados da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte). Mas a principal marca de Gaddafi, ao menos para nossa cultura pop, era sua excentricidade. O dinheiro e o poder são ingredientes perfeitos para os mais bizarros e curiosos personagens. Não seria diferente com a família Gaddafi, e isso alcançou também o futebol, que é onde queríamos chegar com essa rápida contextualização da política líbia.

Al Saadi Gaddafi, terceiro de oito filhos de Muammar Gaddafi, é um desses seres que preferem aproveitar o poder para curtir a vida adoidado, como a personagem interpretada por Matthew Brodderick, em uma tarde livre em Chicago, mas sem o mesmo carisma, claro. Apaixonado por futebol, se tornou jogador, dirigente e tudo o que se puder imaginar no futebol líbio. Foi campeão pelos maiores clubes de Trípoli, o Al Ahly e o Al Ittihad. Mas sempre levantou óbvias suspeitas. Quem ousaria o vencer? Que árbitro não marcaria um pênalti em lance duvidoso? Capitaneava a seleção nacional, da qual também era presidente, e derrubava treinadores como se fosse dirigente brasileiro. Segundo a Wiki italiana, foi bicampeão nacional pelo Al Ittihad (2002 e 2003), da Copa da Líbia pelo Al Ahly (2001) e bicampeão da Supercopa da Líbia, uma pelo Al Ahly e outra pelo Al Ittihad (2001 e 2003). Jogou até mesmo partidas pela Liga dos Campeões da África.

Na maravilhosa era do Youtube, podemos ver as qualidades de Saadi como jogador. Sinceramente, a não ser que os outros jogadores não fizessem nada quando jogassem contra ele, até que não aparentava ser tão ruim, ao menos para os padrões líbios.



Playboy, curtia muitas de suas férias na paradisíaca Malta e em junho de 2000 assinou com o Birkirkara, com o objetivo de jogar a Champions League. Por algum motivo, Saadi sequer vestiu a camisa do clube maltês. Mas ele continuaria a almejar o sonho de atuar em uma grande equipe. E conseguiria, certamente, graças a sua atuação nos bastidores da bola, em especial no futebol italiano. Vamos voltar na história e lembrar a ligação entre Líbia e Itália. O país africano foi colônia italiana entre 1911 e 1947, e com Gadaffi, ambos se tornaram importantes parceiros comerciais.

Sua influência era gigantesca. Em 2002, convidou dirigentes de vinte federações e associações da África para um encontro em que agraciou cada um deles com 4 milhões de dólares. Tudo isso para ajudar o suíço Jospeh Blatter, presidente da FIFA, a manter seu "carisma" com o futebol local, de acordo com o livro Jogo Sujo, do jornalista inglês Andrew Jennings. A relação com os donos do jogo era tamanha, que a Líbia chegou a apresentar uma candidatura conjunta com a Tunísia para sediar a Copa do Mundo de 2010, mas ambos os países desistiram após a FIFA afirmar que não consideraria candidaturas conjuntas. Jogando pelo Al Ittihad, conseguiu marcar partidas contra gigantes europeus como o Barcelona e a Juventus. No dia 2 de abril de 2003, o Més que un club goleou o Al Ittihad por 5 a 0 diante de 15 mil pessoas no Camp Nou.


Também em 2002, assinou com a Lazio, clube no qual já havia participado de treinos, um acordo de cooperação com a Federação Líbia de Futebol e comprou 7% das operações da gigante Juventus por 17 milhões de euros. "Desde que nasci sou fã da Juventus, e isso só ficou mais forte com os fantásticos jogadores que se seguiram a Platini: Roberto Baggio, Alessandro Del Piero e Zinedine Zidane", disse em entrevista na época. Tentou, tempos depois, uma aproximação com o inglês Liverpool. Amigo de Maradona, foi treinado durante três anos pelo ex-velocista Ben Johnson, aquele mesmo, pego no doping durante as Olimpíadas de 88, em Seul.

Conseguiu também levar a decisão da Supercoppa italiana para Trípoli. No Estádio 11 de junho, a Juventus, time do coração de Saadi, venceu o Parma por 2 a 1, com dois gols de Del Piero. Na festa do título, claro, lá estava Saadi aparecendo em todas as fotos. Não fica difícil relacionar a produção de petróleo líbia, uma das principais do mundo, com a Fiat, proprietária histórica do clube bianconero.


Em 2003, Gaddafi realizou com o Al Ittihad, uma viagem ao Brasil. Enfrentou uma equipe de reservas do São Paulo, no Morumbi, no dia 27 de março, e empatou por 1 a 1, com direito ao craque Careca como camisa 9 de seu time. Claro que imaginamos que o time tricolor tenha tirado o pé. Dill abriu o placar de falta e Harei empatou para o time líbio. Saadi ainda pôde conhecer a estrela Kaká. O líbio afirmou à imprensa que "seria muita pretensão querer jogar no São Paulo" e convidou o Tricolor paulista para um amistoso em Trípoli, naturalmente, jamais realizado. A imagem é uma reprodução do jornal Estado de São Paulo.


Ainda em 2003, fechou com a tradicional equipe italiana do Perugia, que fez naquela temporada sua última participação na Serie A. O presidente do grifo na época era o fanfarrão Luciano Gaucci. A negociação contou inclusive com um dedo do então primeiro-ministro italiano e dono do Milan, Silvio Berlusconi, aliado político e econômico de Muammar Gaddafi.

A maluquice ganhou as manchetes de todo o mundo, mas o retorno esportivo foi nulo. Saadi estreou em um jogo oficial apenas nove meses após a assinatura de contrato. Primeiro porque o técnico Serse Cosmi tinha bom senso. Depois, quando passou a ser relacionado, foi pego em um exame antidoping com traços de Nandrolona (uma espécia de anabolizante) no sangue.  Seu único jogo foi um duelo diante da Juventus (de novo a Vecchia Signora). Mas o jogador entrou apenas nos 15 minutos finais. Ao menos o Perugia manteve a vitória por 1 a 0. Saadi ainda ficou na equipe pela temporada seguinte, porém, sem entrar em campo.


Em 2005, acertou com a Udinese, que jogaria os play-offs da Champions League. Mas além de não ter atuado pela competição continental, jogou apenas 11 minutos de uma partida contra o Cagliari, já no final da temporada. Na temporada 2006-07 foi a vez da Sampdoria fazer parte da história do jogador-ditador líbio. Atuou em apenas uma partida amistosa contra a Spezia. Foi sua última partida como profissional.

Segundo oposicionistas, Saadi também mostrou seu lado déspota em diversas ocasiões esportivas. Relatos afirmam que em 96, na final da Copa da Líbia, após o Al Ahly de Benghazi ter conquistado o título, homens do exército líbio dispararam contra a torcida. Vinte pessoas teriam morrido. A cidade de Benghazi, e mais especificamente o clube, era historicamente oposicionista do regime de Gaddafi, e não são poucos os que acreditam em uma conspiração de Saadi para acabar com a equipe, que teria tido troféus, medalhas, e até parte de sua infra-estrutura destruída sob ordens diretas do jogador e dirigente durante os anos 2000.


Além disso, foi acusado de ter torturado e assassinado o ex-jogador e então comentarista de futebol Bashir al-Riani. Até mesmo rumores sobre sua sexualidade foram levantados. Um ex-jogador do Al Ahly, Reda Thawargi, alegou anos depois ter sido preso por negar as investidas de Saadi. A suposta bissexualidade de Saadi teria enfurecido o líder Muammar, de acordo com diplomatas americanos em documentos revelados pelo Wikileaks.

Mesmo assim, em 2011, comandou as Forças Especiais da Líbia. Após a morte de seu pai, tentou se refugiar no México, mas não conseguiu. Passou três anos no Niger, onde foi capturado em março de 2014. Na ocasião, após a extradição, o governo líbio afirmou que iria "tratar o acusado de acordo com os princípios da justiça e das medidas internacionais que regem o tratamento dos detidos". Em 2015, um vídeo foi divulgado mostrando Saadi e outros presos sendo torturados. Certamente, não foi o final de carreira que Saadi imaginou para si.
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Texto publicado originalmente em 14 de fevereiro de 2016 no blog Escrevendo Futebol.



Leonardo Caetano Manzi, ou apenas Leonardo Manzi, como é mais conhecido, foi um dos atacantes mais emblemáticos da primeira metade da década de 2000, especialmente pelas três temporadas que realizou no Juventude, marcando seu nome na história do clube gaúcho e também do Campeonato Brasileiro. Entretanto, o atacante nascido em 28 de abril de 1969, em Goiânia, tem muita história pra contar desde seu início no futebol, no Vila Nova, passando por um período de 10 anos na Alemanha antes de voltar ao Brasil. O atacante, que apesar de sua altura e peso (1,85m e 87kg), era veloz e ótimo finalizador, falou com exclusividade para o blog sobre seus momentos no futebol.

O início em Goiânia

Como a grande maioria dos atletas, a infância de Leonardo Manzi foi de muita dificuldade, e foi no futebol que ele buscou as oportunidades de vencer na vida. "Vim de família pobre e foi muito difícil pra iniciar a carreira. Comecei no Goiás com onze anos, mas era um clube muito longe pra mim. Chegava a ir a pé, a caminhar de oito a dez quilômetros. Em 82, aos treze anos, me transferi para o Vila Nova. Eu tinha um tio, Gebrair, que jogou nos anos 50, 60 pelo Vila. Foi um dos ídolos na história do clube, e mostrei esse interesse de jogar futebol e vestir a camisa do Vila". Caçula de uma família de oito irmãos, Manzi ainda teve de enfrentar a perda do pai, antes mesmo de dar seus primeiros passos no mundo da bola. "Graças a Deus consegui realizar meu sonho, que era o sonho do meu pai. Perdi meu pai eu tinha dez anos, pouco antes de iniciar a carreira. Meu pai novo, com 38 anos, e ficou só minha mãe. E claro, sobrou o futebol pra mim".

No Tigrão, Manzi fez toda a base, onde se destacou em sua estreia no profissional e também na Copa SP de Juniores. "Fiquei até 88, me profissionalizei lá no Vila Nova, e depois já como profissional tive um Campeonato Goiano muito bom, fui revelação do torneio. E no mesmo ano fizemos um campeonato muito bom na Copa SP de Juniores". No estadual, Leonardo marcou nove gols, mesmo com o Vila fazendo uma campanha bem abaixo do esperado, e terminou como um dos artilheiros. Na Copa SP, o Vila Nova passou da primeira fase, e na segunda fase acabou caindo diante do Flamengo e do Matsubara. "Depois voltei pra Goiânia, e o Juan Figer (empresário uruguaio) se interessou pelo meu futebol, comprou meu passe e emprestou ao Santos".

A primeira grande oportunidade

Na Vila Belmiro, ainda em 88, Leonardo Manzi participou de seu primeiro Campeonato Brasileiro. O Santos fez campanha mediana, terminando em sétimo nos dois turnos, e em 18º na classificação geral. Leonardo, mesmo tendo marcado apenas três gols em 14 jogos disputados, foi o líder da equipe no quesito. Para o jogador, ficou um sentimento de que poderia ter feito mais. "Saindo da casa da mãe, tentando uma carreira no futebol, tentando algo na vida. Sabendo das dificuldades que eu enfrentava em um clube grande. Infelizmente eu senti um pouco isso aí. Não teve como dar continuidade naquele trabalho que fiz no Vila Nova, pela pressão, pela saudade da família. Principalmente pela minha mãe. Eu acompanhava ela em tudo, eu era o companheiro dela em casa,  já que meus irmãos estavam quase todos casados. No tempo que vivi no Santos, ainda teve um problema de saúde da minha mãe, que afetou inclusive meu psicológico", conta, explicando o mau rendimento. A adaptação era ruim também fora dos gramados, afinal, era uma época bem diferente do futebol brasileiro. "Ás vezes não tinha dinheiro pra pagar a passagem de ônibus. Os salários eram muito baixos, principalmente jogador que ainda não tinha nome no cenário brasileiro. Situação financeira não era das melhores mesmo em um time como o Santos".


A vida na Alemanha

Foi então que o empresário Juan Figer decidiu levar o garoto para uma experiência fora do país, no pequeno St. Pauli, da Alemanha, clube conhecido por sua torcida que defende bandeiras progressistas em suas bancadas. "Cheguei pra fazer teste no St. Pauli. Pensei comigo mesmo: 'é mais uma chance na sua vida e não vamos perder essa oportunidade, não'. A minha sorte que cheguei no meio do ano, verão ainda. País bonito, mentalidade muito diferente da nossa, e eu via como a última oportunidade da vida, como atleta e financeiramente. Meu maior sonho era ajudar minha família". A chegada de Manzi ao St.Pauli causou euforia. O Bild estampou em suas páginas de que o clube de Hamburgo estava levando o "pequeno Pelé", uma referência ao clube do qual o jogador estava vindo.


Exageros à parte, Manzi caiu rapidamente nas graças da torcida por estar sempre sorridente, mas recebeu severas críticas por seu futebol. Os anos se passaram com o jogador sendo apenas mais um dos coadjuvantes da modesta equipe. "Foi um período de adaptação. O treinador e o clube entendiam isso. Alguns atletas entendiam isso, outros não tinham tanta paciência. Tive bastante dificuldade, senti na pele até mesmo por ser negro. Mas foram poucas as coisas que conseguiram me derrubar". Leonardo Manzi chegou apenas três meses antes da queda do Muro de Berlim. Foi testemunha ocular da história de integração entre as Alemanhas Ocidental e Oriental. E viu também os rastros de intolerância entre os dois lados. Certa vez, ao ir jogar contra o Dynamo Dresden, Manzi sofreu com insultos racistas ao partir para uma cobrança de pênalti. Os torcedores na arquibancada imitavam o som de um macaco. Ele converteu.

No fim da temporada 92/93, porém, Leonardo Manzi ganhou status de ídolo ao salvar a equipe do rebaixamento na última rodada, contra o Hannover 96. "O St Pauli estava numa fase ruim, mas eu estava bem, com uns dez, onze gols no campeonato. Fizemos um jogo que se a gente empatasse iríamos para a terceira divisão. E consegui fazer o gol da vitória. Isso não ficou marcado só pra mim, mas também na história do clube. Peguei um treinador (Josef Eichkorn) que me deu muitas oportunidades e eu estava dando conta do recado". Na temporada 94/95, Manzi esteve no elenco do time vice-campeão da 2. Bundesliga, mas seu tempo na equipe da cidade de Hamburgo estava prestes a acabar. Com o treinador Uli Maslo, Manzi perdeu espaço. "Eu treinava com o profissional e jogava com o time B. Ficou muito difícil, trabalhei dois anos dessa forma e chegou um ponto que não dava mais. Aí apareceu a oportunidade de ir para o Hannover", conta o jogador.

Após sete anos no St. Pauli, Manzi assinou com o Hannover para a temporada 96-97. Apesar da expectativa criada pelo bom time montado, o acesso para a elite acabou não vindo. "Aquele ano o time tinha caído pra terceira divisão, e naquela época era Regionalliga. Hoje é profissional. O Hannover montou um time muito forte com jogadores que não estavam sendo aproveitados em equipes da primeira divisão. E no mata-mata de acesso, na final contra o Cottbus, infelizmente não deu certo. Perdemos, empatamos o primeiro em casa e perdemos o segundo fora. Não subimos pra segunda. Na temporada seguinte, eu fiquei mais seis meses, tive um probleminha com o treinador, e rescindi o contrato, voltando pra Goiânia”.


Mas logo surgiu outra oportunidade no futebol alemão. "Fiquei seis meses desempregado aqui em Goiânia,  e aí apareceu uma oportunidade de voltar para a Alemanha, para o Cloppenburg. Um time que na época era da Regionalliga. O Kay Stiese, um amigo meu que jogou comigo no St Pauli me ligou, perguntou o que eu estava fazendo, se não tinha interesse de voltar e voltei. Foi quando finalzinho de 99 pra 2000 eu voltei de férias. Tinha mais seis meses de contrato, tava bem, tava como capitão do time. Mas minha esposa não se adaptou muito bem à cidade, e ela preferiu ficar em Goiânia. Foi quando eu também decidi rescindir o contrato e voltar pro Brasil. Mas sem interesse de voltar a jogar futebol”.

A volta para o Brasil

O retorno aos gramados brasileiros se deu então por Ernesto Guedes, treinador que lançou Leonardo Manzi no profissional no Vila Nova. Ele indicou o atacante para o então treinador do Internacional, Zé Mário, ex-meia de times como Vasco, Fluminense e Flamengo. Manzi fez parte de um "pacotão de reforços" que desembarcou no Beira-Rio, que incluía o lateral Marcelo Santos, os zagueiros Márcio Goiano e Carlinhos, o meia Tim e o atacante Rodrigão. O jogador chegou em um momento ruim do Colorado, que contava com um elenco bem limitado tecnicamente. Apesar disso, o jogador é só agradecimentos ao clube. "Sou muito grato ao Inter, muito mesmo. Na época o Zé Mario era o treinador, uma pessoa maravilhosa. Até postei uma foto há pouco tempo do time de 2000 , agradecendo a diretoria. Porque você voltar pro Brasil depois de quase 10 anos, sair com 18 anos sem ninguém te conhecer e voltar totalmente desconhecido ainda. Eles me abraçaram, me deram muita oportunidade. Me viram como ser humano principalmente. só tenho a agradecer ao Internacional. Torço muito pelo Inter, espero que a cada dia que passe o clube possa alcançar o lugar que é merecedor". Na Copa João Havelange, o Inter ainda chegou às quartas-de-final, sendo eliminado pelo Cruzeiro.


Em 2001, Leonardo se transferiu para  Juventude, e foi no Papo que o jogador teve um de seus melhores momentos na carreira. É ele, por exemplo, o maior artilheiro do clube em Campeonatos Brasileiros, com 25 gols. "Me adaptei melhor ao ritmo do futebol brasileiro. Cidade muito boa também, minha esposa ficou muito feliz com Caxias. E graças a Deus, como profissional, pude representar bem o escudo do Juventude. Fui muito feliz nos primeiros dois anos". Entretanto, Manzi deixou o Juventude no início de 2003 para jogar pelo Gama. No clube do Distrito Federal foi campeão estadual e artilheiro com 8 gols. Na final, marcou dois gols na vitória por 4 a 1 sobre o rival Brasiliense.


Mas ainda em 2003, o Juventude, precisando fugir do rebaixamento, voltou a contar com Manzi no ataque. No fim do campeonato, o clube gaúcho terminou na 18ª posição, quatro pontos acima do primeiro rebaixado. O jogo mais marcante daquele ano foi a goleada por 6 a 1 sobre o Corinthians, até hoje a maior goleada já sofrida pelo Timão em Campeonatos Brasileiros. "Realmente, foi surpreendente pra todo mundo. É um fato que é inesquecível não só pra mim, mas para os jogadores que estavam naquele jogo, a torcida, é um fato inesquecível até mesmo pra história do futebol brasileiro. Fazer parte de um momento desse, principalmente a nosso favor. Se eu tivesse tomado de seis com certeza já tinha esquecido isso aí (risos). Foi legal, principalmente marcando gol. Foi um jogo muito bom, a gente aproveitou aquela oportunidade".

Porém, foi no mesmo período que Manzi passou por seu pior momento na carreira. No dia 21 de setembro, Leonardo Manzi marcou dois gols na vitória do Juventude por 4 a 0 sobre o Atlético-PR. Um mês depois, o exame antidoping realizado pelo jogador naquela noite deu positivo para nortestosterona, e Manzi foi suspenso até fevereiro do ano seguinte. "O lance do doping me pegou. Porque eu, graças a Deus, nunca precisei fazer coisas erradas extra campo pra me sobressair ao adversário. Sempre soube das minhas limitações, da minha capacidade, do que era capaz ou não. Deixo bem claro que minha consciência até hoje está limpa e tranquila. Não sei o que aconteceu, não conseguimos descobrir. Mas por ser uma substância proibida, paguei por esse erro, por essa coisa que aconteceu, mas tenho a consciência limpa. Passei por esse período, não foi fácil. Fui até discriminado algumas vezes, mas é muito fácil apontar o dedo. Isso eu relevo. Sempre fui tranquilo. Superei isso junto com minha familia".


Já em 2004, Manzi quase deixou o Alfredo Jaconi para vestir a camisa tricolor do Paraná Clube, mas a negociação, que chegou a ser dada como certa pela diretoria paranista, não se concretizou. "Quanto mais se conhece o homem, mais se dá valor ao cachorro", disse José Domingos, então diretor paranista, sobre a negociação mal sucedida, afirmando que Manzi errou com o clube. Aliás, o próprio jogador assume o erro, mas nega má intenção com o Tricolor. "Eu tava de férias em Goiânia, e houve o contato com um dirigente, não lembro mais o nome. Senhor muito educado, me tratou muito bem por telefone. E eu dei meus valores pra trabalhar pelo Paraná, eles acharam alto na primeira proposta que fiz. E naquele momento não teve acordo. Depois eles voltaram a ligar, pediram para ir a Curitiba. Conversamos, me trataram muito bem, fechamos valores, mas não deixamos nada assinado. E eu deixei bem claro pra ele. 'Eu tenho que voltar pra Caxias de qualquer forma. A ultima palavra é do Juventude. Eles me deram prioridade.' Quando voltei pra Caxias sentei com os dirigentes do Juventude, dei os valores que o Paraná me ofereceu naquela ocasião e o Juventude simplesmente falou que cobria. Eu tava muito adaptado à Caxias do Sul, minha família também. E acabei optando por seguir no Juventude. Meu único erro naquele momento foi não ter informado o pessoal do Paraná, que ficou esperando uma resposta minha. E eu simplesmente renovei o contrato com o Juventude e não dei o retorno à direção do Paraná. Por um lado ficou o Leonardo Manzi como mau caráter. Mas acho que é quando você assina um compromisso. Eu estava negociando os valores para trabalhar. Não foi coisa de um real a mais ou um milhão. Foi apenas o fato de eu e minha família já estarmos adaptados à Caxias. Não dei o retorno e eles ficaram mesmo muito chateados, até com razão", explicou o atacante.

A realização do sonho de menino

Depois de jogar mais uma temporada pelo Juventude, em 2005 o atacante voltou às origens, vestindo a camisa do clube que o revelou. "Na volta ao Vila, eu queria realizar meu sonho de ser campeão goiano com a camisa do Vila Nova. Eu tive sondagens de outros clubes, mas recusei porque estava com a idade já avançada, e sabia que não teria outra oportunidade de realizar meu sonho de criança, que era um dia ser campeão goiano profissional. Porque nas categorias de base do Vila Nova eu tenho todos os títulos". E Manzi conseguiu, embora tenha visto o triunfo sobre o Goiás nos pênaltis do lado de fora. "Acabei sendo expulso, no finalzinho do jogo. Eu tava muito ansioso pra ser campeão, acabei me precipitando em uma falta, acho que no André Leone. Depois rolou um problema com o Julio Santos. Fui campeão e no mesmo ano teve a Série B. O time era muito bom, e por pouco não passamos para os playoffs".


Com o fim precoce da competição, Manzi precisava voltar a trabalhar. "Liguei pra um amigo meu da Alemanha , o Albert Spreu, que era dono do Wilhelmshaven, explicando minha situação e disse que queria voltar pra Alemanha e ele aceitou. Na época o clube tava na quarta divisão, tinha possibilidade de subir. Cheguei no finzinho faltando oito, dez rodadas". O clube conseguiu o acesso para a 3.Bundesliga e Manzi recebeu uma proposta diferente para a temporada seguinte. "O próprio dono do clube perguntou se eu não queria ser auxiliar técnico. Aceitei, já tava com meus 37, 38 anos. Fiquei um ano como auxiliar. Mas daí caímos na temporada 07-08. Foi onde voltei a jogar de novo. O mesmo Albert perguntou se eu queria voltar a jogar pra ajudar o time a subir de novo. Voltei, mas acabei me lesionando. Uma artrose no pé direito, num treinamento na neve. E aí o médico deu um prazo de 4 meses de recuperação. E como eu já havia sido auxiliar, e o time B tava sem treinador, me ofereci pra assumir o cargo de técnico.O auxiliar do time principal tava assumindo essa função e tava sobrecarregado. Ele aceitou e eu comecei a trabalhar como treinador mesmo e tomei gosto. Fiquei mais seis meses como treinador da equipe B".

Ao término do contrato e já oficialmente aposentado dos gramados, Leonardo Manzi voltou ao Brasil. Depois de um tempo parado, em 2010 foi convidado para assumir o sub-17 do Vila Nova. No ano seguinte subiu para o sub-20, onde treinou alguns garotos como o meia Jorginho (Atlético-GO), Rondinelly (ex-Grêmio) e John Lennon (Cruzeiro). Leonardo Manzi deixou o clube em 2012 e de lá pra cá não trabalhou mais com futebol, embora ainda deseje voltar a trabalhar com o que mais gosta. "Estou tentando alguma coisa, buscando uma oportunidade, mas infelizmente se você não tem um pessoal forte pra te ajudar você fica realmente desempregado. Mas é esperar em Deus, para que essa porta em breve venha a ser aberta pra gente trabalhar".

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Texto originalmente publicado em 13 de julho de 2017.