Inusitado “jogo das máscaras” completa 10 anos


Por João Heim

Dez anos atrás, em Cascavel, interior do Paraná, um dos fatos recentes mais curiosos do futebol brasileiro aconteceu. O famoso “jogo das máscaras”, entre Coritiba e Santos, no Estádio Olímpico Regional Arnaldo Busatto, entrou para a história e viu o florescimento de duas promessas do futebol nacional.

Contexto

O Brasil e o mundo viviam um surto e um grande medo de epidemia da famosa Influenza H1N1, popularmente chamada de gripe suína. Algumas mortes e vários casos foram registrados, principalmente na região sul do Brasil, região mais fria e propensa a casos da gripe. Na cidade de Cascavel, a 140 km de Foz do Iguaçu e 500 km da capital paranaense, Curitiba, o clima era de apreensão com a doença. 

Estabelecimentos públicos com aglomeração, como igrejas e escolas, foram fechados, para evitar a transmissão da doença até que os casos diminuíssem. Na época, a cidade tinha oito casos da gripe confirmados e outros 365 sob investigação, com cinco pessoas suspeitas de falecerem por causa da doença. O exército chegou a montar um ambulatório provisório no centro de convenções da cidade para trabalhar na prevenção e cuidados da Influenza H1N1.

No meio disso tudo, o Coritiba havia sido punido por uma briga entre torcedores do clube e do rival, Athletico, e perdeu um mando de campo. Sendo assim, a equipe alviverde decidiu mandar o jogo contra o Santos, pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro, para Cascavel. Com todo esse contexto, o Ministério Público queria o cancelamento da partida ou que ela fosse jogada com portões fechados, pela segurança das pessoas. A justiça acabou permitindo a realização do jogo, mas determinou que os presentes no estádio usassem máscaras. Caso a medida não fosse cumprida, a prefeitura de Cascavel teria que pagar uma multa de 300 mil reais. A secretaria de saúde da cidade comprou 20,5 mil máscaras e assim viabilizou a realização do evento.

Expectativas do jogo 

No onze inicial do Coritiba para aquela partida, o atacante Bruno Batata relata que a memória já não ajuda para lembrar os detalhes daquele jogo acontecido há dez anos, mas que os jogadores souberam dias antes sobre os problemas com a gripe suína e viram no noticiário que os torcedores usariam as máscaras na partida. “Confesso que a gente não temia muito (a gripe), até porque quando você entra ali em campo pra jogar, você esquece um pouco desses fatores”, afirma o jogador. 

Para Antonio Abelardo, repórter de uma rádio local naquela partida, o clima também era diferente na cidade, com muito burburinho com o público tendo que usar máscaras, mas não um clima de medo por parte das pessoas. “É a primeira vez na história de você ir transmitir o futebol com a máscara, até mesmo atrapalhando um pouco o que você ia falar”, afirma. Ele relata que teve contato de rádios e veículos do país todo pedindo por informações da partida e como estava a situação na cidade, tamanha a expectativa da imprensa e do público para o evento.


O repórter diz que o fato inusitado mais próximo do jogo das máscaras que ele presenciou na carreira foi o falecimento de um colega de trabalho, atingido por um raio em Nazaré das Farinhas, na Bahia, com a descarga elétrica atingindo o fio do microfone da vítima. “Tava chovendo muito, no intermunicipal, e aí veio aquela descarga elétrica. Naquela oportunidade, se trabalhava só com fio. O microfone era ligado com fio de 100, 200 metros e um colega morreu naquela ocasião”, conta.

O Jogo

Para aquele jogo, o Coritiba não vinha na melhor situação no campeonato e tinha como destaques em campo o goleiro Edson Bastos, os meio campistas Carlinhos e Marcelinho Paraíba, Pedro Ken e Leandro Donizete, além do treinador Ney Franco. Já o Santos, tinha nomes de destaque como os laterais Léo e Pará, o meia-atacante Madson, o centroavante Kléber Pereira, o treinador Vanderlei Luxemburgo e dois jovens que seriam destaques num futuro breve: Neymar e o até então chamado Paulo Henrique Lima, o Paulo Henrique Ganso. 

A partida não teve grandes emoções e o meia Ganso fez o único gol da partida, no rebote do chute de Léo, que Edson Bastos rebateu nos pés do jovem jogador, que só completou para as redes. Bruno Batata admite que o jogo não foi de grande qualidade, que o gramado não ajudou ambas as equipes e que a derrota coxa branca, a segunda em sequência no momento, não ajudava a situação do clube. O Coritiba acabou, no final do campeonato, rebaixado para a segunda divisão, após o traumático jogo contra o Fluminense, onde os torcedores invadiram o campo e depredaram o estádio Couto Pereira. O Santos, por sua vez, terminou a rodada em décimo primeiro e o campeonato em décimo segundo lugar, sendo o começo de uma geração vencedora, que teria o auge em 2011 no título da Libertadores, justamente com Neymar e Ganso em evidência.

Quem estava no Coritiba x Santos afirma que já era possível ver que os jovens jogadores tinham algo diferente. “O Ganso já dava pra ver que era um jogador maduro, diferenciado, diferente do Neymar, que nesse jogo entrou no segundo tempo. Ainda era um menino, a gente nem tinha noção no que ele ia se tornar” conclui Bruno Batata, que viu os dois direto do campo. “O técnico, Luxemburgo, tava soltando ele (Neymar) aos poucos, molecão, já tava entrando e fazia aquele salseiro na equipe do Santos” recorda Abelardo sobre Neymar, que desde muito novo já chamava as jogadas para ele. 


A atenção com Neymar, principalmente, era tanta, que Abelardo guarda até hoje fotos daquela partida, entrevistando o jovem craque, e diz que lembrará do curioso episódio para o restante da vida. “Eu posso contar pros meus netos, pros meus bisnetos. A gente acredita que ficou pra história. Um dia, sentado na praça, jogando bingo ou jogando o truco, eu vou dizer assim, ‘pô, aquele jogo das máscaras eu tava lá e transmiti’”.



FICHA TÉCNICA
Local: Estádio Olímpico Regional, Cascavel (PR)
Data: 5 de agosto de 2009, quarta-feira
Horário: 21h50 (de Brasília)
Árbitro: Sandro Meira Ricci (DF)
Assistentes: Marrubson Melo Freitas e Enio Ferreira de Carvalho (ambos do DF)

Cartões amarelos: Dirceu, Cleiton e Pedro Ken (Coritiba); Róbson (Santos)
Cartão vermelho: Róbson (Santos)

GOL: SANTOS: Paulo Henrique Lima, aos 20 minutos do primeiro tempo

CORITIBA: Edson Bastos; Márcio Gabriel (Cleiton), Dirceu, Demerson e Carlinhos Paraíba; Pedro Ken, Jaílton, Leandro Donizete e Marcelinho Paraíba (Renatinho); Leozinho (Thiago Gentil) e Bruno Batata
Técnico: Ney Franco

SANTOS: Felipe; Pará, Fabão, Eli Sabiá e Léo; Rodrigo Mancha, Rodrigo Souto, Madson (Róbson) e Paulo Henrique Lima (Wágner Diniz); Felipe Azevedo (Neymar) e Kléber Pereira
Técnico: Vanderley Luxemburgo

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Fotos: Reprodução/Internet e Acervo pessoal/Antonio Abelardo.

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